Radicalismo versus radicalismo: por que a guerra no Oriente Médio segue sem perspectivas de paz

8 de fevereiro de 2024 às 5h03

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Crédito: Amir Cohen/Reuters

“O consenso sobre a guerra está se desgastando rapidamente.” (Reuven Hazan, cientista político da Universidade Hebraica, de Jerusalém)

O radicalismo extremado de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro do Estado de Israel, conseguiu a impensável façanha de provocar manifestação crítica uníssona de incondicionais aliados à sua maneira arrogante de conduzir a crise política e militar no Oriente Médio.

Antes, ele já se recusava, obstinadamente, a acolher os apelos, provindos de todas as partes, por um cessar fogo humanitário. Fez questão fechada de ignorar os clamores de organismos internacionais como ONU, OMS, Cruz Vermelha, Médicos sem Fronteiras, sobre os rumos apavorantes que o conflito estava assumindo. Conflito esse desencadeado por atentado no território israelita cometido pela organização terrorista Hamas, objeto de condenação generalizada pela comunidade das nações. A justificável contraofensiva foi fulminante, sem todavia alcançar até aqui os resultados almejados entre os quais avulta prioritariamente a libertação na totalidade dos indefesos reféns. Acontece que as ações bélicas alvejaram impiedosamente os habitantes do densamente povoado território de Gaza. Uma gente bastante maltratada por dramáticas contingências de vida, e que na maioria nenhuma participação teve na nefanda sortida terrorista.

Dificuldades intransponíveis vêm se antepondo ao desejo alargado da ONU e centenas de países em se estabelecer uma trégua nessa guerra cruel, de modo a que o sofrimento das pessoas não diretamente envolvidas na sanguinolenta refrega, seja atenuado. As vítimas fatais, crianças na maioria, já ultrapassaram à casa dos 20 mil, o número de feridos alcança cifras alarmantes. Milhões de pessoas sem teto, sem lugar seguro pra ficar, carecem desesperadamente de assistência médica e de meios mínimos de subsistência, as pressões internacionais, reforçadas agora por parcelas significativas da própria comunidade israelita, esbarram na inflexibilidade do primeiro-ministro, que insiste na tese de não deter a marcha bélica até que todos os terroristas sejam eliminados. É o radicalismo enfrentando o radicalismo.

Em seu posicionamento, que preocupa visivelmente as nações amigas, Netanyahu já chegou ao extremo exagero de afirmar que seu país não aceita, definitivamente, a criação do Estado da Palestina, previsto em resolução da ONU aprovado no distante ano de 1948. Seja mencionada, como outra demonstração radical, uma declaração enfática atribuída a um integrante do ministério israelita, de que não existem inocentes em Gaza e que a melhor maneira de se resolver a questão é lançar uma bomba atômica no território. Para alguns observadores, a declaração foi interpretada como revelação de que Israel, como se suspeita, possua armamento nuclear em seu arsenal.

Muito dolorosa essa conjuntura vivida numa região tão rica em simbologia humana e espiritual. Uma região reconhecida como sendo o espaço territorial mais sagrado do planeta por três influentes correntes ideológicas que representam parte colossal do sentimento religioso da humanidade.

Prestes a completar 4 meses, esta guerra sem quartel ensanguenta e tenciona o Oriente Médio e enche de comoção o planeta inteiro. Não há como vislumbrar no horizonte, em tempo próximo – desairosamente para a nossa evolução civilizatória -, perspectiva de uma paz, sequer temporária, que permita conversações e procedimentos humanitários e que assegure socorro mínimo às multidões desamparadas de Gaza, incluídos aí os cidadãos capturados pelos comandos terroristas.

Que Deus ilumine as mentes e corações das lideranças mundiais e dos “senhores da guerra” no sentido de que se desvencilhem das trevas do ódio sectário e mergulhem resolutos, em claridade que favoreça a construção do diálogo e, adiante, de uma paz duradoura.

*Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)

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