Parceria contra o crime, sim!
“Pretexto para intervenção é inaceitável” (Diplomata Celso Amorim)
Vamos lá, a classificação de “terroristas”, atribuída ao PCC e Comando Vermelho, ajusta-se como luvas em mãos de operador de aparelhos de alta precisão. O que as duas organizações criminosas, bem como agrupamentos similares – caso das chamadas milícias — promovem em ações mafiosas pode mesmo ser chamado de terrorismo urbano. Cruel e aterrador.
Se a recente decisão do Departamento de Estado dos EUA encerra o propósito de estruturar sistema mais rígido e eficiente, em estreita colaboração com as forças de segurança brasileiras, no sentido de combater e jugular essas engrenagens criminosas; se a prioridade no trabalho de repressão for mesmo voltada para identificar e deter membros dos grupos dos “fora da lei”, alguns deles homiziados em território estadunidense; se a disposição norte-americana abranger a recuperação dos volumosos recursos levados pelos malfeitores para paraísos fiscais e se os organismos de segurança do país irmão conseguirem interromper de vez o fluxo de armas fabricadas nos Estados Unidos e destinadas a facções que operam no Brasil; se assim for, a medida poderá ser saudada com clarins e fogos de artifícios por inaugurar uma nova e promissora era na segurança pública hemisférica.
Mas, agora, se no reverso das situações descritas, o objetivo for ampliar a esfera de influência dos EUA, por vias oblíquas, de modo a submeter ao alvedrio da Casa Branca questões momentosas da exclusiva competência do Poder Público brasileiro, aí, então, a coisa muda totalmente de figura. Nos setores mais clarividentes da vida pública brasileira acendeu-se um sinal de alerta. Despontou receio quanto à possibilidade da decisão anunciada favorecer atos que se contraponham ao interesse nacional, nas áreas econômica e institucional.
A propósito, o governo já deixou evidenciada preocupação no tocante ao fato de o selo de “organização terrorista” vir a ativar, automaticamente, sanções financeiras e restrições de mercado, asfixiando atividades produtivas e constrangendo o aparato estatal. Porta-vozes do Planalto sustentam que o esforço oficial tem sido o de demonstrar que a parceria contra o crime deve se dar no plano da inteligência partilhada, e jamais pela via da imposição de conceitos externos. O Itamaraty, por sua vez, reitera que possuímos legislação soberana e severa para lidar com a criminalidade organizada, e que o atropelo dos fóruns multilaterais cria precedente perigoso de ingerência. Cooperação mútua, sim. Intervenção, não.
O diplomata Celso Amorim diz, em prosa curta, o que toca fazer: “Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável”.
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