Lula pede voto para Jaques Wagner em meio à crise do Master e chama aliado de líder do governo

Fala do presidente se deu durante convenção na Bahia
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Lula pede voto para Jaques Wagner em meio à crise do Master e chama aliado de líder do governo
Foto: Agencia Brasil/ Antonio Cruz

Salvador e Belo Horizonte – O presidente Lula (PT) dividiu palanque e pediu voto neste sábado (1) para o senador Jaques Wagner, candidato à reeleição, durante a convenção que oficializou a chapa do partido na Bahia para as eleições, em meio ao desgaste do aliado com as investigações relacionadas ao Banco Master.

Lula chegou a cometer um ato falho ao se referir a Wagner como líder de seu governo no Senado, mais de um mês após ele ter deixado essa função por ter se tornado alvo da Polícia Federal. Ele nega ter cometido irregularidades.

Ao pedir votos para Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil, e Wagner, ambos candidatos do PT ao Senado, Lula afirmou: “Porque esse cara foi um governador extraordinário. Ele foi meu ministro do Trabalho, é líder do governo no Senado”.

Pela legislação eleitoral, antes de 16 de agosto, é permitido solicitar apoio político e divulgar ações, mas sem pedido explícito de voto -algo que pode configurar propaganda antecipada.

A um dia da convenção em que se lançará à reeleição à Presidência, em São Paulo, Lula fez um discurso de pouco mais de 30 minutos e não mencionou os novos desdobramentos da investigação da PF, que identificou ao menos 74 chamadas telefônicas entre Wagner e o empresário baiano Augusto Ferreira Lima, ao longo de um ano e meio.

Ele também não comentou a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar a abertura de um segundo inquérito a pedido da PF para investigar o seu filho e empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, por suspeitas de tráfico de influência.

Wagner retribuiu o apoio, dizendo que a eleição de Lula nestas eleições é “fundamental” para um planeta em guerra, destacando um discurso em defesa da democracia e da soberania nacional.

O ato que oficializou a candidatura à reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT) ao Governo da Bahia foi marcado por um atraso de quase duas horas e dificuldades do presidente para chegar ao Parque de Exposições Agropecuárias da capital, local do ato partidário. À Folha a organização do evento disse que o atraso ocorreu devido ao congestionamento formado nas vias localizadas no entorno do espaço.

Lula subiu no palanque por volta das 11h50, mas só discursou às 13h20. Enquanto o presidente não chegava, telões exibiam jingles que iam do pagodão baiano ao louvor “Tapete Vermelho”, da cantora gospel Lina Luz. A letra diz não ser “só política, é sentimento” e que o petista “voltou das cinzas”, uma referência ao período de sua prisão até retornar à Presidência da República.
O petista iniciou seu discurso agradecendo aos prefeitos e deputados presentes, e destacou a importância da eleição de candidaturas progressistas para frear o avanço do conservadorismo no Congresso. Ao público, ele pediu: “Me elejam a quarta vez pra gente fazer o país definitivamente dar certo.”

Apoiadores acompanhavam o ato atrás de um um gradil, numa área contígua coberta, mas separada do espaço mais próximo ao palanque, destinado a lideranças políticas. Outra parte da militância, no entanto, ficou exposta ao sol, onde tremulavam bandeiras, faixas e cartazes sob embalo de grupos percussivos e de fanfarras. Organizadores estimam que o evento reuniu cerca de 30 mil pessoas.

Os demais candidatos presentes também evitaram citar a investigação em andamento, limitando-se a celebrar os feitos do PT no estado. Em seu discurso, Jerônimo Rodrigues agradeceu diretamente a Jaques Wagner pelo apoio na campanha eleitoral.
Documentos da PF indicam que as conversas entre o ex-líder do governo e Augusto Ferreira Lima ocorreram entre 17 de novembro de 2023 e 25 de maio de 2025. Ao todo, os diálogos somam cinco horas e trinta minutos de duração.

Além das ligações, o material analisado pelos investigadores apontam que o senador recebeu presentes, usou jatinhos e até articulou um encontro “discreto” em seu gabinete entre executivos do Master e o ministro Jorge Messias, da Advocacia-Geral da União (AGU).

