créditos: pxhere

Marcela Trópia*

Desde que entramos em isolamento social, o País encara três crises: a sanitária do coronavírus, a crise política e a intensificada crise econômica.

As necessárias decisões de governos pela quarentena nos obrigaram a adequar nossas vidas e também forçaram os empreendedores a reinventar seus negócios. Mesmo em um cenário otimista, as mudanças provocadas pela pandemia nos levarão para um “novo normal”.

Em Belo Horizonte, estamos há mais de 70 dias em casa e alguns setores econômicos foram bastante impactados. Nas últimas semanas, conversei com diversos empresários, de todo o Brasil, para saber como eles têm enfrentado esse cenário. Os desafios são enormes e queda de receita é um grave problema, mas há quem tenha conseguido levantar grandes aprendizados.

Um dos segmentos que sofreu mais impacto nos primeiros dias do isolamento foi o dos bares e restaurantes, obrigados a encerrar o atendimento presencial. Muitos ainda não trabalhavam com delivery, como era o caso do Kanpai, restaurante do Guilherme Xavier, membro da diretoria da ACMinas Jovem, que conseguiu se adaptar para oferecer o serviço de entrega e fez com que as vendas crescessem 600%.

Mas o Kanpai só teve sucesso por conseguir dar um passo importante: se antecipar e planejar. Antes do primeiro caso do vírus ser confirmado no País, o restaurante já observava a possível crise que chegaria. Quando o isolamento se tornou realidade, Guilherme separou o time em comitês e juntos criaram soluções.

O setor de recursos humanos, por exemplo, cuidou de checar a situação dos colaboradores, preservando quem fazia parte do grupo de risco e garantindo a segurança de quem trabalharia presencialmente.

No entanto, outras áreas consideradas não essenciais possuem uma demanda não recuperável, como é o caso do setor de eventos. Diante disso, conversei com Gabriel Benarrós, fundador da Ingresse, a startup que hoje está entre as três principais empresas de venda de ingressos do Brasil. Ele já estava ciente de que, mesmo com a flexibilização, as aglomerações ficariam limitadas por um bom tempo.

Há de se destacar que, neste setor, não são só as ticketerias as impactadas. Cada evento é composto por uma cadeia gigantesca de fornecedores, patrocinadores e freelancers. O primeiro passo que a Ingresse deu para enfrentar a crise foi alinhar todo o time. O foco agora é se adaptar ao cenário de incertezas, aproveitar oportunidades e, principalmente, evitar decisões precipitadas.

Uma das ideias foi aprimorar a plataforma da empresa, usando o pitstop forçado para fazer as melhorias já planejadas. Outra parte da equipe está voltada para o futuro dos eventos híbridos, em que é possível participar tanto presencial quanto virtualmente. Os completamente virtuais já são realidade, como as lives de shows, e a empresa tem visto como uma oportunidade de negócio.

Em ambos os casos, é possível destacar o papel da criatividade do empreendedor brasileiro, que naturalmente já precisa lidar com os obstáculos que a burocracia do País impõe, e ainda revelam uma importante discussão sobre a resiliência do setor empresarial.

Em muitas conversas que tive, ouvi sobre empresas que não possuíam caixa para sobreviverem a um mês de crise e tiveram que optar por decisões drásticas como a demissão em massa.

Para todos os casos, a palavra de ordem é resiliência, pois a única certeza que temos é que outras crises virão. A mentalidade previdente deve ser a dominante: o cidadão, na sua individualidade, precisa saber se prevenir. Os empreendedores precisam fortalecer seus negócios para que absorvam menos o impacto das crises e saiam mais rápido, e em crescimento, possível.

O Estado, por sua vez, deve ser mais responsável com seu regime fiscal para ter caixa disponível na hora das emergências. E, o mais importante, deve eliminar as amarras sobre os indivíduos e sobre o próprio mercado, que acabam prejudicando o crescimento econômico, a geração de renda e desestimulando a mentalidade previdente. Só assim estaremos mais fortes para enfrentar e sair dos próximos abalos.

* Diretora de integração no Conselho Empresarial de Jovens da ACMinas