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O peregrino da paz

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Crédito: REUTERS/Guglielmo Mangiapane

“implorei do senhor perdão e reconciliação”.(Papa Francisco, na visita ao Iraque)

A espessa camada de nuvens carrancudas que paira no ar impediu que a maioria das pessoas percebesse o alentador sinal. Mesmo assim, o clarão refulgente da histórica iniciativa, impregnada de amor ecumênico, pôde ser avistado no horizonte, com olhar esperançoso, por uma maioria de corações fervorosos espalhada por todas as latitudes.

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Francisco, o Papa providencial, da mão estendida e das ações transformadoras, fez a história avançar extraordinariamente com a visita ao Iraque. Rompeu barreiras que muitos supunham inamovíveis. Quebrou paradigmas engessados no tempo pela acumulação de estéreis e cruéis conflitos, nascidos de interpretações farisaicas e fanáticas da história. Coisas que, à luz do bom-senso, visão humanista e espiritualizada, destoam do real significado da vida. O pontífice associou sua condição de dirigente supremo de uma poderosa corrente religiosa à missão de estadista, provavelmente o mais bem preparado estadista da presente conjuntura internacional. Um cidadão do mundo, provido de singulares dons, que sabe colocar adequadamente o carisma, a inteligência e a sensibilidade a serviço da edificação de uma ordem mundial harmoniosa e solidária receptiva aos clamores sociais. Numa frase emblemática, Francisco explicou o sentido de sua visita a um país que guarda vestígios preciosos dos primórdios da civilização, de predominância islâmica, dilacerado, desde muito tempo, por conflitos apavorantes de motivações econômicas, tribais e religiosas. “Os homens são irmãos por religião e iguais por criação”: foi o que disse. A frase, de conotação ecumênica, resume as falas e atos do Papa na enriquecedora jornada empreendida. Das andanças do timoneiro da Igreja Católica pelo maltratado território iraquiano ficou, como registro duradouro, uma sequência de fortes emoções. Francisco visitou lugares sagrados na devoção religiosa maometana. Manteve conversações com integrantes da cúpula islamita. Esteve na região em que o patriarca Abraão, venerado pelas diversas crenças monoteístas, nasceu e viveu. Celebrou atos litúrgicos. Reuniu-se com grupos de várias religiões, dedicando atenção especial, naturalmente, a membros da comunidade cristã, alvo de violenta perseguição em passado recente, episódio doloroso que provocou a debandada de milhares de pessoas. Uma porção significativa de cristãos permanece ainda hoje no exílio. Francisco caminhou por logradouros onde são visíveis os escombros das conflagrações bélicas, de diversificados momentos, ainda próximos dos dias de hoje. Viu, bem de perto, o rastro apavorante deixado pela beligerância insana. Em Mossul, cidade que por algum tempo centralizou o comando do sinistro Isis – o Estado Islâmico, manteve contatos com moradores que sobreviveram à mortandade. Em todos os lugares por onde caminhou transmitiu mensagens de consolo, de esperança, de fraternidade ardente. Deixou explícito que “a fraternidade é mais poderosa que o fratricídio, a esperança é mais possante que o ódio, a paz é mais poderosa que a guerra”. Classificou de imensamente cruel o fato de que “este país, berço da civilização, tenha sido atingido por um golpe tão bárbaro, como a destruição de locais de devoção ancestrais.” Falou da dor produzida pelo massacre de mulheres, homens, crianças, muçulmanos, cristãos e yazidis, lembrando que muitos foram forçados a deixar seus lares para não serem aniquilados.

Em suas manifestações, proclamou-se “peregrino da paz, mendigo da fraternidade, para implorar do Senhor perdão e reconciliação depois destes anos de guerra e terrorismo, pedindo a Deus a consolação dos corações e a cura das feridas”.

Encurtando razões: o que fez Francisco no Iraque foi esclarecer que a fraternidade não é uma exclamação retórica, oca, vazia de conteúdo. É, sim, uma proclamação solene de fidelidade aos valores que recobrem de dignidade a vida.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)
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