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O lado místico de Guimarães Rosa (III)

Experiências paranormais influenciaram a vasta obra literária do escritor
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O lado místico de Guimarães Rosa (III)
Foto: Arquivo / Agência Brasil

“Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.” — Guimarães Rosa

Retomo o empolgante relato de Guimarães Rosa acerca de seus dons paranormais. Entrego, agora, ao distinto leitorado a parte restante do artigo, publicado há várias décadas no “Estado de Minas”, em que o genial autor nos brinda com surpreendentes revelações.

Guima com a palavra:
“Quanto ao Grande Sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido — por forças ou correntes muito estranhas.

Aqui, porém, o caso é um romance que faz anos comecei e interrompi. (Seu título: A Fazedora de Velas). Decorreria, em fins do século passado, em antiga cidade de Minas, e para ele fora já ajuntada e meditada a massa de elementos, o teor curtido na ideia, riscado o enredo em gráfico. Ia ter, principalmente, cenário interno, num sobrado do qual — inventado fazendo realidade — cheguei a conhecer todo canto e palmo. Contava-se na primeira pessoa, por um solitário, sofrido, vivido, ensinado.

Mas foi acontecendo que a exposição se aprofundasse, triste, contra meu entusiasmo. A personagem, ainda enferma, falava de uma sua doença grave. Inconjurável, quase cósmica, ia-se essa tristeza passando para mim, me permeava. Tirei-me, de sério medo. Larguei essa ficção de lado. O que do livro havia, e ao que se referia, trouxou-se em gaveta.

Mas as coisas impalpáveis andavam já em movimento. Daí a meses, ano-e-meio, ano — adoeci, e a doença imitava, ponto por ponto, a do Narrador! Então? Más coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam.

Outro tempo após, tive de ir, por acaso, a uma casa onde a sala seria, sem toque ou retoque, a do romanceado sobrado, que da imaginação eu tirara e decorara, visualizado frequentando-o por ofício. Sei quais foram, céus, meu choque e susto. Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.”

Restou cabalmente provada, no depoimento do próprio autor aqui reproduzido, a incomum capacidade de Guimarães Rosa de poder atingir, com prodigiosa frequência, latitudes superiores na captação das energias sutis que compõem este nosso universo povoado de inexplicabilidades.

Depois de anotar que, por formação ou índole, costumava opor “escrúpulo crítico a fenômenos paranormais”, o escritor viu-se obrigado a reconhecer que sua vida, sempre e desde cedo, “se teceu de sutil gênero de fatos”. E que fatos tão singulares, “entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza”, são mesmo esses, afinal de contas?

A resposta chega de imprevisto, fulminante, de forma a esmorecer costumeiras dúvidas suscitadas pela proverbial dificuldade humana em avaliar situações consideradas fantásticas, misteriosas ou enigmáticas:
“…sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.”

O tema comporta, como não, outras reflexões. Ficam para depois.

Cesar Vanucci
Sobre o autor

Cesar Vanucci

Jornalista ([email protected])

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