O lado místico de Guimarães Rosa IV
“Guimarães é o nosso Homero.” (Paulo Rónai)
“Foi num sonho premonitório, duas noites repetido, que a estória de “Buriti” tomou forma em 48”. É o que atesta Rosa, sem relutância, em artigo escrito muitas décadas atrás. Os estudiosos dos fenômenos abarcados pela Parapsicologia não hesitarão em apontar, nessa revelação, a faculdade de precognição entre os dons do autor.
E qual classificação atribuir ao relato concernente a “Conversa de bois”, do enredo de “Sagarana”? “(…) Recebi-a, em amanhecer de sábado, substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerava como definitiva ao ir dormir na sexta”, sublinha ele.
O ato de haver “recebido” dá o que pensar. Esse processo intrigante de “recepção” mágica (dir-se-á, à falta de definição melhor) ocorre em muitos outros momentos da fecunda trajetória literária de Guimarães, segundo o próprio.
É assim em “A terceira margem do rio”. Assim, em “Campo Geral” (Miguilim e Manuelzão). Uma das estórias “brotou na rua, em inspiração pronta e brusca, vinda de fora”. A outra “foi caindo já feita no papel” (…) “e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e a ligação de suas partes”.
Será que a hipótese da “escrita automática”, também conhecida por psicografia, pode ser encaixada como tentativa de explicação? Ou o que aconteceu guardará sinais de similitude, de certo modo, com um “esclarecimento” que me foi passado, de certa feita, pelo consagrado autor espanhol J. J. Benítez?
Perguntei-lhe em quais fontes se inspirou para o impressionante relato sobre a vida de Cristo que compõe a saga “Operação Cavalo de Tróia”. Pelo que deduzi da resposta, tudo provinha de um manancial de conhecimentos existente em plano superior. As informações teriam sido obtidas por percepção extrassensorial, um tipo de “canalização” ainda não devidamente codificado.
Guimarães parece querer dizer coisa parecida no artigo, quando fala de “Grande Sertão: Veredas”: “(…) forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como (o livro) foi ditado, sustentado e protegido, por forças ou correntes muito estranhas”.
A precognição ganha sentido, mais uma vez, no caso de outro romance que “faz anos, comecei e interrompi” (A fazedora de velas). A doença que veio a acometer o escritor, bem como a visualização antecipada que teve do interior de uma casa visitada, anos depois, “por acaso”, que haviam sido projetadas no romance, causando-lhe “choque e susto”, são elementos a mais a considerar na análise das fantásticas situações, de características iniludivelmente paranormais, vividas pelo genial Guimarães Rosa.
Concluindo este papo sobre o fantástico universo rosiano: não há como negar que as instigantes revelações acerca da paranormalidade do escritor, ouvidas de sua própria boca, reclamam atenções maiores dos estudiosos de sua fabulosa obra.
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