Política

Jarbas Soares Júnior defende diálogo e promete um Estado ‘resolvedor de problemas’

Caso seja eleito, pré-candidato ao governo estadual pelo PSB propõe uma renegociação da dívida de Minas com a União
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Jarbas Soares Júnior defende diálogo e promete um Estado ‘resolvedor de problemas’
Soares Júnior afirma que adotará medidas para reduzir a burocracia no Estado | Foto: Diário do Comércio / Nathália Gonçalves

O Diário do Comércio Eleições Minas 2026 recebeu o pré-candidato ao governo de Minas pelo PSB, Jarbas Soares Júnior. Ele foi procurador-geral de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais por quatro mandatos, nos biênios de 2005 e 2006, 2007 e 2008, 2021 e 2022 e 2023 e 2024 e integrou o Conselho Nacional do Ministério Púbico. Ele deixou a carreira de 36 anos no MP Público para entrar na política neste ano.

Jarbas Soares Júnior coloca a renegociação da dívida com a União como primeira prioridade dos seus 100 dias de governo. Ex-promotor de Justiça, ele critica o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) por ter sido feito “no calor da política” e afirma que a relação conflituosa entre o governo Romeu Zema (Novo) e o Planalto contaminou a mesa de negociação. A proposta é bater às portas do presidente da República, seja quem for eleito, para discutir a retirada dos juros da dívida estadual, mantendo apenas a correção monetária. Para ele, Minas não pode ficar “paralisada 20 anos” pagando um passivo impagável, porque isso afeta a economia, a vida dos mineiros e a imagem do Estado, que é segundo ou terceiro em PIB e segundo em população no País.

Na gestão e nos recursos disponíveis, Jarbas defende um diagnóstico real da máquina pública nos primeiros 100 dias de governo. Ele questiona a narrativa de “Estado eficiente” propagandeada pela gestão de Romeu Zema e cita que apenas 20% do acordo de Brumadinho foi executado e que o de Mariana ainda não trouxe resultados práticos, apesar do total de R$ 210 bilhões previstos para os dois acordos que, somados aos recursos da venda da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), esses valores precisam, na avaliação dele, ser melhor direcionados a investimentos estruturantes.

Sobre estatais, o posicionamento é contrário à privatização: ele é contra a venda da Copasa e da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), e, caso eleito, não privatizaria a Cemig.

No ambiente de negócios, o candidato propõe um Estado “resolvedor de problemas” e com coragem para decidir. A principal medida nos primeiros 100 dias seria desburocratizar o licenciamento e atrair novos empreendimentos e investimentos, inspirado no modelo adotado pela Inglaterra: o governo avalia e carimba grandes empreendimentos como de interesse público, assumindo a responsabilidade de destravar licenças e articulações com órgãos estaduais, federais, Ministério Público e Tribunal de Contas. Ele exemplifica com casos de energia solar que saíram em Goiás e travaram em Minas.

Para logística, ele aposta em ferrovias estaduais que se conectem à malha federal, e propõe resolver gargalos rodoviários com apoio da União e dos municípios. Além disso, ele quer usar os recursos dos acordos de Mariana e Brumadinho e a receita da privatização da Copasa para alavancar obras.

Sobre mineração, transição energética e desenvolvimento regional, Jarbas chama terras-raras, lítio e nióbio de “ouro do século XXI” e defende criar uma cadeia de agregação de valor em Minas, em vez de exportar minério bruto. No agronegócio, propõe fortalecer a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG) e aproximar o Estado do produtor.

Na segurança, prioriza resgatar a investigação da Polícia Civil, criar batalhões de fronteira e focar no combate às organizações criminosas por dentro.

E no pacto federativo, rejeita a criação de administrações regionais, defendendo relação direta entre governador e os 853 prefeitos, com repasse de recursos para que cada município resolva problemas estruturais, como nos exemplos de Santa Bárbara, Lavras e Machado com verbas do acordo de Brumadinho.

Qual medida com impacto direto no ambiente de negócios de Minas Gerais seria tomada nos seus primeiros 100 dias de governo?

Nós temos muitas coisas para fazer. O governo atual cumpriu o seu papel, sua missão, ele exauriu. E nós precisamos agora de uma Minas muito diferente.

A primeira coisa a ser feita é bater às portas do Palácio do Planalto, conversar com o presidente da República para discutirmos a questão da dívida e do Propag (Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados), que considero uma medida positiva, porque Minas Gerais passa a ter previsibilidade no pagamento da dívida.

No entanto, o Propag foi feito no calor da política. À época, nós acompanhávamos pelo Ministério Público, porque o Ministério Público também é atingido pelo Propag, e eu vi claramente que toda vez que o governador de então, Romeu Zema, afrontava o governo federal, sobretudo a figura do presidente da República, isso contaminava a mesa de conversa.

A solução foi buscada e, felizmente naquele período, o presidente do Congresso era um grande mineiro, uma figura extraordinária, o senador Rodrigo Pacheco, que pode então ter uma conversa com o presidente, sobretudo com o Ministério da Fazenda, mas a mesa estava contaminada pela política. Então, muitas coisas que poderiam ser melhores para Minas Gerais, não foram.

Nós temos que lembrar que Minas faz parte do Brasil. Minas não é um Estado fora do Brasil, é um Estado federado. É um Estado que o Brasil todo passa por Minas para seus comércios, seus negócios. É um estado importante para economia, segundo ou terceiro do País. É a segunda população do País, é um estado que tem os limites com várias regiões e que interliga várias regiões. E quando o Minas não progride, o Brasil não progride.

Então, nós precisamos bater às portas do presidente da República, seja ele quem for eleito, para nós fazermos essa discussão. Esse problema da dívida está afetando a economia do Estado, está afetando a vida dos mineiros e até o astral de Minas Gerais. Essa é minha primeira prioridade.

A segunda, eu penso que um governador tem que se afundar para realmente conhecer a realidade de Minas Gerais, porque a realidade que é jogada para a população, para a mídia, para todo o Brasil é de um Estado eficiente, o Estado que funciona, o Estado do bom gestor, que a economia está muito bem, que há muitos investimentos, que os salários são pagos em dia, que os municípios recebem dia, mas nós sabemos que a realidade é um pouco tanto diferente.

Então, nós precisamos realmente conhecer o Estado, saber o que está acontecendo, quais são os impactos das medidas que foram tomadas nesses oito anos para poder realmente em 120 dias de governo ter condições de apresentar para Minas Gerais um projeto, que passa basicamente por essa questão fiscal e também de organização do Estado para os investimentos que nós teremos.

O acordo de Brumadinho só foi realizado até agora em 20%, ainda tem 80% por fazer. O acordo de Mariana praticamente não tem nenhum resultado. Eu estou falando de R$ 210 bilhões previstos nesses acordos e agora temos os recursos da venda da Copasa. E eu estou vendo o governador, que é um grande de amigo meu, que eu gosto muito, anunciando obras com esses recursos. Então, nós precisamos também saber como melhor direcionar esses recursos para eventuais investimentos no estado. É preciso que o governador, tão logo assuma, se dedique com sua equipe a conhecer a realidade da máquina pública, o que que está acontecendo por trás desse enigma que foi criado do Estado eficiente.

E o ponto fundamental é que o mineiro não pague juros. Não está certo a União cobrar juros do estado federado. A correção monetária, tudo certo. Agora, juros não é aceitável. Essa dívida chegou a esse valor astronômico e ficou praticamente impagável.

Qual o seu posicionamento sobre a privatização da Copasa e da Cemig? Caso seja favorável, quais salvaguardas defenderia para garantir a universalização dos serviços e proteger o consumidor?

Eu sou contra a privatização da Copasa e da Cemig. A Cemig, eventualmente sendo candidato do PSB e vencendo as eleições, nós não vamos privatizar. A Copasa, pelo que eu vejo, até lá o próprio processo já foi concluído. Então, eu sou do direito, sou promotor de justiça, os contratos têm que ser observados.

Qual a sua proposta concreta para a mineração e a transição energética em Minas Gerais, um Estado que concentra reservas estratégicas para a transição energética global, como lítio, nióbio, grafite, terras-raras?

Olha, nós temos que fazer um balanço real. Como eu digo, a nós, mineiros, foi vendido o estado eficiente, o Estado que funciona, o Estado do bom gestor. Me parece que não isso não procede. Então, nós precisamos fazer esse levantamento. E nós temos que estar muito integrados com o governo federal.

A questão das terras-raras, nós estamos diante de um minério que é o novo ouro, é o ouro do século XXI. Minas Gerais tem esse patrimônio que é seu, tem que saber explorar e também criar uma cadeia que nós possamos agregar valor ao mineral e à nossa economia. É a questão toda de organicidade que precisa ser feita e nós temos que trabalhar em cima disso para apresentar realmente uma proposta real para o Estado de Minas Gerais.

