Parceiros do Futuro

Cultura se consolida como ativo econômico na Capital

De grandes grupos a eventos independentes, a capital mineira se destaca na economia criativa, gerando valor, empregos e promovendo o desenvolvimento local e global
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Cultura se consolida como ativo econômico na Capital
Atividade cultural é uma alternativa para impulsionar o desenvolvimento | Foto: Paulo Lacerda / Fundação Clóvis Salgado

Longe de ser apenas expressão estética, a arte movimenta bilhões de dólares e gera milhões de empregos no mundo todo, por meio do cinema, da música, do design e da moda. Setores ligados à criatividade e à propriedade intelectual respondem por cerca de 2% a 3% do PIB mundial, uma força econômica ainda pouco associada ao universo cultural pelo público em geral.

Essa é justamente a lógica da economia criativa: mais do que buscar a beleza, a arte conecta pessoas, reflete a cultura de uma sociedade e movimenta o mercado muito além da simples venda de quadros. As principais vias dessa relação incluem:

  • Mercado de Arte e Investimento: Obras de arte funcionam como ativos de investimento. Colecionadores e fundos de investimento compram arte para diversificar portfólios, e os preços flutuam conforme a criação de riqueza global e a especulação.
  • Turismo, Gastronomia e Eventos: A arte impulsiona festivais, bienais e a economia local ao seu redor.
  • Influência na Indústria e Consumo: O design artístico define a estética de produtos, agregando valor financeiro e influenciando diretamente o comportamento do consumidor.
  • Mecanismos Fiscais: A arte é frequentemente utilizada em estratégias tributárias de grandes corporações e bilionários, que utilizam doações de obras avaliadas pelo mercado para obter abatimentos no Imposto de Renda.

Por todas essas características, a arte e o mercado ao seu redor são capazes de promover e acelerar a construção de um futuro real, sustentável e próspero, projetando os objetivos do projeto Parceiros do Futuro, capitaneado pelo Diário do Comércio, cujos pilares são a diversificação econômica, a agregação de valor, a geração equilibrada de riquezas e a integração entre sociedade, setor produtivo, academia e poder público. A arte aparece com destaque na quinta missão do projeto: “Turismo, infraestrutura e valorização regional”.

Berço de movimentos culturais como o Clube da Esquina, nos anos 1960; primeira vitrine do Modernismo de Oscar Niemeyer, Cândido Portinari e Roberto Burle Marx, na Pampulha; capital planejada sob a égide do Positivismo, no fim do século XIX; abrigo de escritores como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino; sede de grupos de renome internacional como Grupo Corpo, Giramundo e Galpão, entre muitos outros exemplos, Belo Horizonte sempre atraiu artistas, intelectuais, produtores, técnicos e uma extensa lista de atividades econômicas e profissionais correlatos.

Com o propósito de criar mais uma oportunidade de fruição e de valorização das expressões artísticas locais, movimentando a economia do hipercentro, foi lançado o projeto “Avenida Cultural”. O maior corredor cultural e turístico da história da cidade conecta diversos espaços que promovem a arte, a cultura, a educação e a economia da criatividade, destacando também a memória, a arquitetura, a ancestralidade e a paisagem natural em toda a extensão da avenida Afonso Pena.

De acordo com o presidente da Fundação Clóvis Salgado (FCS), responsável pelo Palácio das Artes, Yuri Mesquita, o programa une arte, patrimônio, cultura e turismo em uma estratégia unificada. Assim, a Avenida Cultural revela e valoriza aquilo que é único, autêntico e representativo da experiência mineira. Ao integrar espaços culturais, patrimônios, manifestações artísticas e paisagens urbanas ao longo da Avenida Afonso Pena, o projeto transforma a avenida em um convite permanente para descobrir a essência de Belo Horizonte.

“A avenida Afonso Pena tem uma importância simbólica que ultrapassa a cidade desde o plano original. Era um caminho que ligava uma parte baixa do Arrudas à Serra do Curral. E agora terá programação diversa. Vamos fazer apresentações nas ruas, nas sacadas, surpreendendo o transeunte. A cultura extrapola várias dimensões e é economia também. A partir do projeto vamos possibilitar a união de várias atividades culturais com turismo, restaurantes, hotéis e comércio em geral. Tudo isso dará outra dimensão aos espaços e permitirá que eles façam suas próprias conexões”, explica Mesquita.

Plataforma vê Belo Horizonte como polo estratégico

Criada para atender às demandas da cena de música eletrônica e festivais, em Paris, em 2014, a Shotgun acaba de desembarcar em Belo Horizonte. A plataforma global de venda de ingressos e gestão de eventos chega com uma proposta baseada em curadoria, identidade e conexão real com as comunidades criativas. A empresa fortalece sua presença na capital mineira ao lado de casas e coletivos que movimentam a cena da arte independente da cidade.

Assim como naquela época os produtores da capital francesa dependiam de bilheterias tradicionais ultrapassadas, hoje Belo Horizonte é vista pelos empreendedores como uma cidade com cena cultural própria, pujante e com capacidade para atrair consumidores de todo o País.

