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José Luiz Aziz *

A prolongada crise econômica e o contingente superior a 12 milhões de desempregados no País têm um nocivo efeito colateral, além dos gravíssimos sintomas sociais intrínsecos ao recrudescimento da pobreza e exclusão: o crescimento de 4,3% na taxa de mortalidade adulta entre 2012 e 2017, segundo artigo publicado na revista científica The Lancet Global Health. Isso significa, em números absolutos, 31.415 óbitos a mais relacionados à recessão. O avanço de um ponto percentual no índice de desemprego foi associado a um aumento da taxa de mortalidade de 0,5 por 100 mil habitantes por todas as causas, principalmente doenças cardiovasculares e câncer.

Os dados são plenamente condizentes com os alertas dos cardiologistas sobre a ameaça representada pelo estresse, que acomete 72% dos trabalhadores brasileiros, dos quais 32% têm a Síndrome de Burnout, forma mais acentuada do problema, caracterizada por distúrbios do sono, fadiga, dor de cabeça e riscos cardiovasculares. Os números constam de pesquisa da Associação Internacional de Manejo do Estresse (ISMA).

A Síndrome de Burnout (do inglês to burn out, ou queimar por inteiro, numa tradução livre) foi assim denominada pelo psicanalista alemão Herbert J. Freudenberger, no início dos anos 1970. É uma resposta do organismo ao estresse laboral crônico e se caracteriza em três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e falta de realização pessoal, apresentam consequências físicas, psíquicas e sociais.

Os principais sintomas psíquicos são dificuldade na atenção e na memória, lentidão no pensamento, sentimento de solidão, baixa autoestima, desânimo, depressão e impaciência. No caso comportamental, nota-se irritabilidade, excesso de escrúpulos e agressividade. Também é possível ver que o paciente tem sentimentos defensivos, como onipotência, perda de interesse no trabalho ou no lazer, tendência ao isolamento e absenteísmo.

Esses sinais podem provocar doenças, pois potencializam a falta de cuidados com a saúde, levando a pessoa a se alimentar de maneira inadequada, ser sedentária e até aumentar o consumo de álcool ou tabaco. Por todos esses motivos, a Síndrome de Burnout é um fator facilitador de problemas cardiovasculares, como hipertensão arterial, aumento da glicose e colesterol no sangue, podendo, ainda, agravar, doenças preexistentes.

O desemprego já é uma causa grande de estresse. Além disso, a crise econômica e as demissões dela decorrentes aumentam a pressão sobre as pessoas que estão trabalhando, favorecendo a ocorrência da Síndrome de Burnout. A recessão, portanto, gera um círculo vicioso danoso à saúde física e psíquica, incluindo problemas cardiovasculares.

Por isso, seja no enfrentamento da falta de trabalho ou das pressões exacerbadas da crise econômica no ambiente profissional, as pessoas devem, mais do que nunca, evitar outros fatores de riscos cardiovasculares. A soma do estresse/burnout com tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo, obesidade, hipertensão, colesterol e diabetes pode ser uma mistura explosiva para a saúde e o coração.

Estar bem é fundamental para a travessia das turbulências. Afinal, mais cedo ou mais tarde a crise passa, mas a vida precisa ser preservada!

*Cardiologista e Diretor de Comunicação da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp)