Economia

Companhias mineiras optam pela manutenção de relatórios de sustentabilidade no padrão internacional, apesar da flexibilização

Mesmo com o fim da obrigatoriedade pela CVM, grande parte das empresas de capital aberto em Minas Gerais sinaliza intenção de manter a divulgação, visando investidores e gestão de riscos
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Companhias mineiras optam pela manutenção de relatórios de sustentabilidade no padrão internacional, apesar da flexibilização
Foto: Divulgação / B3

Apesar da flexibilização da obrigatoriedade de divulgação de relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade no padrão internacional pelas companhias abertas, grande parte das companhias mineiras de capital aberto listadas na Bolsa de Valores brasileira, a B3, planeja manter a divulgação de informações financeiras de sustentabilidade. A tendência é que as empresas de setores com maior impacto ambiental optem pela manutenção deste tipo de reportes ao longo dos próximos anos.

Até o momento, companhias como Banco Mercantil, Biomm, Azzas 2154 e Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas) têm sinalizado intenções de seguir com a divulgação deste tipo de documento de forma contínua. Já empresas como a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) têm apresentado uma postura mais cautelosa a respeito do tema.

Lembrando que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) editou, em maio deste ano, a Resolução CVM 244, que altera a Resolução CVM 193. A principal alteração foi o fim da obrigatoriedade da divulgação de relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade no padrão internacional do International Sustainability Standards Board (ISSB), os chamados IFRS S1 e S2, imposta às companhias abertas.

Portanto, a partir de 1º de janeiro de 2027, as empresas que optarem por não realizar este tipo de publicação deverão apenas justificar a opção e informar os motivos desta decisão por meio de comunicado ao mercado, seguindo um modelo de “pratique ou explique”. As empresas que optarem por publicar as informações financeiras de sustentabilidade deverão fazê-lo conforme as normas do ISSB.

A resolução também encerrou a regra pela qual o reporte voluntário implicava a continuidade da divulgação durante todos os períodos de adoção voluntária. Foi estabelecido um período mínimo de três exercícios seguidos. Em casos de interrupção do reporte, a decisão deve ser informada por meio de comunicado ao mercado no exercício anterior ao encerramento das publicações.

O sócio-fundador da BlendOn, Denys Roman, explica que a principal vantagem da publicação está na possibilidade de realizar uma reflexão a respeito dos riscos e oportunidades relacionadas ao tema da sustentabilidade. Segundo ele, a escolha por não refletir sobre os efeitos das questões climáticas no negócio, por exemplo, é um risco que prejudica a tomada de decisão para o médio e longo prazo.

“A empresa pode acabar deixando de fazer investimentos de adaptação às mudanças climáticas, de mitigar riscos e pode tomar uma decisão equivocada”, completa.

No entanto, o especialista ressalta que essa revogação não se estende para as instituições financeiras, que deverão aumentar o volume de reportes a respeito dos riscos de suas carteiras de crédito. Portanto, ele acredita que a demanda dessas instituições, assim como das seguradoras, deve seguir crescendo no decorrer dos próximos anos.

Já o sócio-fundador da Láurea Capital, Eduardo Campos, lembra que as empresas haviam passado por um período de testes desde 2024, quando a publicação passou a ser discricionária (opcional). Ele relata que as companhias que optaram pela implementação acabaram se antecipando e desenvolvendo estruturas internas para a elaboração e divulgação desses relatórios.

Para o executivo, as empresas que atuam em setores com maior sensibilidade a assuntos relacionados à sustentabilidade devem acabar adotando essa ação. Entre os mercados citados por ele estão o setor energético, de saneamento e o segmento de locação e gestão de frota.

Campos avalia que empresas com uma maior “pegada de carbono” já estão mais preparadas para essa mudança. Além disso, ele acredita que esses negócios já incorporaram o relatório de sustentabilidade em sua estratégia de aproximação com grandes investidores institucionais internacionais, que possuem um nível de exigência acima do mercado interno.

