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Benjamin Salles Duarte *

A visão de produtos e não de sistemas agroalimentares dominou as artes de plantar, criar, abastecer e exportar durante décadas consecutivas e fundamentando as bases do chamado fomento agropecuário, que teve sua relevância histórica, sem dúvida alguma, mas não abordava os cenários multidisciplinares e multifatoriais que envolvem e determinam o desempenho e dimensão do agronegócio.

Em 1955, os pesquisadores John Davis e Ray Goldberg, ambos da Universidade de Harvard (EUA), criaram o conceito de agronegócio ou agribusiness, e que revelou existir um diversificado e dinâmico cenário de tecnologias, produtos e serviços regularmente demandados em níveis de estabelecimentos rurais norte-americanos nos processos produtivos envolvendo as culturas e criações. Foram resumidos no antes da porteira da fazenda, dentro dela, e depois que as ofertas agropecuárias produzidas seguem rumo aos mercados por vias internas e visando às exportações.

No Brasil, esse conceito surgiu nos anos de 1980, com a expressão Complexo Agroindustrial, que mais tarde evoluiu para agronegócio, sendo exaustivamente difundido pelo engenheiro agrônomo Ney Araújo, então presidente da Agroceres (Abag).

Pela definição básica de agronegócio, apesar de divergências conceituais vigentes, as atividades desenvolvidas pela agricultura familiar, embora com suas singularidades legais e operacionais, bem como pelos médios produtores e os grandes empresários são um agronegócio. Portanto, padece de fundamento lógico se afirmar que o agronegócio é atividade restrita aos grandes empresários nas paisagens rurais do Brasil!

É preciso também recordar que depois da 2ª Grande Guerra Mundial, terminada em 1945, os EUA se tornaram a maior potência agrícola, econômica, militar, tecnológica, pois não foram invadidos, e assumiram 55% do PIB mundial à época, face às consequências do grave colapso econômico basicamente havido na Europa e Japão.

A agricultura norte-americana teve também um papel fundamental e estratégico para prover alimentos suficientes para milhões de soldados aliados nos cenários de guerra na Europa e aplacar a fome de outros milhões de sobreviventes num período não muito longo. Esses e outros fatos históricos não devem ser subestimados num horizonte de tempo e quando se abordam os fundamentos do agronegócio para além do fomento agrícola.  As conjunturas definem os processos socioeconômicos e a tomada de decisão pelos governantes e governados!

A década de 1950 também foi marcada pela crescente urbanização brasileira, irreversível, para onde se deslocou igualmente o grande mercado consumidor interno e a grande massa de salários. Em 1950, o Brasil tinha 51,9 milhões de habitantes contra os 210 milhões atuais, cresceu 304,6%, dos quais 85% vivem hoje nas áreas urbanas ou 178,5 milhões de habitantes, com previsão de 90% em 2020 (ONU). O consumidor urbano traciona o agronegócio e tem poder de escolha para definir o que comprar e como pagar!

A difusão de inovações no agronegócio brasileiro enquanto processo, aliando-se sinergicamente mercados, pesquisa, adoções de tecnologias pelos empreendedores rurais, lucratividade, gestão para resultados, sustentabilidade dos recursos naturais e políticas públicas eficientes abrange um complexo e vasto território que abriga 5,072 milhões de estabelecimentos rurais, sendo 607,488 mil em Minas Gerais, entre familiares, médios e grandes empresários (IBGE). E mais, exige compartilhar tecnologias, saberes, experiências e vivências desde os centros de pesquisa, estratégicos e indispensáveis, até os consumidores.

Recorde-se, por relevante, que no documento Os três problemas da agricultura brasileira elaborado pelos pesquisadores da Embrapa Eliseu Alves, Geraldo Souza e Renner Marra, com base no Censo Agropecuário de 2006, 500 mil estabelecimentos rurais num universo total de 4,4 milhões pesquisados à época, ou apenas 11,4% geraram 86,65% da renda bruta em 2006. Alta concentração da renda rural em poucos estabelecimentos, o que pode sinalizar também uma forte tendência de mais concentração futura da produção agrícola.

E a tecnologia? Explica fundamentalmente os ganhos de produção e produtividade nas culturas e criações. Ainda segundo Alves, Souza e Marra, na safra agrícola de 1995/96 a tecnologia explica 50,6%; em 2006, 68%, embora Alves avaliar que hoje já responde por 70%. A terra perde a importância. A inovação somente pode ser considerada se for adotada e houver lucratividade para quem planta, cria, abastece e exporta. O Brasil é o 3º maior produtor de alimentos do mundo.

*Engenheiro agrônomo