CESAR VANUCCI *

“A tua religião, oh Rabi, cura as minhas feridas?” (Trecho de simbólico poema de autoria de Lauro Fontoura)

Concluo hoje a divulgação de trechos do pronunciamento feito por ocasião da sessão solene em que ocorreu meu ingresso nos quadros acadêmicos do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

“O que existia, ainda nos anteontens da história, era o telefone na base da manivela. Operado a partir de uma pequena estação central, permitia à plantonista encarregada de conectar os fios dos aparelhos falantes assumir-se “repórter” superinformada dos lances corriqueiros na comunidade. O que existe hoje, comparativamente, é o incrível celular, de infinitas aplicabilidades, como sabido e desfrutado.

Do antigo rádio de válvulas, de custo acessível a poucos, que para poder funcionar dependia do competente alvará expedido pela delegacia de polícia, chegamos a essa prodigiosa parafernália de comunicação eletrônica, que faz de um tudo. Parafernália de infindáveis e assombrosos desdobramentos, de certa forma, vulnerável – como é de costume acontecer nas grandes invenções e descobertas – a manipulações insanas.

Parafernália que projeta e traz de enigmáticas “nuvens” – “memória akashica”, diriam os místicos – desnorteantes falas e imagens. Poderá, até, talvez, em futuro não tão distante assim, captar – como chega a admitir pessoal enredado nos processos mágicos da física quântica – longínquas cenas do passado humano. Em condoreiro voo imaginativo, esticado ao máximo em matéria de ousadia, esse inacreditável sistema de conexões eletrônicas clicadas em energias sutis poderá até mesmo vir a “transportar”, mais na frente, quem sabe? coisas sólidas de um ponto a outro…

Estimados amigos, meus aparelhos de percepção pessoal, mercê de Deus, sempre ativos, acusam sinal de alerta quanto à extensão do discurso. Desculpo-me pelo extravasamento. Estou lembrando, indagora, de vó Carlota, santa criatura. Revejo-a, tempos da recuada meninice, a advertir-me, carinhosamente, do risco que a gente corre de se lambuzar, em se empanturrando de melado. Declaro, sem constrangimento, que os amigos aqui reunidos têm culpa no cartório. A “lambuzação retórica” decorre do excesso de melado que despejaram em meu prato, nesta festa.

Conto com a benevolente atenção de todos para, no fecho destas malinhadas reflexões, fazer uma profissão de fé: as utopias são parte indissociável da caminhada humana. Mário Quintana anota: “Se as coisas são inatingíveis, ora! Não é motivo para não querê-las. Que tristes os caminhos se não fora a presença distante das estrelas.”

Os conceitos expendidos, hauridos nos ideais humanísticos, remetem-me a outra manifestação poética, de lírico simbolismo. O autor, poeta inspirado, meu antigo professor, pertenceu aos quadros do Tribunal de Justiça MG.

Seu nome: Lauro Savastano Fontoura. O poema: “Galileia/o luar põe alegorias brancas nos cabelos do Mestre./A noite desce como uma benção./Para os lados de Hebron, sob o céu límpido,/a distância se afuma num fundo bíblico de searas./Cristo apanha a seus pés, uma criança leprosa,/ergue-a à altura da fronte/e beija-lhe a boca./O pequeno, levantando as pálpebras ingênuas/e pousando o olhar triste na doçura doirada nos olhos divinos,/perguntou: – A tua religião, oh Rabi, cura as minhas feridas?”

Esta a grande, urgente e prioritária missão: curar as feridas da humanidade!

A sociedade, composta de gente de boa-vontade, de todas as etnias, crenças, culturas, nacionalidades, hábitos e costumes diversificados, coligada numa egrégora de energia positiva, com saudável disposição contaminadora, mantém acesa no coração a esperança – esse impulso heroico da alma – de poder celebrar num certo instante o advento radioso de uma era universal de plenitude humanística e espiritual.

Era em que as lideranças políticas e dos demais segmentos representativos do labor humano revelem-se solidárias com as aspirações das multidões ainda não chamadas a desfrutar do bem-estar social que o fabuloso progresso tecnológico está em condições, potencialmente, de oferecer-lhes.

Era que desencadeie ações transformadoras articuladas por políticos, pensadores, cientistas, lideranças de todas as áreas. Cidadãos empoderados da capacidade de decidir e empreender, ou providos de dons especiais, que se compenetrem de que há sempre um sopro divino inspirando o talento, a criatividade e o engenho humanos. Era abençoada em que todo ser humano se capacite de seu potencial transformador, colocando a criatividade, com sincero ardor… na cura das feridas da humanidade.

  • Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)