Empresas mineiras aliam competitividade a impacto social e governança

Líderes na indústria, agronegócio e construção defendem uma gestão que una competitividade, geração de riqueza e responsabilidade com pessoas, comunidades e meio ambiente
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Empresas mineiras aliam competitividade a impacto social e governança
Da esquerda para a direita: Antônio de Salvo, presidente do Sistema Faemg-Senar; Kamila Vilela, coordenadora de Sustentabilidade do IEL; Iomar Tavares, diretor-presidente da MIP Engenharia; e José Roberto Reynaldo, CEO da TSEA. | Foto: Diário do Comércio/ Montagem

No primeiro trimestre deste ano, Minas Gerais registrou um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 285,7 bilhões, segundo a Fundação João Pinheiro. O valor corresponde a 8,6% do PIB brasileiro no período (R$ 3,3 trilhões). Entre janeiro e março, a indústria mineira respondeu por R$ 64,7 bilhões de valor adicionado, enquanto a agropecuária e os serviços contribuíram com R$ 23,5 bilhões e R$ 160,1 bilhões, respectivamente.

Os números dimensionam a relevância da economia mineira, mas, isoladamente, não capturam o papel das lideranças empresariais na construção de uma agenda de desenvolvimento sustentável.

Nesse cenário, a atuação dos executivos ganha uma dimensão que vai além da gestão financeira dos negócios. As decisões empresariais passam a envolver também competitividade, inovação, responsabilidade social e ambiental, governança e os impactos provocados pelas companhias nos territórios onde estão inseridas.

Formação de pessoas como estratégia de desenvolvimento

Para o CEO da TSEA, multinacional mineira fabricante de infraestrutura energética, José Roberto Reynaldo, a liderança empresarial focada em um crescimento sustentável compreende, sobretudo, a formação de pessoas, o investimento em educação, e a construção de um legado que também fortaleça o território no qual a empresa atua.

“Desde 2023, a gente vem trabalhando com trilhas de aprendizado. Um dos nossos projetos é o programa de aprendizagem industrial desenvolvido em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). A iniciativa permite a capacitação de jovens aprendizes que conciliam formação teórica, vivência prática na indústria e oportunidades de continuidade profissional na companhia”, explica.

Para este ano, o programa já ofertou 40 vagas e, segundo Reynaldo, a expectativa, até 2030, é que a empresa conte com 900 novos profissionais. Deste total, estima-se que de 10% a 15% dos novos colaboradores sejam jovens da aprendizagem industrial.

Imagem mostra jovens trabalhando em uma indústria.
Programa de aprendizagem industrial da TSEA, em parceria com o Senai, é porta de entrada na empresa para jovens aprendizes. | Foto: Danilo Girundi/TSEA divulgação

“Nós vamos contratar em todos os níveis, desde o mais operacional até o nível gerencial. Com isso, pretendemos aumentar nosso quadro dos atuais 1,5 mil para 2,4 mil colaboradores”, afirma.

Impacto para além dos muros da empresa

A atuação da multinacional também se estende à comunidade por meio da Fundação TSEA, braço de responsabilidade social criado pela companhia em 1989. Atualmente, a instituição apoia 20 iniciativas, entre elas o Aluno Nota 10, programa que incentiva o desempenho escolar dos filhos de colaboradores matriculados no ensino fundamental I e II.

Anualmente, os estudantes que alcançam rendimento igual ou superior a 80% do total de pontos previstos no período letivo, são reconhecidos e premiados com certificado, medalha e R$ 400. O recurso deve ser destinado a material escolar ou cursos educativos.

“Quanto mais eu desenvolvo o entorno onde eu estou, melhoro não só a qualidade da vida dessas pessoas, mas também formo pessoas melhores e que vão, no futuro, ingressar na nossa empresa e, consequentemente, formar uma empresa melhor e mais competitiva. Esse é o ciclo que a gente tem como vocação”, reforça o CEO.