Em nota, Jorge Messias disse que “não participou de reunião com Augusto Lima no gabinete do senador Jaques Wagner”.
Em entrevista à Rádio Baiana FM, Jaques Wagner (PT-BA) disse ter certeza de que provará sua inocência em meio às investigações que ligam seu nome ao Master. O senador afirmou, no entanto, que não poderia dar declarações sobre as suspeitas por orientação de seus advogados, mas disse ter recebido apoio de Lula.

“Vou só citar uma frase no texto do próprio André Mendonça [ministro do STF relator do caso] que diz: ‘O inquérito serve até para afastar a culpa’. Eu tenho certeza que vou provar a minha inocência. O inquérito evidentemente demora um tempo. Eu agora estou focado na eleição”, afirmou o senador.

Em outra frente, o ministro André Mendonça também autorizou a PF a monitorar o celular de Jaques Wagner depois de identificar riscos de vazamentos de informações no âmbito das investigações das fraudes do Master. Segundo o relator, a suspeita surgiu depois de um dos alvos procurar seu gabinete dias antes da deflagração das medidas contra o parlamentar.

De acordo com informações de pessoas a par das apurações, o próprio senador esteve no Supremo para falar com o ministro em 17 de junho, na véspera da operação contra ele.

Motivada por um “risco agudo de vazamento” das diligências, a medida inclui o monitoramento de localização em tempo real (ERB) e o acesso a registros de chamadas.

Esse foi o segundo ato público de Lula ao lado de Jaques Wagner desde que o aliado e amigo de mais de quatro décadas foi alvo da operação Compliance Zero por suspeita de ter recebido pagamentos do banco de Daniel Vorcaro, por meio de empresa de sua nora, e um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões. Em ocasiões anteriores, o senador negou ter cometido irregularidades.
Há exatamente um mês, o presidente cumpriu na Bahia uma maratona de inaugurações.

Assim como Jaques Wagner, outros políticos teriam recebido vinhos do empresário no valor de até R$ 5.300. Entre eles o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), o ex-prefeito e pré-candidato a governador da Bahia ACM Neto (União Brasil) e o ex-ministro Rui Costa (PT).
Procurados pela Folha de S. Paulo, as assessorias de Jerônimo Rodrigues, Rueda, Bruno Reis, ACM Neto e Rui Costa não responderam a questionamentos da reportagem.

Líder da oposição e principal rival de Jerônimo no embate que reeditará o pleito de 2022, em outubro, ACM Neto também foi implicado na crise do Master. Relatórios do Coaf apontaram que uma empresa dele e da esposa recebeu R$ 3,6 milhões do banco de Daniel Vorcaro e da gestora Reag. O ex-prefeito disse ter prestado serviços de consultoria e que os valores recebidos são lícitos e declarados.

Na mais recente pesquisa Quaest, divulgada na terça (24), ACM Neto e Jerônimo lideram a preferência do eleitorado e aparecem tecnicamente empatados nas simulações de 1º e 2º turnos. O candidato do União Brasil soma 39% das intenções de voto, enquanto o atual governador marca 38%.

Em um eventual segundo turno, o empate técnico se mantém: ACM Neto alcança 43% da preferência eleitoral, ante 39% do petista. No fim de abril, levantamento da Quaest apontava 41% para o ex-prefeito soteropolitano e 38% para Jerônimo.
Na disputa presidencial, Lula (PT) lidera na Bahia com larga vantagem, de acordo com a Quaest. Ele tem 52% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com 18%.

Ronaldo Caiado (PSD) computa 3%, enquanto Cabo Daciolo (Mobiliza), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Samara Martins (UP) registram 1% cada. Edmilson Costa (PCB) e Leonardo Avalanche (PRTB) não pontuam. Indecisos somam 13%, e 9% afirmam que votarão em branco ou nulo ou que não irão votar.

Em eventual segundo turno contra o candidato do PL, Lula venceria no estado por 56% a 23%.

Para o Senado, Rui Costa mantém a dianteira, com 22%. Jaques Wagner figura em segundo, com 16%.

Após a ação da PF e de seu afastamento do cargo de líder do governo, Wagner viu suas intenções de voto caírem seis pontos percentuais. Em pesquisa anterior, ele tinha 22% e estava tecnicamente empatado com Rui, que marcava 24%.

Reportagem distribuída pela Folhapress

Alexandre Santos e Gabriel Araújo
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