Sinceramente falando, eu e talvez todos os outros pré-candidatos que passaram por aqui, à exceção do governador Mateus Simões, repito meu amigo, não temos conhecimento do que o governo tem feito nessa área. Então, talvez tenhamos que ter realmente um projeto para Minas, o Estado de Minas, o estado das minas. E nós temos uma um território cujo o valor minerário só dá uma vez e que infelizmente nós não aproveitamos durante todos esses tempos.

Empresários mineiros apontam sistematicamente a burocracia estadual e a insegurança jurídica como freios ao investimento nos negócios. Qual o seu diagnóstico sobre essa questão e quais medidas o senhor pretende adotar nos primeiros 12 meses de governo?

Essa é a realidade. O empreendedor, se fizer uma figura ilustrativa, é como ele estivesse uma barreira na frente dele para empreender. Eu tive na minha vivência de 36 anos no Ministério Público, o convívio diário com essa problemática. A legislação de proteção ambiental, por exemplo, do Brasil, ela é excepcional. Talvez no mundo inteiro não tenhamos uma legislação tão boa e nós temos aí instituições funcionando como o próprio Ministério Público.

Mas o que vemos é o seguinte: os empreendedores hoje são quase heróis. O investimento no Brasil tem um custo elevadíssimo. O tempo é um valor econômico muito grande e tudo trabalha contra quem quer empreender.

O que é preciso ter do Estado? Coragem para tomar decisões, coragem para dar respostas rápidas, coragem para enfrentar os contrários, porque nós sempre vamos ter contrários em qualquer assunto. Se Jesus Cristo descer hoje no mundo e vier a Minas Gerais, vão ter muitas pessoas contra. Então, nós temos que enfrentar. O governo tem que ter coragem para resolver. Nós precisamos de um governo resolvedor de problemas.

Nesse sentido, nós não podemos ter um licenciamento, por exemplo, que demore cinco, sete anos para sair. Nós temos que, logo no primeiro momento, indicar se o procedimento vai ser realizado. O empreendedor, ele vai fazer uma coisa só, que é cuidar do empreendimento. Hoje, o empreendedor tem que contratar advogado, tem que contratar lobista, tem que ficar correndo atrás do Estado. Isso não está certo.

O Estado precisa facilitar a vida de quem quer empreender aqui, porque o empreendimento gera emprego e faz a economia rodar. Então, nós precisamos de um governo que resolva.

Eu quero buscar, caso seja o governador de Minas, o modelo da Inglaterra, no qual o Estado absorve o empreendimento como se fosse dele, bate o carimbo de interesse público após avaliar e o Estado que vai cuidar para que aquele empreendimento seja bem-sucedido rapidamente.

Então, nós queremos buscar essa forma que o Estado defina que aquele empreendimento é de interesse público, sobretudo os grandes empreendimentos, e sobretudo que o Estado cuide para desburocratizar, seja na justiça, seja no Ministério Público, seja no Tribunal de Contas, seja dentro do Estado, seja junto com os órgãos federais e os órgãos municipais.

Eu acho que assim nós conseguimos vencer essas barreiras e ter coragem para decidir, porque que a gente vê são governos medrosos, pessoas com receio de tomar decisões. Isso paralisa o Estado, isso está errado e os empreendimentos vão para outro Estado. Eu vou exemplificar aqui citando um caso concreto. O ex-prefeito de Betim, que é um grande empresário, Vittorio Medioli, tem dois empreendimentos de energia solar em curso. Um em Minas e outro em Goiás. O de Goiás já está funcionando. O de Minas ainda não saiu nem a primeira licença.

Quais são as prioridades concretas do seu projeto de governo para rodovias, ferrovias a fim de ampliar a competitividade logística do Estado?

Esse é o primeiro ponto, muita gente quer investir em Minas, mas vê as barreiras, vê a dificuldade do governo de tomar decisão, vê a dificuldade de realizar. Então, nós precisamos criar primeiro esse ambiente para atrair o investimento real, não para ter números para serem divulgados na imprensa, números irreais. Nós precisamos de buscar essa questão da mobilidade, a infraestrutura necessária.

O Estado de Minas Gerais está sem condições de fazer grandes investimentos agora, a não ser pelos recursos dos acordos de Mariana e de Brumadinho e da venda da Copasa. Mas outros investimentos, o Estado não tem como, porque o Estado é pagador de folha e pagador de dívidas. Então, nós precisamos atrair investimento.

