Queda nos preços de batata, tomate e café derrubam prévia da inflação na Grande BH
Uma surpresa. Assim pode ser definida a prévia da inflação de julho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento registrou queda de 0,12% na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), o segundo menor resultado mensal entre as 11 áreas pesquisadas.
No País, a variação mensal foi de 0,06%. Já a variação acumulada em 12 meses ficou em 3,60% na RMBH (também o segundo menor resultado entre as áreas pesquisadas) e em 4,52% no Brasil.
Na RMBH, quatro grupos apresentaram deflação: alimentação e bebidas (-1,21%), vestuário (-0,65%), saúde e cuidados pessoais (-0,02%) e educação (-0,01%). Outros cinco grupos tiveram variações positivas: artigos de residência (0,84%), transportes (0,51%), despesas pessoais (0,28%), habitação (0,20%) e comunicação (0,15%).
Batata e tomate
No grupo de alimentação e bebidas (-1,21%), o maior destaque em termos de impacto no índice geral do IPCA-15 em julho foi a batata inglesa, cujos preços caíram, em média, 20,03% e provocaram impacto de -0,09 ponto percentual (p.p.). Ainda nesse grupo, vale destacar as quedas do tomate (-20,79%), da banana prata (-11,68%), da maçã (-8,62%) e do café moído (-4,66%), com impactos de, respectivamente, -0,08 p.p., -0,04 p.p., -0,02 p.p. e -0,03 p.p. no índice.
Outra queda de preços aconteceu no grupo de vestuário (-0,65%). As roupas caíram 0,79% e impactaram o índice em -0,03 p.p. Em Despesas pessoais (0,28%), a hospedagem recuou 2,36%, com impacto de -0,02 p.p. No grupo de Habitação (0,20%), a energia elétrica residencial subiu 1,37%, provocando impacto de 0,06 p.p.
Mercado não esperava
Segundo o economista e head de Renda Fixa na Suno, Guilherme Almeida, o índice foi uma surpresa para o mercado, dada a conjuntura incerta das economias mineira, brasileira e mundial. “Há muita incerteza no cenário quando a gente fala na atividade econômica, no mercado. Isso se traduz em risco. E quanto maior essa percepção de risco, maior a pressão sobre diversas variáveis no cenário econômico, e consequentemente uma delas é a inflação”, disse o economista.
“Então o mercado, de certa forma, não esperava uma desaceleração tão forte da inflação, principalmente porque a gente ainda tem essa incerteza relacionada aos combustíveis, com o conflito no Oriente Médio, que gera pressão no barril de petróleo e consequentemente pressão nos preços dos produtos”, completa Guilherme Almeida.
Sazonalidade
Já o economista e conselheiro de política econômica, Stefan D’Amato, diz que o resultado da prévia da inflação na Grande BH mostra um movimento bastante positivo, mas que precisa ser interpretado com cautela. “A deflação observada neste mês não decorre de uma desaceleração generalizada dos preços, mas principalmente de fatores específicos que atuaram sobre alguns grupos de consumo”, pondera.
“O principal fator foi o grupo alimentação e bebidas, responsável pela maior contribuição para a queda do índice. Esse comportamento está associado, sobretudo, à melhora da oferta de produtos hortifrutigranjeiros durante o inverno, período em que diversos alimentos apresentam aumento da disponibilidade e redução dos preços após as pressões observadas nos meses anteriores. Trata-se de um movimento predominantemente sazonal”, completa.
Energia e gás
Outros dois itens de muito impacto na vida das pessoas, energia elétrica e gás de cozinha, tiveram desempenhos diferentes. A energia teve alta de 1,37% por conta da vigência da bandeira tarifária amarela, que implicou em cobrança adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos, causando um impacto de 0,06 p.p. no índice.
Essa alta reflete também a incorporação do reajuste tarifário de 5,21% em Belo Horizonte, vigente desde 28 de maio. Ainda nesse grupo, destaca-se a queda do gás de botijão (-2,79%), com impacto de -0,04 p.p. no índice.
Em transportes (0,51%), está o maior impacto individual positivo do mês: a passagem aérea, que subiu 13,60% e impactou o índice em 0,08 p.p. Ainda nesse grupo, chama atenção a queda do seguro voluntário de veículo (-5,48%), com impacto de -0,03 p.p. no índice geral.
“Alguns componentes continuam exercendo pressão sobre o custo de vida. A energia elétrica segue refletindo reajustes tarifários e o acionamento de bandeiras tarifárias”, explica o economista Stefan D’Amato.
Imprevisibilidade
Para o economista e head de Renda Fixa na Suno, Guilherme Almeida, mensurar o comportamento inflacionário nos próximos meses será uma tarefa quase inglória, já que o desenho econômico seguirá incerto no país e no mundo.
“Hoje não são só fatores domésticos que ditam o rumo da nossa atividade econômica. Nos últimos, talvez, quatro ou cinco meses, o que tem exercido um efeito relevante é o cenário externo. E ainda tem o efeito Trump, com as novas tarifas anunciadas. Temos alguns ingredientes que tornam o trabalho de projetar a inflação, os juros e a atividade econômica muito difícil”, comenta.
Stefan D’Amato, economista e conselheiro de política econômica, até consegue ver um cenário de curto prazo, mas ele não deve se sustentar por muito tempo, também por incertezas macroeconômicas no país e no mundo.
“A expectativa para os próximos dois ou três meses é de que esse quadro de inflação baixa permaneça, mas dificilmente a RMBH continuará registrando deflação na mesma intensidade. O cenário mais provável é de inflação moderada nos próximos meses, mas mantendo a RMBH entre as regiões com comportamento inflacionário relativamente mais favorável quando comparada às demais áreas pesquisadas pelo IBGE“, conclui.
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