Imagem mostra medalhas enfileiradas.
Aluno Nota 10 é um dos 20 projetos da Fundação TSEA. | Foto: Divulgação/TSEA

O executivo também acredita que um dos objetivos centrais dos setores produtivos deve ser buscar o equilíbrio entre a geração de lucro e um crescimento responsável, atento às questões sociais.

“Isso deveria estar na mesa de todo líder. Devemos ter clareza da nossa importância como um agente que emprega, que gera riqueza não somente para acionistas, mas também para o município, para o Estado e para o entorno. Temos que ser vetores de mudança nas comunidades”, completa.

Negócios também têm papel na transformação social

Assim como o CEO da TSEA, o diretor-presidente da mineira MIP Engenharia, Iomar Tavares, também defende uma atuação empresarial que considere os impactos das companhias sobre os territórios onde estão inseridas e, ao mesmo tempo, contribua para o desenvolvimento socioeconômico do Estado.

Com 65 anos de mercado e presença em cidades da região Central de Minas Gerais, como Santa Bárbara, Mariana e Conceição do Mato Dentro, a companhia integra, desde o ano passado, o projeto Juntos contra a pobreza. Capitaneada pela Vale, a iniciativa reúne empresas, organizações sociais, meio acadêmico, além de representantes da sociedade civil e do poder público, com o objetivo de fortalecer políticas públicas e tirar 500 mil pessoas da extrema pobreza até 2030.

O programa está alinhado ao primeiro dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos globalmente pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Atualmente, segundo a Vale, cerca de 60 mil pessoas participam de iniciativas implementadas pelo projeto, principalmente no Pará e no Maranhão, estados onde a MIP também atua. Aproximadamente 14 empresas já contribuíram para o financiamento das ações nos territórios, totalizando mais de US$ 5,37 milhões desde o início dos trabalhos.

“O líder atual deve combinar competência técnica com visão ESG, inclusão, respeito, relacionamento e cuidado com as comunidades”, destaca Tavares.

Idoneidade ganha espaço na agenda sustentável

A atuação empresarial defendida pelo gestor também passa pela dimensão da governança. A MIP recebeu pela quarta vez consecutiva, a última em julho deste ano, o selo Empresa Pró-Ética, iniciativa da Controladoria-Geral da União (CGU), em parceria com o Instituto Ethos, que reconhece organizações comprometidas com a adoção de medidas de integridade, prevenção e combate à corrupção.

Para integrar a lista, as empresas passam por um processo de avaliação que considera a efetividade de seus programas de integridade, incluindo gestão de riscos, controles internos, canais de denúncia, ações de prevenção à corrupção e iniciativas de responsabilidade socioambiental.

Imagem mostra quatro pessoas, duas delas com trofeu e certificado, em uma cerimônia de premiação.
MIP Engenharia recebeu, recentemente, o selo Empresa Pró-Ética. | Foto: Thiago Sousa/MIP Engenharia

Liderança precisa equilibrar lucro e sustentabilidade

De acordo com o professor e pesquisador do núcleo de sustentabilidade da Fundação Dom Cabral (FDC), Adriano Augústto, será cada vez mais comum, no mercado, a presença de lideranças com gestão focada nos pilares Environmental, Social and Governance (ESG), ou Ambiental, Social e Governança, na tradução para o português.

“Se a gente compara com que era há 20, 30 anos atrás, temos muito mais lideranças e empresas que estão nascendo com esses propósitos [de governança ESG], mas ainda assim não na velocidade que a gente precisa e que os grandes problemas contemporâneos, como as mudanças climáticas e as desigualdades sociais exigem”, pontua.

Augústto também afirma que mesmo os líderes ainda céticos terão de lidar com temas como descarbonização, mudanças regulatórias, pressão de consumidores e transformações nos mercados. Ao mesmo tempo, faz uma ressalva importante: não se trata de abandonar o resultado financeiro. A liderança precisa equilibrar as dimensões econômica, ambiental e social.

