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Segurança além das grades: como o sistema prisional pode impulsionar o desenvolvimento de Minas

Minas aposta em trabalho, educação e participação social para reduzir reincidência e fortalecer o desenvolvimento
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Segurança além das grades: como o sistema prisional pode impulsionar o desenvolvimento de Minas
A Apac é um bom exemplo de reinserção social em Minas Gerais | Foto: Tiago Ciccarini / Sejusp

Ao contrário do que diz o senso comum, segurança não é um tema restrito às forças policiais ou ao poder público. A engrenagem que sustenta ambientes mais ou menos seguros começa muito antes, nos fatores que determinam oportunidades, trajetórias e escolhas individuais. Quando alguém opta pelo crime, seja por decisão própria ou pela ausência de caminhos que lhe ofereçam dignidade, a sociedade já estava presente, mesmo que de forma indireta.

Para além das origens, que também passam pela educação ou pela falta dela, pessoas, empresas, entidades de classe e organizações da sociedade civil têm papel central na construção de políticas públicas, na redução da criminalidade e na reinserção social, por meio do financiamento de oportunidades e do apoio de iniciativas. Uma atuação que, ao contrário do que se imagina, está diretamente ligada ao desenvolvimento econômico.

“A segurança tem impacto na economia. São comércios fechando em comunidades, o medo da população, o transporte público atingido. Há todo um entorno que precisa ser trabalhado”, afirma o professor e palestrante Tio Flávio Tófani, que há 13 anos desenvolve projetos educacionais em presídios e nas Associações de Proteção e Assistência aos Condenados (Apacs). Para ele, a incapacidade de oferecer educação e perspectivas “alimenta a marginalidade e também o comércio informal”, reforçando um ciclo que afeta o ambiente de negócios como um todo.

O desafio, segundo Tio Flávio, é compreender que segurança não se resolve apenas com encarceramento. “Só trancafiá-los não adianta. A gente precisa levar educação, ampliar perspectivas, criar possibilidades de pensar diferente”, diz. A lógica vale tanto para quem está recluso quanto para quem está do lado de fora, já que parte da tarefa envolve “pressionar o governo e entender como cada um pode ajudar” e também usar a segurança pública como um meio. “A segurança pública é um problema de todos”, completa.

Ele destaca ainda a necessidade de olhar para o presídio como um espaço de convivência e transformação. “As pessoas vão sair dali cedo ou tarde, e a gente não está preparando essas pessoas. É um erro muito grande dizer que basta prender”. Nesse sentido, as Apacs, método brasileiro de execução penal que tem chamado atenção no mundo, surgem como alternativa capaz de reduzir reincidência e reconstruir trajetórias.

Minas e a força de um sistema prisional que gera renda, qualificação e futuro

Se, por um lado, as causas da criminalidade têm raízes socioeconômicas, por outro o sistema prisional pode se tornar uma poderosa política de desenvolvimento quando estruturado de forma estratégica. Minas Gerais demonstra isso com números expressivos.

O diretor-geral do Departamento Penitenciário do Estado, Leonardo Badaró, explica que Minas tem hoje 83 mil pessoas privadas de liberdade, a segunda maior população carcerária do País, incluindo sistema convencional, Apacs e monitoramento eletrônico. Mesmo diante do que ele define como “hiperlotação”, o Estado se tornou referência nacional, com 19 mil presos trabalhando atualmente, por meio de cerca de 650 parcerias com empresas e instituições.

“Essa população trabalhadora é maior que a população carcerária total de 17 estados brasileiros”, afirma Badaró. Além do impacto direto na economia, a atividade laboral gera renda, qualificação profissional e contribuições previdenciárias. Isso porque o preso que trabalha tem direito ao pecúlio, parte da renda volta ao Estado e outra parte sustenta a família. Em paralelo, a experiência profissional amplia as chances de reinserção social.

“E agora, internamente, a gente já conseguiu que o Estado nos autorize a utilizar uma parcela desse rendimento que o próprio custodiado gera para implementar novas políticas para eles mesmos. O sistema tende a ser autossuficiente, o preso começa a pagar o custo que gera. É nossa missão prover um caminho para que o indivíduo retorne à sociedade”, completa.

