Crédito: Reprodução

Monica Cordeiro*

O isolamento social dos últimos meses paradoxalmente me aproximou de pessoas e empresas de todo o País, reunidos por meio de plataformas digitais para debater sobre Governança Corporativa. Em diversas oportunidades, deparamo-nos com reflexões como “Governança gera mesmo valor para as empresas?”, ou “como definir Governança em uma palavra?”

Para mim, a resposta transborda. Governança Corporativa gera valor para as empresas pois transforma histórias corporativas. E, em uma palavra, Governança é exatamente este legado.

É oportuno perceber a Governança como um excelente problema, por decorrer do crescimento de um negócio, por nascer quase junto àquele momento em que o dono ou fundador precisa organizar melhor a sua gestão, ou mesmo se afastar, porque os negócios cresceram. O desenho de uma estrutura de governança busca minimizar os conflitos entre sócios, os conflitos entre donos e administradores, equilibrar os interesses dos muitos públicos que interagem com a empresa. É, sobretudo, melhorar o processo decisório, estabelecendo com clareza os papéis e responsabilidades daqueles que estão no “mundo da gestão” e daqueles que estão no “mundo da governança” em uma empresa.

Para que haja legado, é preciso fazer com que estes mundos se harmonizem, se complementem. Cada um cuidando de sua agenda, para que os propósitos dos fundadores resultem em uma organização cidadã, lucrativa e que tenha a cada momento merecidamente renovada a sua licença da sociedade para operar.

A condição importante para que tudo isso funcione passa pelo querer verdadeiro dos proprietários em criar conselhos de administração ou consultivos que funcionem de maneira saudável; um colegiado cuidadosamente constituído, que tem por missão principal a agenda do futuro da organização. Uma agenda que necessariamente examina os temas de sustentabilidade, inovação, riscos e conformidade, conectados à estratégia de longo prazo – e ao mundo da gestão.

A Governança gera valor ao construir confiança e contribuir para a longevidade dos negócios. Empresas de controle familiar, por exemplo, mais longevas e que seguem por muitas gerações com negócios admiráveis e saudáveis, têm discutido de forma respeitosa e refletida os aspectos ligados ao seu patrimônio, à família e ao negócio. Instrumentos da governança familiar complementam a estrutura da governança corporativa, preservando-se valores e a harmonia familiar.

Chamo atenção, ainda, para as demonstrações financeiras de uma empresa – o quanto podem ser reveladoras. Nunca mais veja um Balanço ou a Demonstração de Resultados, publicações obrigatórias para as que negociam suas ações em bolsa, sem dar o merecido valor àquela numerologia infernal. Estes números carregam a trajetória das empresas, refletem o valor de seus gestores, a força de sua governança e de suas decisões.

Combinados e organizados com base em fundamentos da avaliação financeira, conseguem mostrar com precisão se os donos estão sendo recompensados em seus investimentos, se a empresa tem liquidez para saldar seus compromissos, se a empresa tem financiado suas operações, estoques e fornecedores com dívidas de perfil adequado.  Até mesmo o crescimento de vendas, inicialmente entendido como “quanto maior, melhor” passa a ser dosado a taxas de crescimento sustentável.

Se todos estes números carregam tanto significado, imagine o que pode trazer de benefícios uma estrutura de governança, que fez por concretizá-los. A notícia alvissareira é que a jornada de governança é viagem com opções de modais e velocidades a depender da escolha e perfil do viajante. Que precisa começar. E que requer conhecimento e arte.

Por já terem avançado em gestão e governança, muitas histórias empresariais estão sendo valorizadas e negócios estão enfrentando melhor diferentes crises e também essa pandemia. A função social de uma empresa tem mesmo um significado nobre, até porque é no ambiente de organizações construtivas, com boas práticas, que desenvolvemos “o mais que humano em nós” que a música nos traz à lembrança.

O momento pede mais Governança Corporativa, com mais tecnologia, agilidade e menores custos de implantação, para que sigamos colecionando legados. Cada um tem seu papel neste caminhar.

*Conselheira de Administração e Coordenadora do Capítulo Minas Gerais do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC. monicanevescordeiro@gmail.com