As ferrovias estaduais têm pequenos trechos dentro do próprio Estado, como está sendo feito agora no Mato Grosso. Isso é algo que o Estado pode estimular, as ferrovias que depois acabam se integrando às ferrovias federais.

Além disso, precisamos resolver o problema dos gargalos que existem na infraestrutura rodoviária. Ainda temos um País rodoviário e Minas Gerais é a malha rodoviária. Nós precisamos estar junto com o governo federal para termos as nossas estradas transitáveis. Tem muitos trechos que estão dependendo de 60, 70, 100 km que podem ser interligados e diminuírem a pressão sobre algumas das nossas rodovias. É preciso fazer um esforço junto com os municípios e com o governo federal para desenvolver a economia regional, porque a economia vem do interior para Belo Horizonte e vem do país para cá.

Então, se o Estado conseguir ter uma liderança capaz de conduzir esse conjunto de forças com o setor privado, com o setor público, federal, estadual, municipal, nós podemos ter grandes avanços e permitir que o Estado seja um Estado onde as coisas funcionem. Na verdade, se você comparar com quase todos os estados federados, e eu poderia dar dois exemplos aqui, Ceará e Paraná. Pesquisem sobre o desenvolvimento desses estados. Pega Pernambuco, pega a própria Bahia. Minas Gerais está para trás. Eu visitei todos os 27 estados do Brasil. Minas Gerais está muito para trás. Ficou para trás, infelizmente. O Estado que já foi a principal economia do País.

Minas Gerais convive há anos com o peso da dívida com a União, o que limita a capacidade de investimento do Estado. Como o senhor pretende equacionar esse passivo e ampliar a margem fiscal para projetos prioritários?

Eu vi muitos pessimistas alardeando um ajuste fiscal rigoroso e demissão de funcionários públicos. Essa não é uma pauta prioritária para mim.

E, ao contrário dos pessimistas, eu sou um otimista. Nós temos que pensar como JK, pensar em uma Minas Gerais grande e em um Brasil grande. Então, nós vamos partir do seguinte pressuposto. O Propag é bom? Não. É o que temos? É. É melhor do que o regime de recuperação fiscal? É. Nós sabemos que vamos pagar. Isso é um ponto importante.

A dívida hoje dobrou, por quê? Porque o Estado não pagou. É como se você tivesse uma dívida do cartão de crédito e, se você não pagar, ela vai dobrar muito rapidamente, quadruplicar, sextuplicar. O que aconteceu no Estado foi isso, não pagou a dívida do cartão de crédito. Então, o que que nós precisamos fazer agora? Saber que nós temos um valor a pagar todo mês e que vamos ter que fazer um ajuste fiscal necessário para que o Estado continue pagando e honrando a sua dívida.

Paralelamente, precisamos negociar com a União uma nova realidade. Não é razoável a União cobrar juros do Estado dessa forma que está cobrando. Ah, mas são juros para investimentos na saúde, na infraestrutura. Ainda assim, está se cobrando juros. Então, o que nós precisamos? Tirar os juros para o Estado ter uma margem de investimentos. Minas não pode ficar paralisada 20 anos. Quem perde com isso é o Brasil.

Agora, eu sou otimista, e posso citar três exemplos positivos. O acordo Brumadinho tem bilhões de reais ainda para entrar na economia do Estado. O acordo de Mariana está entre os três maiores acordos da história que nós, do Ministério Público, ajudamos a conduzir e resolver juntos com a Defensoria Pública e o governo de Minas Gerais. Com esses recursos, nós vamos ter 100% de saneamento da Bacia do Rio Doce, que começa aqui, perto de Barbacena, e vai até a Bahia. Isso nunca houve no Estado. Nós vamos ter aí a duplicação até Mariana. Nós vamos ter do governo federal aqui a duplicação das BRs 262 e 381. Nós vamos ter os investimentos que estão previstos no acordo de Mariana. Isso tudo vai gerar uma grande transformação em Minas Gerais. E além disso, agora ainda tem os recursos da Copasa, que também são destinados a investimentos.

Eu fiz uma brincadeira, mas que tem forte conteúdo de realidade. O próximo governo vai ser um governo JK, porque nós vamos ter como investir no Estado. E aí nós teremos condições de gerar um clima de ânimo e de investimento no Estado.

