Sustentabilidade

Minas Gerais é o terceiro estado mais afetado por seca e chuvas extremas no Brasil

Levantamento da CNM mostra que o Estado ocupa o 3º lugar nacional tanto em registros de estiagem quanto de eventos provocados por excesso de chuva entre 2013 e 2025
Minas Gerais é o terceiro estado mais afetado por seca e chuvas extremas no Brasil
Crédito: Gil Leonardi/Imprensa MG

Minas Gerais está entre os três estados do País mais afetados tanto pelas secas quanto pelo excesso de chuvas nos últimos 13 anos, de acordo estudo da Confederação Nacional dos Municípios (CNM).

Dos 30.015 registros de estiagem no Brasil entre 2013 e 2025, 3.709 (12,35% do total nacional) foram feitos por prefeituras mineiras (ranking abaixo), atrás apenas da Paraíba (4.664 decretos) e da Bahia (4.161). O norte de Minas, com destaque para áreas do Semiárido, concentra a maioria das ocorrências.

Tabela com dados de todos os estados brasileiros sobre quantidade de decretos por seca ou estiagem de 2013 a 2015.

No extremo oposto, as chuvas intensas também afetaram os mineiros. Dos 22.863 registros, Minas também fica em terceiro lugar (ranking abaixo), com 2.997 eventos como inundações, alagamentos, enxurradas e tempestades, atrás de Santa Catarina (4.885) e Rio Grande do Sul (3.628). Entre as regiões, o Sul é a mais atingida pelo excesso de precipitações, com 41,5% desse tipo de ocorrência, seguida pelo Sudeste, com 24,6%.

Tabela sobre decretos por excesso de chuvas nos estados brasileiros entre 2013/25

Mudanças climáticas e fragilidades locais ampliam extremos em Minas

Para a engenheira ambiental e professora de climatologia e hidrologia do Centro Universitário UniBH Elizabeth Rodrigues, as mudanças climáticas ajudam a explicar essa alternância entre estiagens e períodos de chuvas intensas porque elas tornam o clima mais instável e extremo.

“Em Minas Gerais, temos observado períodos de seca mais prolongados, temperaturas mais elevadas e, ao mesmo tempo, episódios de chuvas muito intensas concentradas em poucos dias ou até em poucas horas. Isso acontece porque o aquecimento global aumenta a quantidade de energia e de vapor d’água na atmosfera”, explica.

Com isso, segundo a professora, a tendência é que as precipitações sejam mais fortes e destrutivas. “Por outro lado, também ocorrem períodos maiores de bloqueios atmosféricos, que dificultam a formação de chuvas e favorecem as estiagens”, completa Elizabeth Rodrigues, que também é doutora em recursos hídricos.

A docente explica ainda que Minas Gerais possui uma diversidade climática muito grande, incluindo áreas de Cerrado, Mata Atlântica e regiões semiáridas no Norte do Estado. Essa característica aumenta a vulnerabilidade do território aos extremos climáticos.

“Além das mudanças climáticas globais, existem fatores locais que agravam esse cenário, como desmatamento, perda de vegetação nativa, ocupação irregular do solo, impermeabilização urbana e degradação de nascentes e cursos d’água. Ou seja, o que estamos vendo hoje é a combinação entre mudanças climáticas globais e fragilidades ambientais e urbanas que tornam os impactos ainda mais severos para os municípios mineiros.”

Adaptação climática é desafio urgente para cidades mineiras

Segundo Elizabeth, para reduzir os impactos econômicos, sociais e ambientais causados pelos eventos climáticos extremos,os municípios mineiros precisam investir principalmente em prevenção, planejamento e adaptação climática. “Hoje, não é mais suficiente agir apenas depois do desastre. É necessário preparar as cidades para uma realidade climática cada vez mais extrema”, alerta.

Uma das prioridades, segundo a especialista, deve ser a gestão dos recursos hídricos, com recuperação de nascentes, preservação de matas ciliares e proteção das áreas de recarga hídrica. “Essas ações ajudam tanto no enfrentamento das secas quanto na redução dos impactos das chuvas intensas”, destaca.

Já na área urbana, conforme aponta a professora, é fundamental melhorar o planejamento territorial, evitar ocupações em áreas de risco, como encostas e regiões sujeitas a enchentes. Também é importante ampliar investimentos em drenagem urbana, áreas verdes e soluções sustentáveis que reduzam a impermeabilização do solo.

“Outro ponto essencial é o fortalecimento das Defesas Civis municipais, com sistemas de monitoramento, alerta precoce e capacitação técnica das equipes locais. Muitos municípios ainda possuem baixa estrutura para responder rapidamente aos eventos extremos”, diz.

A docente acredita ainda ser essencial integrar políticas ambientais, sociais e urbanas. Isso porque, segundo ela, as populações mais vulneráveis acabam sendo sempre as mais afetadas pelos desastres climáticos. “Nesse sentido, saneamento básico, habitação adequada e educação ambiental são medidas fundamentais dentro da adaptação climática”, reforça.

Por fim, a doutora em recursos hídricos destaca que os eventos extremos já não podem mais ser tratados como situações isoladas. “Eles representam uma nova realidade climática, e os municípios precisam incorporar essa questão no planejamento público de médio e longo prazo”, conclui.

Minas Gerais lidera número de mortos por desastres nos últimos 13 anos

O levantamento da CNM também coloca Minas Gerais na liderança de um triste ranking: o Estado é o que acumula mais mortes (644) por desastres em geral entre 2013 e 2025. Vale lembrar que neste período grandes tragédias aconteceram no Estado, como os rompimentos das barragens de Fundão, em Mariana, na região Central (2015), e Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (2019). Juntos, os dois desastres tiraram a vida de 291 pessoas.

O Estado ocupa ainda o quarto lugar no número de desabrigados no período em questão (60.257). Rio Grande do Sul (167.687), Bahia (100.259) e Pará (74.788) aparecem nas três primeiras posições, respectivamente.

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