Remédio amargo que pode tornar o Brasil mais competitivo
A recente decisão dos Estados Unidos de elevar tarifas sobre determinados produtos brasileiros foi recebida como uma agressão comercial. Sem dúvida, trata-se de uma medida que prejudica exportadores e diversos setores da economia. Mas talvez seja também o momento de refletirmos sobre um problema muito mais profundo: a baixa competitividade estrutural do Brasil. O verdadeiro desafio brasileiro não começou com as tarifas americanas. Ele existe há décadas.
O Brasil consolidou uma das economias mais protegidas do mundo. Elevadas tarifas de importação, barreiras regulatórias e um ambiente burocrático complexo criaram uma economia relativamente fechada. Enquanto diversas nações ampliaram sua integração ao comércio internacional, o Brasil permaneceu dependente da proteção de seu mercado interno.
Durante muito tempo, argumentou-se que essa proteção era necessária para fortalecer a indústria nacional. Em determinado contexto histórico, esse raciocínio fazia sentido. A questão é que, passadas várias décadas, a proteção deixou de ser transitória e tornou-se permanente. Hoje, parte dessas tarifas parece cumprir muito mais uma função arrecadatória do que uma política efetiva de desenvolvimento industrial.
Ao mesmo tempo, o setor produtivo convive com elevada carga tributária, insegurança jurídica, excesso de burocracia e um dos maiores custos administrativos do mundo para cumprir obrigações fiscais. Recursos que poderiam ser destinados à inovação, produtividade e expansão acabam consumidos pela complexidade do ambiente de negócios.
Nenhum país se torna competitivo protegendo indefinidamente seus mercados. Competitividade nasce de produtividade. Nasce de educação de qualidade, infraestrutura eficiente, segurança jurídica, estabilidade regulatória e um sistema tributário que estimule quem produz, em vez de penalizar a atividade econômica.
É justamente nesse contexto que as tarifas impostas pelos Estados Unidos podem produzir um efeito inesperado. Embora representem um problema imediato, elas também podem servir como um alerta para reformas que o Brasil vem adiando há muito tempo.
O País possui recursos naturais extraordinários, liderança no agronegócio, enorme potencial energético, empresários resilientes e um dos maiores mercados consumidores do planeta. O que limita esse potencial não é a falta de capacidade, mas um conjunto de obstáculos conhecidos: burocracia, custos logísticos, infraestrutura deficiente, baixa produtividade, insegurança jurídica e um Estado excessivamente complexo.
Mais do que discutir soberania em discursos, talvez seja o momento de fortalecê-la por meio da capacidade de competir. Países fortes não temem a concorrência; preparam-se para vencê-la.
Independentemente de quem ocupe a Presidência da República, o Brasil precisará enfrentar uma agenda de competitividade baseada em um Estado mais eficiente, simplificação tributária, melhoria da infraestrutura, qualificação profissional, incentivo à inovação e maior segurança jurídica.
Se as recentes tarifas servirem para acelerar essa transformação, talvez esse remédio amargo produza, no médio e no longo prazo, um resultado positivo para a economia brasileira.
O desafio não é responder às tarifas com mais protecionismo. O verdadeiro desafio é construir um país que não precise mais da proteção para competir.
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