Negócios Sustentáveis

O clima já chegou ao seu balanço

Da Europa ao Rio Grande do Sul e a Minas Gerais, os eventos extremos deixaram de ser cenário e viraram resultado. Para os conselhos, a pergunta não é se o risco vai chegar, e sim o que já foi feito antes que ele chegue
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Nas últimas semanas, uma das notícias internacionais que mais circulou na imprensa dizia respeito à onda de calor extremo que a Europa está vivendo; e olha que o verão europeu mal começou.

Antes, um dos eventos que integravam a London Climate Action Week foi cancelado porque o lugar onde ele seria realizado, a London School of Economics, não possui sistema de refrigeração adequado.

A Europa está acostumada a lidar com temperaturas muito baixas. A construção das cidades, majoritariamente históricas, é feita para repelir o frio e reter o calor. O teto dos prédios, as paredes, o metrô subterrâneo, toda a estrutura das cidades é para manter os ambientes internos aquecidos e confortáveis. Quando vem o calor extremo, ele transforma qualquer espaço fechado numa grande estufa e obriga as pessoas a lançar mão de alternativas para dissipar o calor.

Mas quando não há alternativas, o que temos são milhares de mortos, escolas sem aulas, museus tradicionais como o Louvre fechando seus portões mais cedo, trazendo impacto econômico para o turismo, corrida às lojas para a compra de ventiladores e climatizadores, interrupção no fornecimento de energia (o cabeamento é subterrâneo; como a temperatura sob o asfalto aumenta muito durante o dia, é mais seguro cortar a energia e esperar o resfriamento do que correr o risco de ver colapsar toda a rede subterrânea).

Mas, diante de um cenário como esse, o que se percebe de ações de políticas públicas? Para onde está caminhando a discussão que de fato altera esse cenário, e o que esperar para as próximas semanas?

Resiliência climática

O grande desafio reside no fato de que a sociedade como um todo, incluindo sua liderança, ainda não acredita na veracidade das mudanças climáticas, então as ações são sempre emergenciais, de remediação, e não de prevenção e combate real. Flexibilizar o horário de trabalho, distribuir ar-condicionado, entre outras coisas, atuam como um cobertor curto num tema que demanda ações mais estruturantes e coletivas, em perspectiva internacional. Por isso as conferências de clima e seus constantes desafios para se fazer algo com concretude e urgência. O mundo precisa de fato de uma estratégia global de resiliência climática, que nos permita prevenir coletivamente, em vez de simplesmente reagir, cada país a seu modo.

E não é preciso atravessar o Atlântico para ver a conta chegar. Em 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul afetaram mais de 2 milhões de pessoas em 478 municípios e produziram danos estimados pelo BID e pela Cepal em R$ 88,9 bilhões, algo próximo de 2% do PIB brasileiro. Para o mercado, foi o maior sinistro decorrente de um único evento na história do setor de seguros no País. Por trás de cada cifra, casas, empregos e histórias que não voltaram ao seu lugar.

Aqui em Minas Gerais, em fevereiro, as chuvas extremas na Zona da Mata, mais especificamente em Juiz de Fora e Ubá, deixaram mais de 70 mortos e milhares de desabrigados. Entre 2023 e 2025, a verba pública para respostas às chuvas caiu aproximadamente 96% (de R$ 135 milhões para cerca de R$ 6 milhões), e a maior parte desse recurso foi destinada à recuperação de estradas, ou seja, alocação reativa e não preventiva (como contenção de encostas e drenagem). O mesmo dilema da Europa, só que aqui em nossa casa.

Você se lembra da recente discussão do IFRS S2, que fala essencialmente da transparência em relação aos riscos climáticos? Hoje já vemos a materialização desse risco: em outras palavras, se antes era um evento possível, agora pode ser um evento relevante, materializado, com impacto no resultado das companhias, já que a resiliência climática não foi buscada.

E não há como não questionar: o que a sua empresa está fazendo? Já entrou na agenda de governança da sua empresa?

A revogação de uma obrigação não deve nos tirar a perspectiva de que, quanto mais preparados estivermos, mais resilientes serão nossos negócios, e menos reativos tendemos a ser; consequentemente, o impacto tende a ser menor.

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Sobre o autor

Rosane Santos

Executiva de Sustentabilidade e ESG com mais de 15 anos de experiência nos setores de mineração, saneamento e automotivo. Foi Diretora de Sustentabilidade na Samarco Mineração e atuou como membro de conselho em empresas como Arezzo&Co e Instituto Neoenergia. É MBA pela Saïd Business School, Universidade de Oxford está em certificação pelo IBGC em Formação de Conselheiros. Atua como mentora e articulista na intersecção entre ESG e estratégia corporativa.

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