Apacs: tecnologia social brasileira que o mundo começa a replicar

Enquanto o sistema convencional enfrenta desafios estruturais, as Apacs mostram como a combinação entre método, disciplina e valorização humana pode reduzir a reincidência e reconstruir trajetórias. O modelo, criado há mais de 50 anos, funciona com forte participação do voluntariado e metodologia centrada em dignidade, responsabilização e trabalho.

“Queremos transformar criminosos em cidadãos”, afirma a diretora-geral da Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (Fbac), entidade que supervisiona o método no País, Tatiana Faria. Hoje, são 69 unidades em oito estados, sendo que quase 80% estão em Minas Gerais, graças à robustez do sistema prisional e à rede de apoio construída no Estado.

Os índices são expressivos: “A cada 100 presos submetidos à metodologia das Apacs, apenas 14 voltam a cometer crimes. No caso das mulheres, esse número cai para três. No sistema tradicional, os estudos giram em torno de 70% a 80%”, destaca. A abordagem vai além da punição. “Quando você só pensa na punição, está olhando para a consequência. Nós cuidamos das causas”, explica.

Com isso, o modelo já inspira projetos em 12 países, respeitando adaptações legais e culturais, e se consolida como política pública de eficácia comprovada.

Para a diretora, segurança pública deve ser vista como um tema social e não como responsabilidade exclusiva do Estado. Segundo ela, o senso comum tende a classificar a execução penal e a segurança pública no Brasil como lei e ordem, em caráter punitivo, quase vingativo. Enquanto, na verdade, são problemas sociais e, como tal, precisam ser atacados, resolvidos e pensados com políticas públicas eficientes.

“Nas Apacs temos a preocupação de cuidar das causas da criminalidade na origem, não na consequência apenas. Quando você só pensa em punição, você está pensando só na consequência. O crime já aconteceu, a tragédia já aconteceu, já fez vítimas, já destruiu famílias, a sociedade já foi atingida. Defendemos o cumprimento da pena privativa de liberdade conforme as determinações do Estado brasileiro em sentença, mas temos a preocupação de devolver essas pessoas para a sociedade com cidadania”, argumenta

Tatiana Faria lembra que a causa da criminalidade, na grande maioria das vezes, tem origens socioeconômicas e culturais e que a reinserção social de detentos, quando feita com foco na cidadania, no desenvolvimento social qualificado e na redução de criminalidade, gera ganhos socioeconômicos. Por isso, as Apacs visam não apenas retirar essas pessoas da criminalidade, mas devolvê-las para a sociedade com qualificação.

Para isso, a Fbac conta com diversas parcerias junto à iniciativa privada, por meio do Instituto Minas pela Paz, incluindo o Sistema S e Associação Comercial de Minas Gerais (ACMinas). “A gente precisa da sociedade engajada nisso também. A segurança não é um problema público apenas, é um problema social”, resume.

Terceiro setor, cidadania e a importância da presença social

A força das Apacs e do sistema prisional mineiro está também no envolvimento do Ministério Público, do Judiciário, de voluntários, empresas e entidades civis. Para o promotor de Justiça Francisco Ângelo Silva Assis, que coordena iniciativas de redes interinstitucionais no Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), nada substitui o contato direto com as realidades do sistema.

“Um exemplo move muito mais do que mil estatísticas. Quando você se permite sensibilizar e ver soluções concretas, isso transforma”, afirma. Ele lembra que a redução da reincidência tem impacto direto na segurança pública e no desenvolvimento social. “Nós estamos falando de alguém que era infrator e passa a ser colaborador social.”

Por isso, para Assis, políticas de segurança que pensam o futuro precisam reconhecer o papel do terceiro setor e da cidadania ativa. “A democracia aplicada é com cidadania. Isso move montanhas, formata redes, mobiliza recursos e cria outros consensos”, diz. Ele também alerta para o risco da apatia social. “Temos que reconstruir consensos mínimos para viver em paz. A sociedade se mobiliza quando se deixa envolver”.

Assista, a seguir, o seminário “Método Apac em foco: diálogos intersetoriais sobre avanços, desafios e perspectivas”:

Sobre o autor

Mara Bianchetti

Editora do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva, com especialização em Jornalismo em Ambientes Digitais pelo UniBH. Premiada entre os jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/marabianchetti/

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