Eventos capazes de reunir milhares de pessoas deverão ser os últimos a voltar no mundo | Crédito: Divulgação

Ponta de lança para o turismo, os eventos sociais e corporativos são capazes de atrair públicos distintos e, em muitos casos, volumosos. Em destinos marcados pelo turismo de negócios, como é Belo Horizonte, eles são ainda mais importantes porque ajudam a divulgar outros aspectos da cidade.

Paralisados pela proibição de aglomerações em quase todo o mundo, muitos eventos estão migrando para o mundo digital. A necessidade humana do contato direto, do “olho no olho”, porém, é a aposta do setor para a volta gradual e cuidadosa. Aqueles de grande porte, que são capazes de reunir milhares de pessoas, como os shows internacionais, deverão ser os últimos a voltar.

Para o diretor da Malab Produções, Aluizer Malab, esse é um momento de reinvenção do segmento e não será fácil projetar um futuro de longo prazo enquanto não houver uma vacina contra o novo coronavírus.

A produtora foi responsável, entre outros trabalhos, pela comercialização, promoção e produção de diversos shows nacionais e internacionais, como Iron Maiden, David Guetta, Robert Plant, Elton John, Rod Stewart, Beyoncé, John Mayer e Ed Sheeran.

“Em linhas gerais, sabemos que teremos que ser mais objetivos nessa retomada, buscando questões mais essenciais, menos aglomeração, menos entretenimento. Entramos em uma recessão econômica grande e um momento extremamente delicado para o setor. Pensando positivamente, vamos ter que promover outras linhas. Como seres humanos, também precisamos de lazer e cultura. Uma saída será um turismo mais local. Além de ter um custo mais baixo, existe muita coisa interessante nas nossas cidades, no nosso Estado. No Ministério do Turismo (Mtur) trabalhei no projeto “Descatraque já”, que visava a retomada de um turismo rodoviário. No Brasil temos linhas ponto a ponto, mas não temos o turismo rodoviário. Ele vai se tornar mais viável, temos equipamentos com grande conforto que podem fazer stopover. Isso é prático e confortável”, analisa Malab.

Assim como os demais setores, os eventos também terão que se acostumar com protocolos sanitários e de segurança mais rígidos e arcar com os custos de processos e insumos.

Grandes eventos internacionais certamente não serão realizados tão rapidamente e nem com a mesma frequência que antes, principalmente pela desvalorização do real, o que elevaria substancialmente custo e o preço final dos ingressos e também pelo número de pessoas de fora envolvidas nesse tipo de produção. Assim, palestras e espetáculos mais simples e em espaços abertos e alternativos devem ganhar força.

Ao ar livre – “Os drive-ins aparecem como opções, mas, por enquanto, são caros. Também existem as possibilidades a distância, podemos observar o sucesso das lives. São outras oportunidades que surgem. A gente precisa ter condições e tempo para investir nessas soluções. Vivemos um momento delicado porque fomos impedidos imediatamente no início da crise. Essa área, que gera tantos empregos de maneira muito rápida, precisa ser lembrada do ponto de vista econômico. Quando um evento volta, todos os segmentos voltam em cadeia. Essa é uma atividade que está 100% dentro da economia criativa. Ela é a grande saída para o País”, analisa o produtor.

Aviação – E é apostando no regional que a aviação também traça estratégias para recomeçar no cenário pós-crise. À espera de um medicamento que “coloque as coisas nos eixos”, o gerente de planejamento de malha da Azul, Vitor Silva, vai reabrindo as rotas domésticas aos poucos, certo de que o turismo regional dará a tônica do novo normal da aviação no mundo e no Brasil.

A rota aérea que liga Uberlândia, no Triângulo, e Campinas (SP), operada pela Azul, por exemplo, volta a funcionar em 31 de maio. A operação visa atender principalmente clientes do Triângulo, Alto Paranaíba e Sul de Goiás.

Para garantir a saúde de colaboradores e passageiros, a Azul segue reforçando a limpeza de todas as aeronaves a cada voo e à noite, de acordo com os processos estabelecidos pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, sigla em inglês para International Air Transport Association), além de obrigar o uso de máscaras por tripulantes e clientes, a bordo e em solo. Kits com luvas, álcool em gel e lenço umedecido abastecem os aviões a cada novo voo e estão à disposição para uso dos passageiros e colaboradores.

“Em um cenário de curto prazo, as pessoas ainda terão receio de voar. Talvez diminuam as visitas a amigos e parentes, limitando-se a sair de férias e viagens de trabalho, apenas. Mas não vejo isso se estendendo pelo longo prazo. Temos uma estrutura rodoviária péssima no Brasil e quem experimenta voar, não muda de hábito. Atendemos 10 cidades em Minas que, nesse momento, estão com as atividades paradas ou muito reduzidas. Nosso plano é voltar a operar normalmente o quanto antes, mas dentro de todos os protocolos e prazos de segurança estabelecidos pelas autoridades”, afirma Silva.

Bares e restaurantes – As incertezas pesam de maneira especial sobre o segmento de bares e restaurantes. Parte da cadeia que se beneficia diretamente dos eventos e sedia boa parte deles, os equipamentos de alimentação fora do lar se viram obrigados a digitalizar as operações de uma hora para outra, implantar sistemas de delivery e boa parte deles teme não mais abrir as portas.

O certo é que o futuro vai exigir maior presença virtual, especialmente nas redes sociais e maior comunicação com os públicos mais próximos, além de novos protocolos de higiene e etiqueta social dentro dos salões.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Minas Gerais (Abrasel-MG), Ricardo Rodrigues, sem uma data estimada de volta, o segmento tem muitas dificuldades para planejar um “novo normal”. Até agora, apenas na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), estima-se que cerca de 25 mil postos de trabalho já tenham sido fechados pelo setor.

“Estamos longe de falar de um novo normal. O setor é composto basicamente por pequenas empresas, sem caixa para suportar 70 dias fechadas e ainda ter que investir em digitalização. Fizemos de tudo para segurar os empregos, dando férias, suspendendo contratos, mas chega uma hora que não há mais paliativos. E tudo piora porque não temos uma data estimada de volta. Assim é impossível planejar. Avaliamos que 20% dos estabelecimentos não voltarão a funcionar”, reclama Rodrigues.