“A tendência é de que essas empresas que estão posicionadas em setores tipicamente com maior impacto mantenham a publicação. Até porque, isso ajuda no acesso a uma carteira de investidores diferenciada”, projeta.

Por outro lado, o especialista pontua que empresas com uma grande base de investidores pessoa física e com baixo acesso a investidores internacionais, poderão optar pela descontinuação da divulgação desse documento. Ele ressalta que essa decisão pode estar relacionada ao custo de implementar todas as práticas alinhadas à sustentabilidade e previstas no relatório.

Para Roman, os custos elevados estão entre os principais fatores que podem levar uma empresa a optar por descontinuar as publicações. Outro ponto de peso é a estrutura organizacional, pois, segundo o executivo, a companhia que não possui uma gestão de riscos bem organizada tende a enfrentar mais dificuldades para produzir um relatório.

O executivo da BlendOn destaca a necessidade de as empresas avançarem com a questão da gestão de riscos, mesmo que não haja a obrigatoriedade de reporte. Além disso, ele menciona o fato de a norma determinar a relevância da realização de uma avaliação da cadeia de valor, abrangendo fornecedores e clientes.

Possibilidade de mudanças

CVM
Foto: Reprodução Adobe Stock / Jaque da Silva

Quanto a uma possível mudança na decisão da CVM, Campos avalia como pouco provável que o órgão regulador volte atrás no assunto. Já Roman pondera que ainda há uma grande incerteza, já que a Resolução 244 não está de acordo com o pronunciamento da área técnica da entidade, o que pegou o mercado de surpresa.

Ele relata que a reação do mercado fez com que o presidente do órgão considerasse a possibilidade de rever o tema. “Acredito que há uma possibilidade de mudança gradual. Tem um ofício recente do Conselho Federal de Contabilidade que discute um cenário diferente, mas que não bateu no ponto da asseguração”, diz.

O especialista avalia que o custo de asseguração razoável é de fato alto, tanto para a contratação do fornecedor quanto para a preparação interna da companhia. O executivo explica que a realização de uma asseguração razoável impõe um nível mais elevado de exigência do que na opção limitada. Este é um ponto da flexibilização que ainda não foi tratado.

Sobre os riscos de perda de atratividade em uma eventual descontinuação das publicações, o executivo da Láurea Capital esclarece que, apesar de muitos players nacionais se apresentarem como interessados pela prática da sustentabilidade, grande parte dos investidores está mais atenta a outros fatores.

Entre os fatores que ajudam a explicar esse comportamento está o baixo volume de empresas listadas com liquidez se comparado com outros mercados. Portanto, o cenário de opções limitadas para investimentos dificulta a transformação da questão ambiental em um deal breaker, ou fator decisivo para a compra ou venda de ações. “Existem outros critérios que são muito mais determinantes para essa alocação”, diz.

Já Roman avalia que o cenário é de uma vantagem marginal para as empresas que divulgam esse tipo de informação, uma vez que o perfil médio da análise de investimentos de ações tende a ser mais “curto-prazista”. Porém, ele destaca que isso pode mudar devido a alguns fatores, como uma nova regulação para os fundos de pensão ou uma mudança na curva de juros que aumente o apetite por títulos de renda variável ou renda fixa privada.

“O horizonte de investimentos de renda fixa no Brasil, muitas vezes, ainda é maior que o de renda variável”, explica.

O especialista destaca que a questão a respeito da avaliação considerando o fator sustentabilidade irá demandar mais tempo para surtir efeito no País. Ele acredita que os investidores não estão devidamente estimulados para realizarem mudanças mais profundas em suas análises de mercado.

Pratique ou explique

Sustentabilidade
Foto: Reprodução Adobe Stock

Quanto ao modelo de “pratique ou explique”, Campos avalia que isso faz com que a CVM transfira, em certa medida, para a base de investidores das companhias de capital aberto a responsabilidade de exigir a publicação desse tipo de documento.

“Ela está basicamente dizendo para as empresas: você vai correr o risco de não apresentar o relatório e ter que justificar para sua base de investidores o porquê de não fazer isso”, descreve.

Para o sócio-fundador da BlendOn, esse modelo apresenta uma deficiência na comparabilidade de informações, já que nem todas as empresas farão este tipo de divulgação. Esse cenário dificulta, segundo ele, a tomada de decisão e avaliação quanto ao conteúdo apresentado. “Fica mais difícil de aprimorar a análise”, pontua.

Na opinião de Campos, essa decisão da CVM está, em certa medida, relacionada ao movimento de flexibilização para atrair novas empresas para a Bolsa de Valores, que resultou na implementação do regime de Facilitação do Acesso ao Mercado de Capitais e de Incentivos à Listagem (Fácil).

O especialista ressalta que esse tipo de obrigatoriedade implica no aumento dos custos e, consequentemente, na criação de mais uma barreira de entrada para potenciais integrantes no mercado de capitais.

Decisão das empresas mineiras

B3
Foto: Divulgação/ B3

O grupo Azzas 2154, dono de marcas como a Arezzo, informa que pretende manter a publicação de informações financeiras de sustentabilidade. Já a Usiminas esclarece que não houve nenhuma alteração no planejamento até o momento.

Outra companhia mineira que também deve manter a divulgação do relatório de forma contínua é o Banco Mercantil. A instituição financeira busca reafirmar seu compromisso com a transparência e a evolução permanente de suas práticas. A empresa avalia que esse tipo de iniciativa fortalece a relação de confiança com seus públicos e integra a construção de um negócio cada vez mais sólido e sustentável.

“Desde 2021, o Banco Mercantil publica seu Relatório de Sustentabilidade como forma de dar ainda mais transparência ao mercado, investidores e demais públicos sobre seus avanços, desafios e iniciativas na construção de um ecossistema mais responsável e voltado ao público 50+”, diz em nota.

Assim como o banco, a farmacêutica Biomm também planeja manter seu compromisso com elevados padrões de governança, transparência e prestação de contas. Ela garante que esse pacto independe da obrigatoriedade de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade.

“A companhia avalia continuamente seus processos e a forma mais adequada de comunicar informações relevantes aos seus stakeholders, em alinhamento com sua estratégia corporativa e com as expectativas do mercado”, pontua.

Segundo a Biomm, esse compromisso se reflete em avanços recentes na sua estrutura de governança, como a migração do segmento Bovespa Mais para o Nível 2 de Governança Corporativa da B3 realizada em maio deste ano. Para a farmacêutica, a manutenção de uma governança sólida é fundamental para sustentar o crescimento de longo prazo, fortalecer a confiança dos stakeholders e apoiar a geração de valor de forma responsável e sustentável.

Já a Direcional Engenharia afirma estar preparada para publicar o próximo relatório anual de sustentabilidade ainda neste mês. Quanto à divulgação nos próximos anos, a companhia informa que está definindo o formato e a abrangência. “Sempre prezaremos pela transparência e pelo aprimoramento do nosso compromisso com a sustentabilidade”, acrescenta.

A Cemig ainda está avaliando qual a melhor opção. Vale lembrar que este tipo de tomada de decisão cabe ao vice-presidente de Finanças e Relações com Investidores da estatal, Leonardo George Magalhães, que retornou à companhia no mês passado.

A Copasa também irá avaliar o tema do fim da obrigatoriedade, à luz de suas diretrizes estratégicas e das melhores práticas de mercado. A empresa ressalta que vem divulgando regularmente informações relacionadas à sustentabilidade em seus principais documentos públicos.

Entre os documentos, ela destaca o Relatório de Sustentabilidade, o Formulário de Referência e o Relatório da Administração, que integra as Demonstrações Financeiras. Além destes, a companhia também divulga esse tipo de informação por meio de iniciativas e reportes alinhados a padrões reconhecidos, como o Carbon Disclosure Project (CDP).

A Log Commercial Properties e a Localiza&Co também seguem em processo de análise, avaliando a melhor alternativa. Já o CFO da rede de hospitais Mater Dei, Rafael Cordeiro, esclarece que a companhia não pretende adotar a divulgação antecipada sem a obrigatoriedade regulatória.

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