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Da sucata ao desenvolvimento humano: o novo foco da ArcelorMittal para a economia do futuro

Braço social da companhia decidiu colocar o fator humano no centro de sua nova frente de atuação: a economia circular; case mostra como empresas podem alinhar negócio, sustentabilidade e inclusão produtiva
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Da sucata ao desenvolvimento humano: o novo foco da ArcelorMittal para a economia do futuro
Economia circular integrada à agenda social é a estratégia da Fundação ArcelorMittal | Foto: Reprodução Adobe Stock

A Fundação ArcelorMittal decidiu colocar o fator humano no centro de sua nova frente de atuação: a economia circular. Após revisar seu planejamento de longo prazo, que busca aplicar as melhores práticas de gestão na área social e se dedica a criar oportunidades nos eixos de educação, cultura e esporte, agora a instituição busca integrar circularidade, desenvolvimento social e transição justa, movimento que a coloca entre os principais cases corporativos de nova economia no País.

A iniciativa nasce da constatação de que embora o Brasil tenha avançado na Agenda ESG, o componente social da economia circular permanece fragmentado e pouco compreendido. Por isso, o foco, conforme a diretora-executiva da Fundação, Camila Valverde, será atuar no desenvolvimento social das pessoas que trabalham com esse tipo de iniciativa, já que o tema ainda é majoritariamente tratado sob a ótica produtiva, considerando resíduos, processos e eficiência, enquanto a dimensão humana segue pouco explorada.

“A economia circular ainda é compreendida mais pelo viés de processos e materiais; falta um olhar para as pessoas. E é um tema atual e demandante por parte do setor privado, um modelo de economia diferente da economia que a gente está acostumado, na qual se extrai matéria-prima, produz, consome-se o produto e o descarta no final. Especialmente o aço tem uma conexão intimamente ligada à economia circular, já que é um produto infinitamente reciclável. Tanto que hoje, 70% da nossa produção já vem da sucata ferrosa”, afirma.

Concreto verde
Exemplo de concreto verde feito com resíduos do aço | Foto: Divulgação ArcelorMittal / Davi Maia

O novo pilar foi fundamentado por uma pesquisa da Ago Social, encomendada pela Fundação ArcelorMittal. O estudo mapeou como o investimento social privado (ISP) brasileiro – que movimentou R$ 5,4 bilhões em 2022 e R$ 4,41 bilhões em 2023 – se conecta à economia circular. A conclusão revela um grande que apenas 5% a 10% desse volume se relaciona a práticas circulares. Outros indicadores reforçam o diagnóstico, como a baixa formalização de catadores e cooperativas, presente em apenas 6,5% dos municípios brasileiros, segundo o Atlas Brasileiro da Reciclagem, uma das fontes de consultas do levantamento.

A pesquisa ainda indica que a economia circular pode gerar até US$ 4,5 trilhões anuais em oportunidades econômicas até 2030, além de 7 a 8 milhões de empregos no mundo, segundo estimativas internacionais. Para Camila Valverde, esses números reforçam a necessidade de incorporar a justiça social à transição. “A oportunidade de investir em projetos sociais focados nas pessoas que trabalham na economia circular é enorme. Essa pesquisa pode ajudar a fomentar todo o terceiro setor e clarear o potencial que temos pela frente”, resume.

Para a executiva, internamente, as conclusões ampliaram os horizontes da Fundação e reforçaram a importância de estruturar um investimento social voltado explicitamente à nova economia. Ela argumenta que o compilado mostra caminhos concretos para ampliar a associação entre investimento social privado e circularidade, fortalecendo a transição justa para uma economia de baixo carbono.

Economia circular como vetor estratégico de desenvolvimento

Com a nova frente, a Fundação ArcelorMittal se posiciona como um dos atores que tratam a circularidade não apenas como uma agenda técnica, mas como um vetor estratégico de desenvolvimento humano, uma conexão cada vez mais necessária para transformar a economia do futuro em realidade.

Imagem gerada com o auxílio de Inteligência Artificial

Para isso, a instituição dividiu a estratégia em três blocos, todos centrados nas pessoas. O primeiro foca na cidadania, dignidade e fortalecimento dos trabalhadores da circularidade, especialmente por meio de grupos historicamente invisibilizados, como catadores, sucateiros e costureiras organizadas em cooperativas. “O primeiro bloco promove cidadania, dignidade e fortalecimento das pessoas”, explica.

O segundo eixo aborda as condições de trabalho e o amadurecimento de processos, com atenção à regularização, formalização, saúde, segurança e capacitação. E o terceiro busca estimular novos negócios e ampliar a inclusão produtiva na cadeia da circularidade. “Queremos ampliar o número de pessoas inseridas nessa cadeia, estimulando negócios capazes de gerar emprego, renda e impacto positivo”, completa Camila Valverde.

Economia circular dentro e fora do negócio

Vale destacar que a indústria nacional do aço é um dos principais motores da economia circular no País, com a utilização de 9,2 milhões de toneladas de sucata ferrosa em 2023, segundo a pesquisa realizada pela Fundação ArcelorMittal.

Além disso, a nova frente dialoga diretamente com a operação da companhia, cuja cadeia produtiva já integra práticas avançadas de circularidade. Nos últimos três anos, a ArcelorMittal Brasil adquiriu cerca de 8,5 milhões de toneladas de sucata, material retirado de aterros e reintegrado ao ciclo produtivo. Isso porque, no País, 70% do aço da empresa é produzido a partir de sucata ferrosa, e a empresa opera 20 pontos de recepção e 25 prensas móveis, trabalhando com mais de 2 mil fornecedores. Para se ter uma ideia, apenas no segmento de aços longos, 54% da produção deriva da reciclagem.

Globalmente, são 30 milhões de toneladas de sucata processadas ao ano, sendo cerca de 3 milhões no Brasil. Em unidades como Pecém (CE) e Tubarão (ES), quase todo o volume de resíduos industriais já é transformado em coprodutos usados na construção civil, na agricultura e em tecnologias de reaproveitamento que tornaram a companhia referência no setor.

Para a Fundação, porém, a economia circular não se limita ao aço ou aos resíduos industriais. “Não estamos falando apenas da recircularidade da matéria-prima, mas de tudo que se relaciona com a cadeia produtiva e com as comunidades onde atuamos. O alcance territorial da iniciativa será nacional, com prioridade para regiões onde a empresa está presente, mas sem restringir a atuação a elas”, reforça.

Por fim, a executiva revela que o modelo foi estruturado para ser implementado gradualmente a partir de 2026, com análise de projetos já existentes nas leis de incentivo e iniciativas alinhadas à estratégia. E que a Fundação também pretende estimular parcerias com institutos e fundações, além de empresas da cadeia do aço.

Sobre o autor

Mara Bianchetti

Editora do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva, com especialização em Jornalismo em Ambientes Digitais pelo UniBH. Premiada entre os jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/marabianchetti/

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