Para o general manager da Shotgun Brasil, Guilherme Brassaroto, poucas cidades no Brasil carregam uma identidade cultural tão forte, diversa e pulsante quanto a capital mineira. Entre galpões industriais, pistas, coletivos independentes, festas autorais e casas que moldam tendências para o País inteiro, BH virou um dos epicentros mais vivos da cultura underground brasileira.

“E é exatamente nesse território que a Shotgun quer crescer: no meio de quem cria movimento de verdade. Vivemos de uma cultura de festas que são, muitas vezes, esquecidas. Não queremos apenas vender. Fazemos com que a audiência do produtor aumente, atraindo o usuário, ficando próximo dele. Fomentamos a comunidade de quem faz o evento. O artista pode ser uma página com seus seguidores. O produtor se conecta com a página do artista. É um ecossistema para que o produtor não seja totalmente dependente das plataformas mainstream”, explica Brassaroto.

No Brasil, a plataforma já atua no Rio de Janeiro e São Paulo e produz dados para o produtor melhorar a estratégia de venda, tornando-o mais profissional e ampliando o impacto para as comunidades locais. “Esse tipo de produção movimenta uma economia de grande impacto para as cidades, mas que passa despercebida. É importante um olhar aguçado para não deixar que essas atividades sejam marginalizadas. A cena independente não é amadora. É profissional porque não tem margem para erros e consegue fazer. Os pequenos produtores são empreendedores que correm mais riscos do que os grandes”, avalia o general manager da Shotgun Brasil.

Grupo Corpo internacionaliza Minas

Um dos grupos mineiros de maior sucesso global, o Grupo Corpo completou 50 anos enfrentando o subfinanciamento crônico da arte no Brasil e as mudanças nas leis de incentivo, que surgiram apenas em meados da década de 1980, e nos próprios modelos de financiamento.

A primeira lei federal de incentivo à cultura no Brasil foi a Lei Sarney, sancionada em 1986. Ela permitia que empresas abatessem parte do Imposto de Renda devido para investir diretamente em produções artísticas. Ela foi substituída pela Lei Rouanet, em 1991, que instituiu o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) e é utilizada como principal modelo até hoje.

Para o diretor artístico do Grupo Corpo, Paulo Pederneiras, as leis de incentivo foram fundamentais para a profissionalização da cultura no Brasil. Elas não substituem o investimento privado, mas criam as condições para que ele aconteça e foram decisivas para que o Grupo Corpo pudesse construir um trabalho contínuo sem abrir mão da qualidade artística.

Grupo Corpo
Reconhecido internacionalmente, o Grupo Corpo é um dos principais expoentes da economia criativa brasileira, movimentando a cadeia produtiva da cultura e projetando Minas Gerais nos principais palcos do mundo | Foto: Divulgação Jose Luiz Pederneiras

“Muita gente imagina que a lei financia a cultura diretamente, mas, na verdade, ela aproxima as empresas dos projetos culturais. Uma companhia como a nossa trabalha o ano inteiro, mantém uma equipe grande, produz espetáculos, circula pelo Brasil e pelo exterior. Isso só é possível porque existe uma relação de confiança construída ao longo do tempo entre o Grupo Corpo, os patrocinadores e esse mecanismo de incentivo”, analisa Pederneiras.

Dono de uma consolidada trajetória internacional, o Grupo Corpo leva o nome de Minas Gerais e do Brasil pelo mundo. Quando viaja, o Grupo Corpo leva um espetáculo de dança e também uma ideia de um Brasil criativo, contemporâneo, sofisticado e profundamente ligado à sua própria cultura.

“Acho que o País pode aproveitar muito melhor esse patrimônio. A presença internacional dos nossos artistas, companhias, músicos e escritores ajuda a construir uma imagem positiva do Brasil que vai muito além dos estereótipos. Ao longo desses 50 anos, percebemos que existe um enorme interesse pela produção cultural brasileira. Valorizar essa presença internacional é também investir na imagem do País e naquilo que ele tem de mais singular: a capacidade de produzir cultura de excelência”, completa o diretor artístico do Grupo Corpo. Segundo o Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil 2025, produzido pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), “a Indústria Criativa desempenha papel proeminente na economia brasileira. Os segmentos que fazem parte dessa indústria geram elevado valor agregado, impulsionando de forma especial o aumento da renda e a criação de empregos no País. Além de promover o crescimento econômico, por definição, a Indústria Criativa está fortemente associada ao investimento em pesquisa, inovação e eficiência empresarial, ampliando as possibilidades produtivas, reduzindo custos, estimulando a competitividade e aperfeiçoando as estratégias empresariais. Como resultado, a economia criativa pode elevar a produtividade dos trabalhadores, otimizar processos industriais e fortalecer o potencial produtivo do País”.

Economia Criativa em números

  • 2% a 3% do PIB mundial é gerado por atividades da economia criativa.
  • Milhões de empregos são sustentados por setores como cinema, música, design, moda e produção cultural.
  • A cadeia da cultura movimenta turismo, hotelaria, gastronomia, comércio, transporte e serviços.
  • Obras de arte também são utilizadas como ativos de investimento e diversificação patrimonial.
  • Em Belo Horizonte, projetos como a Avenida Cultural buscam transformar a produção artística em vetor de desenvolvimento econômico, turístico e urbano.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas