Economia para Todos

Estradas, bilhões e bem-estar

Estudo classifica 67% da nossa malha como “regular, ruim ou péssima”

A qualidade da malha rodoviária é um pilar fundamental para a eficiência econômica e o desenvolvimento social de qualquer nação, e no Brasil essa realidade se manifesta de forma dramática, dada a sua matriz de transporte predominantemente rodoviária. O maior levantamento do País sobre o tema, a Pesquisa CNT de Rodovias 2024, avaliou 111.853 quilômetros de rodovias pavimentadas, abrangendo trechos federais e os principais estaduais, e traz dados que, embora apontem para uma pequena melhora na qualidade geral das vias, ainda revelam um cenário que demanda atenção. O estudo classifica 67% da nossa malha como “regular, ruim ou péssima”. Esta condição precária tem um custo direto na economia. A Confederação Nacional do Transporte (CNT) estima que o investimento necessário para a reconstrução, restauração e manutenção do pavimento atinge a cifra de R$ 99,7 bilhões.

A urgência desse investimento é reforçada por estudos acadêmicos internacionais que quantificam o retorno social da infraestrutura. O working paper do NBER, “The Social Rate of Return on Road Infrastructure Investments”, por exemplo, demonstra que o investimento em infraestrutura pública, como estradas pavimentadas, em economias de mercado emergentes e em desenvolvimento (EMDEs), apresenta um potencial de ganho de bem-estar substancial. Os autores estimam que o retorno social mediano de instalar um quilômetro adicional de rodovia de duas pistas nessas economias é de 55%.

Para se ter uma ideia, esse retorno é aproximadamente oito vezes maior do que a taxa de retorno social sobre o capital privado nos Estados Unidos, sugerindo que há um potencial relevante para ganhos não realizados ao realocar a poupança global para a formação de capital público em EMDEs. O fato de o Brasil, como uma EMDE, apresentar uma malha rodoviária com 67% de trechos em condição aquém do ideal, para além daquelas não mapeadas, reforça a hipótese de que investimentos adicionais em suas rodovias podem gerar um produto marginal do capital e, consequentemente, um retorno social elevados.

A Pesquisa da CNT e o estudo do NBER, quando justapostos, desenham um quadro crítico, mas de oportunidades. Existe no Brasil um déficit maciço de infraestrutura que, se corrigido, pode gerar retornos econômicos e sociais relevantes e superiores às alternativas de investimento em economias desenvolvidas. O potencial retorno social sugere que o investimento em rodovias não é apenas uma despesa necessária, mas sim uma das formas mais eficientes de impulsionar o crescimento e o bem-estar social. Estamos em uma posição onde a formação de capital público é uma das áreas com o mais alto potencial de retorno. Contudo, esse alto retorno social só se materializa com a garantia de apropriabilidade, ou seja, mecanismos que convertam uma parcela do retorno social em retorno privado, essencial para atrair os bilhões de capital privado necessários.

Conteúdos publicados no espaço Opinião não refletem necessariamente o pensamento e linha editorial do DIÁRIO DO COMÉRCIO, sendo de total responsabilidade dos/das autores/as as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas