Indústria mineira de ferroligas perde 3 mil empregos por conta de tarifaço e competição desigual com China e Índia
Tarifaço dos Estados Unidos (EUA), protecionismo exacerbado e excesso de importações geraram um impacto negativo elevado na indústria de ferroligas mineira e brasileira, culminando em queda de produção e perda de mais de 3 mil postos de trabalho entre 2024 e 2025. O setor vem enfrentando essas três situações, que fragilizam a produção e, por consequência, geram uma expectativa menor de crescimento e até de manutenção saudável das atividades, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Ferroligas e de Silício Metálico (Abrafe).
“Temos uma combinação de fatores para a ‘tempestade perfeita’ que nos atinge. Tarifaço americano, salvaguarda na Europa contra as importações de ferroliga. Esses dois mercados estão se protegendo. Então, além de ficar mais difícil a gente colocar o nosso produto fora do País, ainda temos de lutar contra o excesso de importações, principalmente de países que têm produção excedente, como é o caso da China e da Índia”, afirma o diretor executivo da Abrafe, Bruno Parreiras.
O sentimento de pessimismo de Parreiras faz sentido, pois chineses e indianos “despejaram” seus produtos 50% mais baratos do que a produção nacional.
As compras externas de ferroligas e silício metálico passaram de uma média de 80 mil toneladas anuais, entre 2016 e 2020, para um patamar superior a 110 mil toneladas anuais entre 2021 e 2025. No caso das ferroligas de manganês, a média saltou de 40 mil para mais de 70 mil toneladas. Já o silício metálico, que praticamente não era importado antes de 2021, alcançou 8 mil toneladas em 2025.
Produção e demissões
Somente Minas Gerais, em 2025, produziu 512,9 mil toneladas de ferroligas e silício metálico, o equivalente a 55,69% da volume nacional, que somou 921 mil toneladas no período. Apesar do número alto, o cenário é de preocupação. Em apenas um ano, caiu de 1,022 milhão de toneladas, em 2024, para 921 mil toneladas em 2025, uma perda superior a 101 mil toneladas.
Dos 58 fornos instalados em Minas Gerais, 2025 fechou com média de apenas 49 em operação. Isso significa que nove fornos permaneceram desligados por falta de demanda interna, levando a ociosidade do setor no Estado a 15,3%.
Com a disparidade de preços, que dilui a competitividade do produto brasileiro, gera-se um efeito dominó, com baixas vendas externas e até mesmo internas. Assim, toda a cadeia produtiva fica prejudicada.
“Eu diria que esse aumento da importação não é só uma questão de volume, mas eles derrubaram muitos preços. O que fez com que o produtor nacional acompanhasse até um determinado nível. Mas chega uma hora em que as margens vão ficando negativas e, para não destruir o valor, o pessoal está sendo obrigado a realmente fechar as portas da produção, o que afeta todo o setor. Entre 2024 e 2025, o Brasil registrou queda de 3.060 postos de trabalho no setor. Desse total, 96,3% das demissões ocorreram em Minas Gerais”, comenta Parreiras.
Protecionismo
Europa e Estados Unidos fizeram ações recentes de salvaguarda de seus mercados, colocando cotas e preço mínimo para as importações de ferroligas. Ou seja: quando as importações de países como o Brasil chegam a um teto, há cobrança de uma sobretaxa para a entrada de mais produtos.
“Eu diria que os principais mercados do Ocidente, que são os Estados Unidos e a Europa, estão arrumando formas de proteção. Nos Estados Unidos tem essa questão do tarifaço. No primeiro semestre estava com aqueles 10% mais 40% contra o Brasil. A tarifa de 40% foi questionada internamente nos Estados Unidos e ela caiu. Mas, por outro lado, colocaram uma nova tarifa de 10%, que devem retirar agora no final do mês, mas há essa ameaça de novas tarifas com a Seção 301 (tentativa dos EUA de justificar supostas vantagens comerciais do Brasil na relação entre os dois países para impor o tarifaço), que atingiu também o ferro-silício”, assinala o diretor-executivo da Abrafe.
Projeções
Com o desligamento de fornos, o fechamento de postos de trabalho e até de empresas, a tendência, segundo Parreiras, é de que o ano de 2026 seja de sobrevivência para o setor de ferroligas, dado um cenário tão hostil.
“Quando a produção brasileira perde espaço para importações realizadas em condições que não refletem os mesmos padrões ambientais, trabalhistas e tributários exigidos no País, o impacto não é apenas sobre as empresas. O efeito se espalha por toda a cadeia produtiva, afetando empregos, investimentos e o desenvolvimento regional”, finaliza.
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