Cesar Vanucci *

“Uma obra-prima na escrita e no conteúdo”. (Jornalista Mino Carta, sobre o livro “Meus começos e Meu fim”

Com tanto cara medíocre, impregnado até a medula de toxidade fundamentalista, escorado na guerrilha verbal pela internet, botando banca por aí, nesta hora de desmesurado alvoroço obscurantista, proporciona enlevo e conforta o espírito ouvir o que diz, em palavreado que soa como rajadas de inteligência bem-humorada, o brilhante jornalista Nirlando Beirão. Nirlando, mineiro de Belo Horizonte, que do saudoso pai, dirigente classista respeitado, recebeu como legado, além do nome, o dom da sensibilidade social permanentemente aflorada, registra em depoimento magistral, falando de seu mais recente livro, sugestivas interpretações humanísticas a propósito da dinâmica da vida. Na entrevista concedida a colegas seus da “CartaCapital”, da qual é editor executivo, ele analisa a situação política e o jornalismo brasileiros, confessando-se bastante desalentado com o que lhe vem sendo dado a observar.

O livro que acaba de lançar, “Meus começos e Meu fim”, está sendo considerado publicação primorosa pela crítica especializada em literatura. Segundo os entrevistadores, a obra tem como pulsão literária passar adiante “uma consciência do mundo, uma consciência dolorida, adquirida em situação extremada”. Alude-se aí ao fato de o autor ter sido diagnosticado como portador de ELA – Esclerose Lateral Amiotrófica. Indagado sobre como anda a saúde desde que concluiu o livro, ele assim responde:

“Hoje estou melhor do que amanhã, apesar de todo o esforço e da competência do exército de aventais brancos que me cerca. Esta é a sina – às vezes imperceptível – de uma doença degenerativa. Escrevi o livro com a mão direita, continuo escrevendo”. Em resposta a outra pergunta sobre sua condição de saúde, Nirlando explica que “a dor intrínseca existe”.

Acrescenta: “Tem dias que acordo Frank Capra, “its’a wonderful world”, mas tem dias que acordo Franz Kafka (não confundir com kafta), me sentindo um inseto”.

Perguntado sobre se “ainda vale a pena ser jornalista?”, Nirlando declara: “O jornalismo que mobiliza, que emociona, tem seu lugar. Chega de fingir que nós repórteres somos robôs e que há normalidade nesta realidade tão anormal”.

Os repórteres que o entrevistam – Eduardo Nunomura, Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches – indagam também: “Livros escritos em situações de saúde debilitada marcam a literatura de grandes autores, como Virginia Woolf, João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis. E, mais recentemente, Christopher Hitchens, em “Últimas Palavras”. Hitchens teve o humor, a mordacidade e o sarcasmo potencializados pela experiência

Quais são os sentimentos e qualidades que: ‘Meus começos e Meu fim” destacou em você?” Resposta de Beirão: “Na comparação, prefiro ficar com o Christopher Hitchens. A narrativa dele na “Vanity Fair” me deliciou, se é que dá pra usar a palavra em tais circunstâncias. Até o absolvi do pecado de ter defendido a invasão do Iraque pelo Bush. Eu morava na Califórnia em 2003 e o assisti falando besteiras em Berkeley – mas com carisma e humor. O que mudou em mim? Talvez perder o medo. Talvez aprender a receber o carinho que nem sei se mereço”.

Os trechos da entrevista constituem ligeira amostra da fecundidade de ideias de um jornalista talentoso, que carrega consigo saudável inquietação diante da problemática humana própria de um verdadeiro militante da palavra social. Servem para sublinhar o valor do livro comentado. Livro esse apontado pelo grande jornalista Mino Carta como uma obra-prima na escrita e no conteúdo. Ali, adiciona Carta, “há páginas francamente proustianas”.

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