Outra vez, ingerência acintosa
“Não aceitamos tutelas nem ingerências.” (Presidente Lula.)
Para quem mantém os aparelhos de percepção pessoal sintonizados nos acontecimentos do dia a dia não acode a mais leve sombra de dúvida quanto ao nefando propósito de Donald Trump de tentar interferir nas eleições presidenciais brasileiras. As indicações são por demais profusas para serem ignoradas até pelo mais impassível e desinformado cidadão. Com a absurda revogação do visto de permanência nos EUA da embaixadora Maria Luiza R. Viotti, a operação em marcha objetivando desacreditar internacionalmente, por politiquice barata, as instituições democráticas de nosso País alcançou indesejável culminância.
Pelo jeito, a não ser que possante clarão de bom senso ilumine, a tempo, a escrivaninha de despachos presidenciais do salão na Casa Branca, outros atos truculentos de ingerência fatalmente eclodirão.
O Planalto e o Itamaraty têm reagido com a altivez, serenidade e sensatez reclamadas pela ocasião. Deixam claramente expresso que o Brasil é um país soberano, cioso de sua importância política, onde vicejam em plenitude, em rigorosa sintonia com o sentimento das ruas, todas as prerrogativas, direitos, deveres e regras de uma exemplar democracia, admirada e respeitada no concerto das Nações. Não pode e não deve ser tratado, por quem quer que seja, com menoscabo e falta de respeito.
Nosso governo registrou, em nota oficial, haver negado vistos a funcionários do Departamento de Estado norte-americano pelo fato de que ambos “planejavam visitar o País para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional”. Seja ressaltado que a imprensa americana anunciou, com antecedência, que a viagem dos funcionários era ditada pelo propósito acima mencionado.
Brasília classificou ainda como “falsas as alegações de Washington sobre a demora na concessão do agrément para o novo embaixador norte-americano, pontuando que o Brasil segue estritamente a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas”.
Outro ponto enfatizado na manifestação brasileira diz respeito à circunstância de que “o episódio da revogação do visto não é um fato isolado, mas sim parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”.
Analistas qualificados definem o posicionamento de Trump utilizando a expressão “chantagem”. Segundo eles, o Brasil tornou-se laboratório de teste da política de coerção de Trump. Ao usar tarifas econômicas e sanções diplomáticas simbólicas, a gestão norte-americana busca criar desgaste político interno para o governo brasileiro, enquanto avalia os limites da resistência soberana das instituições do país.
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