Tilden Santiago*

As Parcas já teceram o destino político dos eleitores de Contagem para 2020: uns votarão num seguidor de Bolsonaro, outros votarão numa discípula fiel há décadas ao PT. E outros criarão uma 3ª via diferente de Bolsonaro e do PT. Com isso as pessoas estarão contribuindo para o fim da polarização tão antidemocrática quanto discricionária. Esse escriba pensa que as Parcas, além de Contagem, estão tecendo também o destino eleitoral do Brasil.

Desde as últimas eleições, a conjuntura política brasileira voltou a caminhar dentro de uma inegável “polaridade”. Dessa vez, não mais a luta acirrada entre tucanos e petistas se revezando no governo e sonhando ambos com um poder eterno ou pelo menos de 20 anos.

Agora já está se desenhando uma nova “polarização” entre Bolsonaro (PSL e outras siglas) e o PT de Lula, sedento de manter a ferro e fogo, sua hegemonia na esquerda brasileira atomizada e fragmentada. Um enfrentamento polarizado que já se anuncia como protagonista da nova etapa histórica da Nação, ficando o Centrão e forças intermediárias a vegetarem e se arrastarem entre bolsonaristas x petistas. Em vez de polaridade alienadora e autoritária, deve-se buscar uma diversidade libertadora e democrática, é o que penso.

O polo governamental acaba de dar uma cartada, a meu ver, acertada: fixar-se no apoio dos evangélicos, já que as pesquisas apontam para Bolsonaro, uma certa impossibilidade de superar mais de 28% ou 30% de apoio da população. Mais vale um pássaro na mão do que dois voando, pensam eles. A ultradireita, sustentadora do retrocesso histórico atual, não brinca com ousadias. Contenta-se com o que foi adquirido.

O outro polo, da esquerda, padece de uma profunda perda de unidade e parece caminhar perplexa, sem horizontes. Ciro Gomes insiste na sua candidatura, agora a última certamente, numa contraposição robusta contra o PT, que não abre mão de um papel hegemônico, que ele insiste em ter mesmo com Lula na prisão e apesar do antipetismo que perdura sem macular a imagem do ex-presidente trabalhador, que mudou os rumos da política brasileira.

Essa nova “bipolarização” tende a se propagar pelo País. Em Contagem ela já está bem desenhada, apesar de inúmeros nomes que se anunciam para disputar a prefeitura. No polo bolsonarista, dois nomes filiados ao PSL estão claramente colocados na praça: o deputado federal e ex-vereador Léo Mota e o deputado estadual, ex-presidente da Câmara Municipal, professor Irineu. Um dos dois nomes pré-candidatos, certamente disputará para a eleição para prefeito.

No polo oposto, a volta de Marília Campos está se consolidando, dada a sua popularidade pessoal, apesar do desgaste de PT. Uma conjuntura econômica desfavorável sem Lula e sem Dilma para administrar e também sem o apoio do governo estadual e federal!

Fatores pouco animadores, mas que certamente não intimidam uma mulher guerreira que foi capaz de colocar no topo do pódio político da cidade, superando lideranças políticas masculinas, dentro e fora do seu PT – com sua têmpera petista pessoal, esquerdista e voluntarista.

Na medida em que os dois polos forem se fortalecendo (essa é a expectativa), vai se abrindo um vazio político intermediário, talvez significativo a ser ocupado por partidos e candidatos, que absorvam um vasto campo de eleitores que não quer votar com Bolsonaro mas também rejeita o PT.

É uma interrogação em Contagem o papel que poderão desempenhar nas próximas eleições partidos como: Psol, PSTU, PR, PSB, Rede, PV, Solidariedade, PDT e PCO. Outra interrogação mais intrigante é o que farão o PMDB de Newton Júnior e seu pai, e o atual prefeito Alex de Freitas com seus seguidores e com a máquina de governo em suas mãos.

Nomes de pré-candidatos é o que não faltam nos ônibus, nos táxis e ubers, no metrô e sobretudo nos botecos da vida e da política de Contagem. O que falta é uma proposta de projeto para Contagem a ser oferecida aos eleitores, avançando na construção democrática, na participação popular, especialmente nos conselhos comunitários, na opção e empenho pela libertação dos mais pobres, pelo atendimento real das Vilas e Favelas, pelo incremento da educação popular, a escolha inteligente e não oportunista de um vice, pelo combate à violência com mais segurança e melhor transporte, maior apoio aos Arturos e organizações nitidamente do lado do povo, inclusive sindicatos, cooperativas, comunidades de bairro e eclesiais.

Só assim partidos e políticos conseguirão sensibilizar a larga faixa de eleitores desencantados que não pretendem mais votar em ninguém. Especialmente em candidatos de Bolsonaro e do PT. E não são poucos… Aqueles com projeto, podem pesar nas eleições.

*Jornalista, embaixador e filósofo