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EDITORIAL | O sonho que não acabou

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Crédito: REUTERS/Hannah McKay

Além de perdas humanas, contadas às centenas de milhares em todo o mundo, a pandemia paralisou a economia global, com efeitos apontados como mais devastadores que os da crise de 1929.

Nesse contexto está a indústria do turismo e suas ramificações, especialmente a aviação comercial, que já perdeu mais de 40% de seus passageiros, reduziu o tráfego em cerca de 70% e acumula perdas de alguns bilhões de dólares.

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Por extensão, é lógico, sofre também a indústria aeronáutica, em especial a combalida Boeing, líder mundial no segmento, combalida pelo virtual fracasso – e abandono – do projeto do modelo 737 Max, cuja produção foi interrompida depois de dois acidentes fatais, com mais de quinhentos mortos. O tamanho dos problemas que a empresa enfrenta pode ser medido por seu pedido de socorro imediato ao governo dos Estados Unidos, no valor de U$ 60 bilhões.

Outra medida relevante foi o recente anúncio da desistência do processo de fusão com a brasileira Embraer, que vinha sendo negociado há dois anos e resultaria na fundação da Boeing-Brasil Commercial, na qual os brasileiros teriam participação de 20% e receberiam U$ 4,2 bilhões em troca de sua divisão de aviões comerciais de médio porte, com capacidade entre 100 e 150 passageiros.

As operações militares e de jatos de pequeno porte permaneceriam no seu formato atual, com exceção do recém-lançado jato de transporte de cargas militares – KC-390 – em que a aproximação começaria por serviços comuns de vendas e manutenção, evoluindo para a constituição de uma divisão independente.

Muito provavelmente a fusão Boeing-Embraer, já dada como certa, terá sido o primeiro grande negócio de dimensões globais abatido pela coronavírus. As alegações dos americanos evidentemente buscam levar a questão para outros rumos, com a acusação de que o lado brasileiro não teria cumprido todas as condições exigidas.

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A Embraer nega, dando como falsos os argumentos da Boeing e antecipando que dará início a uma batalha judicial, buscando reparação por seus prejuízos. Por outro lado, fontes independentes revelam que, sem a “ajuda” pedida ao governo de seu país, a Boeing simplesmente não teria como quitar o negócio.

Do ponto de vista das expectativas e interesses mais imediatos dos acionistas da Embraer, que também vivem o pesadelo das incertezas com relação ao futuro imediato da aviação comercial, esta pode ter sido uma má notícia.

Para o Brasil, para seus interesses estratégicos, para o futuro da indústria local e sua efetiva incorporação à economia global, certamente que não. Afinal a Embraer, que fatalmente seria engolida pela Boeing, continua sendo a melhor medida do sonho possível e de nossa capacidade de realizá-lo.

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