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Não foram poucas as ocasiões em que o presidente Bolsonaro foi criticado por conta de declarações intempestivas, algumas das quais ele reconheceu e até se desculpou. Com seus modos pouco ou nada afeitos àquilo que o ex-presidente Sarney chamava de “liturgia do cargo”, os que estão à sua volta dizem que ele é assim mesmo, o que interpretam como evidências de autenticidade e sinceridade pouco comuns em ambientes palacianos. Na última terça-feira, diante de uma situação potencialmente delicada, o presidente foi ágil e cirúrgico em sua intervenção.

Voltando a dizer, e com razão, que não faz o menor sentido tirar do pobre para dar ao paupérrimo, ele desmentiu com todas as letras e a necessária contundência versões de que se cogitava, no governo, congelar o salário mínimo e até aposentadorias para que fosse possível pagar o auxílio que vinha sendo chamado de Renda Brasil. Arrematou prometendo “cartão vermelho” para quem quer que seja que toque no assunto, qualificada por ele como absurdamente despropositada e garantiu que pelo menos até 2022 o programa Bolsa Família será mantido.

Em síntese, o presidente neste caso agiu como presidente, fez o que deveria fazer diante da necessidade de tranquilizar a população frente à inusitada ameaça. E nas entrelinhas deu outro recado também importante. É claro que os técnicos da equipe do Ministério da Economia têm como dever considerar e estudar todas as hipóteses, explorar todas as alternativas, apontando para prós e contras, subsidiando as decisões nos escalões superiores. Tudo isso é próprio de suas funções, mas deveriam saber também que o silêncio e mandatório, tendo em conta, além da sensibilidade dos mercados, a tranquilidade da população. Quem não entender, quem não resistir aos tais 15 minutos de fama, que seja expulso de campo.

Entendida esta primeira parte, restaria chamar atenção para um outro ponto igualmente importante. É possível, pelo menos em parte, que especulações como as que comentamos sejam também alimentadas por um certo grau de improvisação. Mais especificamente, e conforme já foi apontado por vozes que deveríamos todos escutar, falta um plano central, um projeto que comece por apontar a rota de recuperação mas que diga também aonde desejamos chegar.

A falta desse roteiro também ajuda a abrir espaços para ideias tão estapafúrdias quanto o congelamento de aposentadorias.