Cotação de 03/08/2021

DÓLAR COMERCIAL

COMPRA: R$5,1920

VENDA: R$5,1930

DÓLAR TURISMO

COMPRA: R$5,1930

VENDA: R$5,3470

EURO

COMPRA: R$6,2205

VENDA: R$6,2217

OURO NY

U$1.810,36

OURO BM&F (g)

R$305,16 (g)

BOVESPA

+0,87

POUPANÇA

0,2446%%

OFERECIMENTO

INFORMAÇÕES DO DOLAR

Opinião

Liderança para um futuro sustentável

COMPARTILHE

Crédito: Divulgação

Estima-se que a atual pandemia poderá custar até US$ 16 trilhões globalmente, cerca de 500 vezes mais do que seria necessário para se prevenir crise semelhante no futuro. Com a migração humana, o crescimento populacional, a rápida urbanização, o intenso trânsito de viajantes ao redor do globo e as mudanças climáticas acelerando a disseminação de doenças letais, nunca foi tão fácil para surtos se transformarem em epidemias e daí se converterem em pandemias. Antecipar e gerir este risco devem ser um esforço mundial que mobilize governos, empresas, academia e organizações não governamentais, todos reconhecendo que conter tal perigo é uma prioridade de interesse público global.

À missão de vencer a pandemia de Covid-19 e criar barreiras ao surgimento de catástrofes semelhantes no futuro, somam-se outros desafios.  A ONU acaba de publicar relatório sobre o financiamento para o desenvolvimento sustentável em âmbito global – denominado Financing for Sustainable Development Report 2021, documento que nos mostra um mundo fraturado e assimétrico, com crescente distanciamento entre ricos e pobres e enorme carência de recursos necessários para combater a pandemia e outros riscos sistêmicos, como as mudanças climáticas, o que compromete a tão desejada trajetória da humanidade na direção de um futuro sustentável.

PUBLICIDADE

Ainda assim, o relatório indica que a resposta à crise pode criar uma oportunidade sem precedentes para construção de um mundo melhor, caso governos se disponham a investir em capital humano, sistemas de proteção social e em infraestrutura e tecnologia resilientes e sustentáveis.  E caso a comunidade internacional apoie os países mais pobres em tais esforços.  A crise também abre espaço para se reformar a arquitetura política e institucional vigente, redesenhando planejamento e tributação, viabilizando acesso amplo à digitalização, fortalecendo o comércio multilateral e a rede de segurança financeira global, em linha com a Agenda 2030 da ONU e necessidades dos países em desenvolvimento, para os quais a crise tem implicações mais severas e de mais longo prazo.

A grande questão é, no entanto, de onde surgirão as lideranças e o financiamento compatíveis com as soluções para um futuro sustentável, prescritas neste e em muitos outros relatórios que analisam saídas possíveis para a crise.  Quase todas as prescrições apontam para a necessidade de governos e líderes hábeis e aptos a alavancar a capacidade dos estados nacionais e das organizações multilaterais no tratamento dos riscos sistêmicos que estão a ameaçar a humanidade.  Mas a dura realidade é que o mundo carece de instituições fortalecidas e lideranças, e, talvez por isso, viva à mercê de um sistema econômico que multiplica privilégios e desigualdade.  E, pior, que frequentemente privilegia a financeirização e o “rentismo” – a tática daqueles que ganham dinheiro sem realizar nenhum trabalho, arriscando pouco ou nada de seus ativos.

É, por exemplo, surpreendente ver crescer o número de manchetes de jornais informando que fortunas estão se multiplicando ao redor do globo em plena pandemia.  Em março de 2021, o Institute for Policy Studies, dos Estados Unidos, informou que os 2.365 bilionários do mundo desfrutaram de um acréscimo de US$ 4 trilhões em sua riqueza desde o início da pandemia, aumentando suas fortunas em absurdos 54%.  A crise evidenciou também uma enormidade de grandes empresas que pagam pouco ou nenhum imposto, o que recentemente levou o presidente americano Joe Biden a afirmar publicamente: “Eu não posso acreditar que preciso dizer isso, mas empresas gigantes não deveriam pagar menos impostos que um professor ou um bombeiro”.

Importante dizer que os bilionários e as grandes empresas não são o problema – o problema está na arquitetura dos sistemas de poder, influenciáveis pela financeirização, pelo rentismo e pela sofisticada engrenagem que modula os sistemas decisórios em favor da concentração desproporcional de riqueza.  E o problema está também em governos que, ao invés de reconhecerem e tratarem tais distorções, se deixam influenciar pelo negacionismo sobre a importância do Estado, apostando na liquidação do patrimônio público como forma de eliminar “custos” e fazer caixa para lidar com os impactos da crise.  Saída que pode se converter em pesadelo, caso não haja discernimento capaz de preservar estruturas estatais estratégicas, que protejam e fortaleçam a capacidade empreendedora e realizadora do Estado e os interesses da sociedade.

Tomemos como exemplo o caso do Brasil, em que empresas e organizações estatais como Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Fiocruz, Embrapa, IBGE, Inpe, dentre muitas outras, vêm há anos sendo questionadas e fragilizadas, apesar de comporem uma linha de defesa da qual o Estado Brasileiro não pode prescindir.  Afinal, o fortalecimento da capacidade empreendedora e realizadora de qualquer país, na saída desta grave crise, jamais será alcançada senão pela complementaridade entre sua capacidade estatal e a evolução da economia de mercado, se a intenção é fazê-lo atendendo ao interesse público e não apenas aos apetites vorazes e voláteis dos mercados.  Por isso é chegado o momento de os líderes olharem à sua volta e se darem conta do custo de se negligenciar o investimento público, buscando restaurar enquanto é tempo a governança voltada com prioridade aos interesses maiores da sociedade.

 

*Pesquisador da Embrapa (mauricio.lopes@embrapa.br
Ao comentar você concorda com os Termos de Uso. Os comentários não representam a opinião do portal Diário do Comércio. A responsabilidade sob qualquer informação divulgada é do autor da mensagem.

COMPARTILHE

NEWSLETTER

Fique por dentro de tudo que acontece no cenário economico do Estado

CONTEÚDO RELACIONADO

OUTROS CONTEÚDOS

PRODUZIDO EM

MINAS GERAIS

COMPARTILHE

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no telegram

Comunicar erro

Identificou algo e gostaria de compartilhar com a nossa equipe?
Utilize o formulário abaixo!