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Cesar Vanucci*

“Ficou comigo a saudade / que é o sol dos tristes, a estrela das tardes de cinza e jade.” (Honório Armond, “Príncipe dos poetas mineiros”)

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Num bate-papo literário, via internet, gente enredada no oficio das letras cita Honório Armond. O fato induz-me a buscar no arquivo um trabalho que produzi, anos atrás, sobre a esplêndida obra do poeta. Amigos diletos os responsáveis pelos momentos de fruição intelectual genuína e arrebatadora vividos num fim de semana.

Roberto Henrique Corrieri, engenheiro renomado, companheiro de terapêuticas andanças matinais, e esposa Ângela, ela neta do poeta, brindaram-me com uma coletânea da magistral obra literária de alguém nada mais nada menos que Honório Armond. Poeta nascido em 1891 e falecido em 1958, considerado o “Príncipe dos poetas mineiros”.

Em cada página percorrida tem-se um primoroso exercício de fluidez sonora, com tinturas ricas e imagens empolgantes. O conjunto dos poemas faz dessas “Obras poéticas”, livro lançado em 1991, ao ensejo da celebração do centenário de Honório, uma perfeita e acabada obra prima.

Não incorrem, seguramente, em exagero os especialistas em versos “armondianos”, quando entendem apontar no poeta barbacenense um discípulo autêntico de Baudelaire. Já não fosse suficiente sua reconhecida e confessa sintonia no plano das ideias com Valery, Mallarmé, Verlaine e Rimbaud. Não causa surpresa alguma igualmente seja comparado por muita gente do ramo, nas latitudes poéticas brasileiras, a Cruz e Souza e Alphonsus de Guimaraens.

Ou que haja arrancado entusiásticos louvores, vida afora, nas avaliações do conteúdo de sua refinada arte, de escritores, poetas, críticos literários do porte de Agripino Grieco, Tristão de Ataíde, Abgar Renault, Pedro Nava, Belmiro Braga, Humberto de Campos, Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa. Os dois últimos, seus colegas fraternais.

Artista consumado do verso, reunindo precioso acervo de peças elaboradas no mais requintado labor, Honório Armond, integrante da Academia Mineira de Letras, ombreia-se, sem qualquer sombra de dúvida, com os maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Domina exemplarmente a palavra. Seus poemas projetam pujante sopro humanístico.

Se, por um lado, denunciam a inquietude intelectual de um homem na cata de respostas diante das inesgotáveis interrogações da aventura humana, por outro revelam que o autor, ancorado na esperança que move montanhas e representa um impulso heroico da alma, mostra-se disposto, o tempo todo, a celebrar a beleza, a procurar infatigavelmente ideais serenos que conduzam à Paz e ao Amor.

O caudal da poesia “armondiana” é carregado de erudição e saborosos achados líricos. Revela autor na força plena de seu potencial criativo. Parece ajustar-se com precisão ao seu perfil uma definição que Shakespeare faz dos poetas em “Sonho de uma noite de verão”, quando registra “que o olhar do poeta, girando em delírio, / vai do Céu para a Terra, da Terra para o Céu; / e no que a imaginação vai tomando corpo, / sua pena cativa a essência das coisas desconhecidas (…)”

Vejam se não essa exatamente a sensação que passam esses admiráveis versos iniciais do poema “In princípio… erat apud Deum…”; “Quando a primeira célula vibrava / por entre a salsa espumarada, escrava / das correntes, das ondas, da maré; / olhando a rude vida embrionária / bradei: – ó vida, és minha! Homem, ó pária! / Sum qui sum… eu já sou pois quem alguém é!”

Ou neste “Credo de um monista”: “Creio na vida universal que emana / do protoplasma de onde o Ser deriva… / Creio na eterna essência, informe e esquiva. / que o fungus fez e fez a Espécie Humana… / Creio na Evolução… dela dimana / o Homo-Sapiens, da ameba primitiva… / e creio que o que morre hoje, reviva / para outra luta mais tenaz e insana!… / Creio em Ti, causa prima: Deus… acaso / Inconsciência das coisas, que nos levas / do Nada para a luz onde fulguras… / e creio que, em chegado o meu ocaso, / eu sobreviverei à morte e às trevas / para outras vidas e outras desventuras…”

Reservo para comentário vindouro, em complementação ao que é dito hoje acerca do grande vate, uma inédita manifestação sobre sua opulenta obra. Trata-se de uma carta de Guimarães Rosa datada de 19 de janeiro de 1935.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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