Foto: Marcos Corrêa/PR

A ninguém em seu perfeito juízo escapa que o presidente Jair Bolsonaro foi eleito na esteira da bem articulada campanha que defendia a moralidade na política e na gestão pública, valorizando a ética e as boas práticas ou, em termos bem diretos, prometendo o fim da corrupção.

Bolsonaro, na realidade, foi o principal beneficiário de um movimento mais amplo, para alterar, e a qualquer custo, os rumos da política no País, em que era dado como certo que, se candidato, o ex-presidente Lula obteria um terceiro mandato nas eleições de 2018. São os fatos, uma visão objetiva sem nenhum juízo de valor, inclusive ao recordar, como muitas vezes foi dito neste espaço, que toda a movimentação que levou ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff foi impulsionada muito mais por ambições que propriamente por virtudes.

E mais rapidamente que se poderia imaginar, muito antes do peso e imparcialidade da visão histórica, as máscaras vão caindo uma a uma. Para começar, e complicando muito, o açodamento que comandou os processos e julgamentos no âmbito da tão falada Operação Lava Jato produziu erros e distorções que têm como resultado, agora, o risco de que alguns processos cruciais sejam revistos. Muito provavelmente nada que assuste os pragmáticos, aqueles que entendem que o objetivo já foi alcançado e, sintomaticamente, agora se movimentam em direção oposta à anterior. Para eles, corrupção volta ser assunto esquecido, inconveniente porque não deixam de perceber que estão debaixo de telhados de vidro e assim agora buscando fazer crer que a própria Lava Jato é questão superada. Como alguém poderia acrescentar, seria cômico se não fosse trágico.

Em nada surpreende, nessas circunstâncias, que sejam articuladas ações na Câmara dos Deputados das quais resultam projetos que têm como objetivo explícito e declarado o abrandamento de penas em delitos que, sendo rotineiros e prossigam explícitos na arena política, deveriam ser tratados mais suavemente. Nessa conta, ainda imprecisa, poderão caber desvios como lavagem de dinheiro e improbidade administrativa. Algumas propostas nessa direção estariam quase prontas para ser submetidas a votação. Na prática isso pode significar que condutas que ofendam a moralidade administrativa, a própria corrupção, continuarão onde sempre estiveram.

Será ingênuo, profundamente ingênuo, quem enxergar algo de inesperado neste desfecho, que vai sendo desenhado à luz do dia e justificado pelo próprio presidente da Câmara dos Deputados no entendimento de que todo o processo produziu decisões judiciais conflitantes, para ele trazendo insegurança ao exercício da política.