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Libertadores da América

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Crédito: Isac Nóbrega

O desfecho da reunião comemorativa aos 30 anos do Mercosul, com a discussão entre os presidentes da Argentina, Alberto Fernández, e do Uruguai, Luis Lacalle Pou, reviveu cenas observadas no contexto da Libertadores da América, mais importante campeonato futebolístico continental, no qual muitos jogos entre times dos países signatários também terminam em desentendimento. O episódio demonstrou ser necessária uma reorganização do bloco, que está se distanciando de seus objetivos.

Tais distorções são mais graves neste momento de pandemia, no qual o mundo está passando por rápidas transformações, com a reavaliação dos conceitos de globalização e discussões sobre a produção nacional em setores estratégicos, ante o temor da dependência externa. Mais do que nunca, seria importante que os países fundadores e os associados ao Mersosul somassem potencialidades, provessem de modo intercomplementar suas cadeias de suprimentos e buscassem melhores condições no comércio exterior a partir da coesão.

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Entretanto, o bloco não consegue avançar nas suas questões internas e nas relações multilaterais. Tem um acordo de livre comércio com a União Europeia ainda não validado e segue desarticulado no diálogo e no entendimento entre os signatários quanto às próprias tarifas comuns, normas e regras de produção. Também não avançam, por exemplo, soluções concretas para investimentos em infraestrutura, principalmente de transportes e logística, fundamentais para os quatro países e o conjunto do bloco.

O Mercosul cunhou uma identidade forte, mas as assimetrias entre as quatro nações fundadoras e dentro de cada uma delas seguem impedindo o êxito dos objetivos com os quais foi criado. As dificuldades das duas maiores economias do bloco, a brasileira e a argentina, dificultam os avanços. Tais problemas agravam-se neste momento de séria crise na rede mundial de suprimentos de insumos, bens de capital e vacinas.

Há, contudo, espaço para o diálogo, conforme exemplo dado pelo Conselho Industrial do Mercosul, que emitiu lúcida declaração conjunta alusiva aos 30 anos, assinada pelas entidades nacionais representativas do setor nas quatro nações fundadoras: CNI, União Industrial Argentina, União Industrial Paraguaia e Câmara de Indústrias do Uruguai. O documento contém seis sugestões aos governos: estabelecer condições para impulsionar a estabilidade e o crescimento econômico; assumir e implementar compromissos que tornem realidade o livre comércio intrabloco; estimular a aproximação e a convergência regulatórias; internalizar regras e acordos pendentes; potencializar a participação do setor privado no bloco; não adotar decisões que impliquem modificar ou revisar a Tarifa Externa Comum e/ou o Regime de Origem do Mercosul sem o conhecimento e a oportunidade de o setor empresarial e privado, em geral, expressar sua opinião.

Sim, o entendimento é possível e necessário para redirecionar e reestruturar o bloco, que está regredindo e perdendo relevância. A pergunta que não quer calar é “onde erramos”? A indagação, aliás, transcende ao Mercosul e cabe a toda a América do Sul. Em nosso continente, passamos por diversos regimes e governos, mas jamais conseguimos ingressar num ciclo duradouro de prosperidade. Temos algumas bolhas de crescimento, estimuladas por intermitentes booms das commodities, ao cabo dos quais recaímos na realidade dura e crua de baixos níveis de crescimento e desenvolvimento.

O Brasil, maior país e economia do Continente, sintetiza a incapacidade histórica de nossos povos de conquistarem o desenvolvimento de maneira sustentada e em velocidade adequada. Temos população trabalhadora, mercado, potencial imenso de recursos naturais, indústria organizada e competente, agronegócio vencedor, comércio e serviços bem estruturados, mas perdemos o ímpeto de crescer. Num mundo da robótica, inteligência artificial, internet das coisas e bitcoins, seguimos discutindo questões bizantinas, como a privatização ou não da Casa da Moeda.

A pauta da educação de excelência, fundamental para vencermos o atraso e ganharmos competitividade, sequer inclui-se entre os temas prioritários atuais do País. Como, então, criar uma sociedade que ofereça oportunidades? Perdemos duas décadas e agravamos as desigualdades nestes últimos 40 anos. Não podemos desperdiçar mais tempo. Os diagnósticos são muito claros. Existem soluções e temos talentos para potencializá-las, embora estejamos perdendo muitas mentes brilhantes para outras nações.

Os problemas brasileiros são semelhantes aos dos países do Mercosul e do Continente. Todos correm sério risco de ser tragados pela própria incapacidade de estabelecer metas e objetivos e de realizá-los como políticas de Estado e não somente de governos. Nossos desafios transcendem em muito ao futebol, que é importante e faz parte de nossa cultura.

Os verdadeiros Libertadores da América, porém, são o ensino de excelência, políticas públicas eficazes para os setores produtivos, menos impostos e burocracia, mais segurança pública e jurídica, modernização do arcabouço legal e a instituição Estado efetivamente focada nos seus propósitos jurídico e filosófico: servir ao povo e lhe prover vida de qualidade e justiça social!

*Presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) (pimentel@abit.org.br)
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