Vamos pegar uma indústria muito importante, do turismo. O turismo em Minas é de dar pena, porque nós não temos uma política para o turismo. Quais são as rotas que o Estado tem hoje em Minas Gerais. Todo mundo vai lembrar de Ouro Preto e Tiradentes. Então, nós precisamos realmente fomentar a economia.

Mas aí precisa de liderança. Precisa de gente que resolva. Precisa de governo eficiente. Precisa de bons gestores. Precisa de gente que se preocupe com os pobres.

Então, é isso. Eu acho que chegou o momento de Minas Gerais retomar o espírito JK de alegria, de entusiasmo para nós realizarmos.

Então, falando do Propag, nós temos que sentar com o presidente da República, seja Lula, Flávio Bolsonaro, Caiado ou até mesmo o governador Zema ou um dos outros candidatos, e mostrar que Minas parada é ruim para o País.

Quais políticas agrícolas o senhor defende e como pretende integrar tecnologia, crédito e assistência técnica para o produtor rural?

O que eu penso sobre o setor privado, o Estado não pode atrapalhar. Esse é um princípio básico. Eu sempre falo: ao pobre, ajudar; ao rico, não atrapalhar. O rico que eu digo é quem investe. O Estado tem que estar ao lado de quem investe e facilitar os processos.

Nós temos que sentar com a Faemg (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais), com os empreendedores do agronegócio para levantar as demandas. Nós temos que buscar alternativas para controlar esse mercado, ajudar com o Estado. Nós temos a Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural), mas o Estado está diminuindo cada dia mais a força da Emater. Nós temos que resgatar a Emater, dar força para ela, nós precisamos estar ao lado do produtor.

O que nós vimos, por exemplo, agora na Feira do Leite aqui em Belo Horizonte, é que eles todos estão sem esperança em dias melhores. O Estado virou um problema. Então, nós temos que tirar o Estado e fazer como nós fizemos no Ministério Público. O Ministério Público passou a ser parte da solução do problema e não mais ficar cinco, dez, quinze anos com o problema. Nós temos que ser parte da solução e o Estado tem que ser o resolvedor de problemas. É isso que nós precisamos fazer em Minas Gerais e o que não foi feito nos últimos anos.

Como o senhor articula a agenda de segurança pública com a agenda econômica e quais são as prioridades do seu governo nessa área?

Primeira coisa, o Estado tem que se organizar. Todo mundo fala em combater o crime organizado. E o crime está organizado. Nós temos bons programas no Brasil inteiro e fora do Brasil. Aqui em Minas, temos programas pontuais. Precisamos ter uma política de segurança pública.

Caso eventualmente eu seja o governador do Estado, a segurança pública será um tema entre os cinco principais do meu governo. Nós temos que ter o Estado razoavelmente seguro. O que está tomando conta do nosso País, do mundo, é o crime por meio da tecnologia, os crimes virtuais. O Ministério Público de Miami, por exemplo, já mudou seu caminho. Hoje concentra mais sua força nos crimes virtuais. Nós não chegamos a tanto ainda, mas nós precisamos trabalhar para sufocar o crime.

Não adianta colocar só a força da Polícia Militar para combater o crime organizado, se nós não desmontarmos as estruturas do crime organizado que chegou em Minas Gerais pelas fronteiras, pelos corredores rodoviários. Nós precisamos entrar para destruir o crime por dentro. O que nós vemos é um combate ostensivo que é importante, mas sem nenhuma estratégia adequada, ao meu ver, para enfrentar o crime por dentro. Então, o Estado tem que enfrentar e dar essa sensação de segurança para a população e mostrar para os bandidos que estão vindo de fora para Minas Gerais que aqui não é Estado do crime e que nós vamos reagir ao crime.

Mas só é possível combater por dentro as organizações criminosas com a investigação real. Eu trabalho com a ideia dos batalhões de fronteira, que é combater o crime organizado que vem do Rio e de São Paulo, por exemplo, para Minas pelas fronteiras do Estado. Os batalhões ficariam nas fronteiras para não deixar que o crime entre no Estado. Como ele já entrou, nós temos que combater o que já está aqui dentro e combater o crime nos corredores rodoviários. Isso aí é a polícia ostensiva.

Agora, nós temos que, urgentemente, resgatar a polícia civil, o seu poder de investigação. A Polícia Civil hoje não existe no Estado de Minas Gerais. Há heróis e heroínas na Polícia Civil que estão lutando para sobreviver. A polícia está desmontada, as delegacias estão desmontadas e o poder de investigação da Polícia Civil não existe.