“Se ele [o líder] só cuidar do ambiental e do social e não der conta do econômico, provavelmente não vai conseguir se manter nessa posição de liderança”, reforça.

Sustentabilidade precisa estar conectada ao negócio

Na avaliação do professor, muitas lideranças da área de sustentabilidade ainda têm dificuldade de se conectar com o negócio. O caminho oposto também acontece: lideranças de negócio, por vezes, não conseguem se conectar às práticas de menor impacto.

“Muitas empresas ainda carecem de um olhar mais amplo sobre o tema, ou seja, não basta só ficar só dentro de casa, mas pensar em como trazer outros atores para a conversa. Falta mais diálogo. Se elas querem, por exemplo, ser melhores para o Planeta e não necessariamente as mais ricas, terão que conversar com a comunidade onde estão inseridas, saber se geram impactos e quais problemas causam”, afirma.

Imagem mostra homem de camisa jeans. Ao fundo uma biblioteca aparece em segundo plano.
Adriano Augústto, professor e pesquisador do núcleo de sustentabilidade da Fundação Dom Cabral. | Foto: Divulgação/FDC

Avanço tecnológico no campo é apontado como caminho para conciliar produtividade e sustentabilidade

Falar sobre o papel das lideranças para o desenvolvimento sustentável de Minas Gerais é ainda mais fundamental em setores como o agronegócio que só em 2025 gerou um PIB de R$ 279 bilhões, valor 18% superior ao de 2024, segundo a Fundação João Pinheiro.

Para o presidente do sistema que integra a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Antônio de Salvo, a diversidade do agronegócio no Estado, que engloba desde as grandes commodities a produtos de maior valor agregado, como queijos artesanais, vinhos, azeites, cachaça e mel, já é uma vantagem competitiva e de sustentabilidade.

“No que diz respeito aos produtos de origem primária do setor agrícola e pecuário, nenhum outro estado tem o que nós temos. Essa heterogeneidade favorece a continuidade dos setores”, diz.

Esse cenário, porém, demanda, segundo o gestor, uma liderança inovadora e tecnológica, capaz de corroborar para um crescimento sustentável nos âmbitos social, econômico e ambiental.

“A agricultura já está muito tecnificada com a agricultura de precisão, mas a pecuária ainda precisa avançar um pouco mais para também virar uma pecuária de precisão. Aí sim nós teremos dentro desses dois grandes macro setores, um pacote tecnológico que nos dê lucratividade, mas respeitando as questões ambientais, fundamentais para a venda de qualquer produto”, destaca.

Equilíbrio de gênero e renovação fortalecem lideranças do agro, aponta Faemg

Antônio de Salvo também defende maior equidade de gênero entre os gestores do setor. “Existe um desequilíbrio, tem 80% de homem e 20% de mulher. Tem que ter 40, 60; 55, 45; 50, 50. Quando eu me formei, em 1987, na minha turma éramos 251 agrônomos. Tinha cinco mulheres e 146 homens. Meu filho, se formou agora, em 2023, no mesmo curso, e na turma dele era metade homem e metade mulher. Então, felizmente já existe uma tendência de equilíbrio”, conta.

Salvo acredita, inclusive, que um cenário igualitário contribui para que diferentes visões resultem em decisões ainda mais estratégicas para o setor.

Imagem mostra área ampla de produção agropecuária.
Um dos setores mais pujantes da economia mineira, o agronegócio demanda líderes inovadores e abertos a novas tecnologias, segundo o presidente do Sistema Faemg-Senar. | Foto: Divulgação/Agronelli

Por fim, o presidente do Sistema Faemg-Senar também reforça a importância da renovação constante no time de lideranças, com jovens adquirindo espaços de poder, porém respaldados em conhecimento e experiência. “Não dá para trabalhar com achismo”, afirma.

Indústria avança em iniciativas voluntárias de ESG

Se, no agronegócio, a liderança empresarial tem papel decisivo para transformar a atividade e seus impactos sobre o território, na indústria a sustentabilidade também passa a ser incorporada à própria estratégia de negócios, alcançando a cadeia de fornecedores, os trabalhadores, as comunidades e os processos produtivos.

A coordenadora de Sustentabilidade do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) – entidade que integra o Sistema da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) – Kamila Vilela, afirma que os líderes industriais estão mais conscientes na adesão de iniciativas de sustentabilidade voluntária para além das obrigações legais.

Segundo ela, o IEL desenvolve, há quatro anos, em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), o programa Aliança Ambiental Estratégica, cujo objetivo é reconhecer as empresas que desejam contribuir voluntariamente com o crescimento sustentável no Estado, por meio da implementação de projetos socioambientais, de restauração e ecoeficiência.

O programa acontece em três etapas: submissão do projeto voluntário conforme critérios do edital, com a respectiva análise e aprovação pela banca técnica da Semad e do IEL; execução da iniciativa com acompanhamento do Instituto; e emissão do Selo Sustentabilidade a partir da comprovação dos resultados. Desde que o programa foi implementado, 11 empresas no Estado já foram certificadas, conforme Kamila.

Imagem mostra pessoas em uma cerimônia de premiação.
Cerimônia de premiação do programa Aliança Ambiental Estratégica durante o Imersão Indústria, evento realizado pela Fiemg. | Foto: Sebastião Jacinto Júnior

Programa amplia compromisso socioambiental

Ainda de acordo com a coordenadora de sustentabilidade do IEL, desde 2024, a Fiemg também concede o Selo Indústria Responsável, que avalia e reconhece as empresas com alto nível de maturidade em práticas ESG e que impactam positivamente o Planeta.

“Dentro do selo, a gente tem cinco níveis de evolução de uma empresa. Aquelas que estão a partir do nível três, são, dentro da nossa metodologia, passíveis de receber o nosso selo”, explica acrescentando que esses perfis de organização, geralmente têm um sistema de gestão bem estruturado, com metas claras e contínuas para melhorar os seus critérios de sustentabilidade.

Kamila Vilela também revela uma congruência comportamental entre os líderes das empresas certificadas com o selo: eles buscam atrelar não só a responsabilidade ambiental e social dentro da organização, mas conseguem atrelar isso às questões econômicas e de governança.

“Nem sempre o líder precisa necessariamente estar em uma organização que já tenha uma cultura sustentável. Ele pode inspirar e transformar. É claro que em uma empresa que já possui essa cultura, a transformação é mais fácil; em uma organização que ainda não tem essa prática, o desafio é maior, mas justamente aí aparece o papel transformador da liderança”, conclui.

O papel dos líderes na transformação

Para líderes que desejam começar a transformar a empresa, o professor e pesquisador do núcleo de sustentabilidade da Fundação Dom Cabral, Adriano Augústto, aponta três passos fundamentais a serem desenvolvidos: intencionalidade, identificação da materialidade e conexão com a estratégia.

“Se eu sou uma empresa de consultoria, uma indústria de mineração ou uma startup, os impactos do meu negócio serão muito diferentes entre si. Por isso é importante entender a materialidade do negócio e conectá-la à minha estratégia e aos resultados financeiros. Caso contrário, na hora que vem uma crise, tudo isso vai embora e [o ESG] acaba sendo a primeira coisa que se corta”, afirma.

Para deixar a lógica sistêmica mais clara, o professor cita o exemplo de uma indústria de bebidas que investe em segurança hídrica em uma determinada região porque depende da disponibilidade de água naquele local para continuar operando. “A lógica é que um investimento que pode não apresentar retorno em três ou cinco anos pode ser fundamental para garantir a existência do negócio em 15 anos”, conclui.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026

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