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Carlos Perktold*

O Brasil é um país sui generis, por várias razões. É aqui que fazemos vias expressas e colocamos radares para impedir e multar os choferes que dirijam depressa. É o lugar onde exclamamos o dia inteiro “isso é um absurdo”, como se esta assertiva não fosse também absurda. É aqui que, segundo Paulo Guedes, a população serve ao Estado e não o contrário. A lista é longa.

Agora, em pleno século 21, no meio da existência de viagens interplanetárias, telefone celular e pandemia do maldito vírus, vem a notícia da morte de um desconhecido herói nacional vítima de uma flechada atirada por um índio. A contradição continua.

Meu Deus, que país é esse onde depois de 520 anos descoberto e colonizado ainda temos indígenas vivendo à custa de caça e pesca, índios que desconhecem a agricultura e ainda são vulneráveis às mazelas e doenças trazidas pelos colonizadores desde os primórdios do século 16?  O que há conosco que fomos incapazes de trazê-los à nossa “civilização” ou respeitar suas culturas de tal modo que roubos e conflitos perpetuados por colonizadores desde sempre fossem diminuindo ao longo de tanto tempo? A pergunta contém boa dose de ingenuidade, mas convém lembrar-nos que o índio norte-americano hoje é dono de cassinos nas suas reservas, explorando o que há de pior no capitalismo, provando sua adaptação ao establishment.

Rieli Franciscato era um herói e poucos de nós o conhecíamos ou sabíamos dessa sua condição ou até de sua existência. Por uma dessas ironias tão comuns na história, foi morto por integrante de um povo que ele tanto defendia.

Segundo notícia que parece vir de um planeta distante anos-luz de nosso País, na imensa região onde ocorreu o fato, vivem 209 índios isolados. Este número representa o saldo de um massacre da tribo então existente em 1980, quando o governo federal abriu estradas naquela região. Colocando-nos no lugar dos integrantes que restou dela, esta abertura deixou registrado ódio impotente e contido entre os sobreviventes, ódio que foi descarregado no peito do indianista.

Eles não cultivam nada, são coletores. Vivem como nômades à procura de alimentos e como eles estão escassos no centro da sua reserva, recomeçam a procura de sua subsistência nos extremos limites dela, fixada por governo que eles jamais imaginam existir.

Toda essa descrição parece-nos incompreensível e absurda quando vemos o mundo de olho sobre a Amazônia. Esses olhares não estão interessados em salvar nossos índios ou os eventuais novos Franciscatos que ainda existem pelo Brasil afora. Se algum dia esses mesmos preocupados e generosos olhares dominarem essa região, farão o mesmo que fizeram em outros países da América: matarão seus nativos, explorarão ao máximo o solo e o subsolo e tudo mais que tiver disponível. Haverá pouquíssimos heróis como Rieli e eles serão malvistos por defenderem povos e ricas regiões nas quais seus donos vivem assentados em montanhas de dinheiro, sem entender qual é o seu valor se não há mais alimento para ser coletado.

*Advogado, psicanalista e escritor.perktold@terra.com.br