Você ouve sobre a atuação da Polícia Federal todos os dias. E a Polícia Civil está enxugando gelo. Nós temos que resgatar a Polícia Civil, resgatar o seu poder de investigação. Esse é o ponto central porque se nós não investigarmos corretamente, não entrarmos dentro das organizações criminosas e elas vão tomar o Estado de Minas Gerais.

O desenvolvimento regional passa pela relação entre governo do Estado e, no caso de Minas, os 853 municípios com realidades muito distintas. Como o senhor pretende estruturar a relação do Estado com os municípios para reduzir desigualdades regionais e potencializar vocações econômicas locais?

Dizia Ulysses Guimarães que ninguém mora na União, ninguém mora no Estado, todos moramos nos municípios. Então, a base do Estado é o município. O que que eu prego é o investimento nos municípios, um Estado parceiro dos municípios, dos prefeitos e das prefeitas para nós desenvolvermos os municípios, resolvendo aquelas demandas estruturais dos municípios para a economia crescer dos municípios para a Capital.

O Estado cuida das questões regionais junto com os municípios. Eu sou totalmente contra a ideia de administrações regionais porque nós iríamos colocar mais um ator político entre o governo do Estado e as prefeitas e os prefeitos. Essa relação tem que ser direta entre prefeitos, prefeitas e o governador do Estado. Eu sou contra esse tipo de instalação de novas estruturas de administração regional. Vão criar novos cargos políticos, novas discussões políticas, novos custos para o Estado. O governador tem que falar direto com as prefeitas e os prefeitos.

E eu tenho um exemplo formidável de municipalismo sobre o acordo de Brumadinho, quando a Assembleia Legislativa retirou R$ 1,5 bilhão da parte do ressarcimento das perdas econômicas e distribuiu para os 853 municípios. Foi o dinheiro mais bem empregado até agora. Todo município resolveu um problema estrutural com esse pequeno recurso de R$ 1,5 bilhão. Além disso, nós lutamos muito para que, no acordo de Mariana, R$ 4,5 bilhões daquele valor de R$ 170 bilhões fossem distribuídos para os municípios sem vincular diretamente ao município uma obrigação específica, como o Estado faz com seus programas sem olhar as questões locais porque olha só o macro e esquece das questões locais. E aí os prefeitos acabam aderindo àquela política mais por oportunidade do que necessidade.

O que que nós precisamos pensar? Se os municípios desenvolverem a sua economia com investimentos e resolverem os seus problemas, o Estado ganha no conjunto. O governo cuida das questões regionais, discute as questões regionais com aquela região e cuida da questão macro, que é relação com União, relação com o mundo e as grandes políticas estaduais.

O caso de Brumadinho é um excelente exemplo para dizer o que pode ser feito com os municípios. Cada município resolver um problema. Vou dar três exemplos muito rápidos.

Em Santa Bárbara, morriam pessoas toda a semana no trevo da cidade, onde passavam os caminhões de minério. Hoje, o prefeito construiu o trevo naquele modelo igual aos trevos de Brasília, um trevo moderno. O município não tinha condições de fazer aquela obra diretamente. Depois dela, não morreu mais ninguém naquele trevo. O prefeito resolveu um problema concreto da cidade que ceifava vidas humanas.

Em Lavras, a prefeita Jussara construiu um viaduto na divisa com Ribeirão Vermelho.

O viaduto, que tem até o nome do ministro Alysson Paolinelli, resolveu o problema. Depois que ele ficou pronto, também não houve mais mortes lá. Resolveu um problema estrutural da cidade.

Com o recurso do acordo de Brumadinho, o prefeito de Machado criou o bairro Industrial ao lado do Distrito Industrial da cidade. Antes, os trabalhadores tinham que atravessar a cidade, acordar mais cedo para chegar ao trabalho. A prefeitura já está lá estruturando o bairro para atender à necessidade da cidade.

Então, na verdade, a economia e a vida acontecem nos municípios. O Estado não pode concentrar os poderes e os recursos. Nós temos que dividir, porque dividir vai se somar e quem vai ganhar é o Estado como conjunto. Deixar o Estado para as grandes questões e as questões regionais ele conduzir, porque realmente algumas necessidades os municípios não têm fôlego para resolver, mas podem cooperar, sobretudo os municípios mais ricos.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas