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Opinião

Triste cenário

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Crédito: REUTERS/Ricardo Moraes

O Brasil enfrenta o maior colapso sanitário de sua história. De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a partir da análise da série histórica, foram mais de 50 dias seguidos de agravamento no sistema hospitalar.

Daí a inevitável questão: o Brasil, que já foi exemplo internacional no combate de epidemias e erradicação de pestes, corre o risco de despontar como réu na tribuna dos crimes contra a humanidade?

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Sim, é possível. E o motivo é o mesmo de quando investigamos as razões de tantas outras mazelas nacionais, sejam econômicas ou sociais. É a falta de vontade política, melhor dizendo, de atitude política no enfrentamento dos problemas.

Recentemente, nos animamos com o desempenho dos poderes Executivo e Legislativo federais. Tivemos a aprovação de medidas cruciais, como o teto de gastos públicos, a aprovação das reformas trabalhista e previdenciária, e de importantes marcos regulatórios, como o do saneamento básico. E apostávamos na continuidade da agenda reformista para garantir o ajuste fiscal e o desenvolvimento.

Quando veio a pandemia, tudo isso naturalmente parou. A prioridade era outra: combater o vírus. Mas, diferente do que se viu na maioria dos países igualmente afetados (alguns deles sofrendo agora a terceira onda da Covid), não houve por aqui convergência entre os poderes. Tivemos narrativas contraditórias, ausência de programas coordenados, procrastinação. Criou-se um ambiente disfuncional no momento em que a população pedia diretrizes firmes e providências para imediata imunização.

Diante da implacável crítica internacional e da pressão social (não tão articulada como deveria ser, dada a divisão de opiniões, espelho da divisão no meio político), começamos a correr atrás do rabo. A velocidade de imunização é decepcionante. Sem plano de voo, medidas prudentes, como suspensão de atividades não essenciais, toque de recolher e tudo que contribua para o distanciamento social são inevitáveis. Duro será o momento de fazer as contas. O que matou mais, o vírus ou a fome?

Sentimos que sofreremos por longo período os efeitos da desarticulação dos poderes que deveriam, em essência, nos resguardar.

Sentimos que nossos governantes e legisladores precisariam considerar primordialmente nos interesses dos brasileiros, em detrimento de seus interesses pessoais. Até hoje fica difícil compreender porque só agora, e com mais de um ano de atraso, foi instituído um gabinete (ou comitê) multidisciplinar para gerenciar a crise, coisa que esperávamos ver constituído em março de 2020.

Sentimos que estão brincando com nossas vidas. O Brasil não pode ser uma gangorra, onde quando um senta o outro levanta. Um diz sim às restrições (em maior ou menor grau), outro diz não. Ora, precisamos de diálogo para construir soluções. E isso implica acertar o passo na mesma direção.

Somente com a imediata imunização dos brasileiros (o que impõe radical mudança no atual ritmo de vacinação), teremos aceleração econômica inercial. Para que seja sustentável, a retomada dependerá de terreno fértil, arado pela continuidade das reformas (a administrativa, ao menos), da aprovação de marcos regulatórios e da simplificação tributária. Não são questões partidárias. São questões nacionais. Do tipo que não acomoda anseios individuais ou calendários eleitorais.

Essa agenda estruturante é decisiva para que o Brasil recupere seu lugar no mundo. Retome seu grau de investimento; volte a captar recursos internacionais, a empreender, a empregar, a gerar riquezas.

A guerra entre instituições tem de parar. É preciso pacificar e focar. O apego, inoculado pela mosca azul do poder, não pode persistir. Tanto lá quanto cá, onde estamos nós, civis mortais, é preciso lembrar que, ao fim e ao cabo, somos todos pessoas comuns. Pessoas que devem lutar unidas para vencer este triste cenário.

*Presidente do Secovi-SP ([email protected])
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