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Opinião

Meu amigo Waldir Vieira

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Crédito: Pixabay

“As pessoas não morrem. Partem primeiro.” (Camões)

Perdi um amigo querido. Amigo de fé, irmão, camarada, como na canção de Roberto Carlos. Os laços fraternais de vida inteira foram atados na meninice risonha e franca, em nossa Uberaba de inesgotáveis fascínios. Na irrequieta adolescência envolvemo-nos na busca das inalcançáveis respostas sobre os “porquês” das coisas.

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Na mocidade impetuosa assumimos definitivos compromissos culturais e sociais, embalados pela certeza de que o espírito humano é que nem o paraquedas, só funciona aberto. A escalada dos estágios da idade adulta, pontuada pela acumulação de experiências conduziu-nos, juntos, às amadurecidas reflexões que dominam o período outonal do intrincado jogo da vida. Frequentamos as mesmas salas de aula, do primário ao universitário. As rodas de conhecidos eram as mesmas. A casa de um era extensão da casa do outro.

Mantivemo-nos próximos no lazer, nas lidas comunitárias, na escolha de obras literárias, fomentando, numa troca de ideias saudáveis, conceitos que influenciariam a jornada pessoal de cada um.

Tudo quanto dito serve como significativa ilustração do abalo emocional trazido, a mim e a muita gente mais, pela partida para outro plano existencial, de Waldir Vieira. Este homem de bem, dono de carisma e simpatia irradiantes, cultura haurida em autores que traçaram as linhas mestras do saber, foi um lutador obstinado. Deixou isso expresso nas causas abraçadas, bem como no enfrentamento da enfermidade. As marcas cintilantes de seu labor criativo e sensibilidade social ficaram gravadas nos lugares por onde andou. Nas funções que ocupou. No lar abençoado, inundado por espiritualidade, que constituiu com ajuda de Rosa, dedicada esposa. Na Promotoria, portou-se como um paladino da justiça, agindo com serena intrepidez no desfazimento de situações conflitantes com o sagrado interesse social. Pela conduta irrepreensível chegou, no consenso de seus pares e no apreço e admiração dos poderes governamentais, ao ápice da carreira. Foi um Procurador-Geral inovador e operoso. Granjeou enorme respeito e fez por merecer louvações muito além dos limites estritos da área profissional sob sua fecunda liderança. Houve-se com brilhantismo invulgar noutros encargos que requisitaram seu poder empreendedor. No Sesiminas e no IEL afixou sinais de incomum dinamismo.

Em tudo quanto protagonizou na cena cotidiana, ditos e feitos, pareceres, conversas triviais, ficou projetado, bem nítido, seu perfil de humanista. Um humanista consciente dos deveres e prerrogativas da cidadania no Estado democrático e republicano. Waldir sabia das coisas. Foi alguém ciente de que os humanos somos seres de luz revestidos de indumentária física, a uma certa hora descartável.

Consagrou-se, na reclusão social a uma fruição intelectual enriquecedora. Lia muito, ouvia diariamente música erudita e usava o pincel, passatempo cultivado desde a infância, para retratar pessoas e paisagens. Uma dessas paisagens adorna, com carinhoso autógrafo do autor, minha tenda de trabalho.

Na semana que anterior à sua passagem, como costumeiramente fazíamos, batemos um longo papo pelo telefone. O agradável colóquio foi pontilhado de reminiscências, de troca de informações sobre fatos do cotidiano e avaliações sobre a crise humanitária que assola o mundo. De suas sempre sensatas ponderações consegui anotar que, na contemplação dos problemas cruciais que nos rodeiam, as pessoas de boa vontade não podem perder jamais a fé e a esperança no destino superior do ser humano.

Ninguém morre, parte primeiro. A certeza do poeta coloca-se na linha da percepção espiritual de que, no itinerário a ser percorrido por todos existe, adiante, um ponto de parada para reencontros dos que partem primeiro com os que partem depois. É consolador saber disso!

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)
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