Crédito fácil vira isca para golpes contra pequenas empresas
Durante os três anos em que foi microempreendedora individual (MEI), vendendo cachorro-quente em um trailer, em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), a servidora pública Nayara Almeida, de 41 anos, recebeu diversos e-mails oferecendo liberação de empréstimos e crédito para a empresa mediante o pagamento antecipado de boletos.
Mesmo após o encerramento do CNPJ, no ano passado, as mensagens fraudulentas continuam chegando à caixa de entrada de Nayara, entre elas cobranças do Documento de Arrecadação do Simples Nacional do Microempreendedor Individual (DAS MEI). Para pagar a suposta taxa, ela deveria clicar em um link enviado pelos golpistas.
“Eu nunca cliquei. Apenas desconsiderava. Inclusive, tinha um grupo com vários colegas em que a gente sempre se ajudava e orientava as pessoas a não clicarem nessas armadilhas e nem pagarem nada para ter acesso a crédito”, conta.
A experiência de Nayara Almeida reflete um problema que atinge empresas de diferentes portes. Entre os tipos de fraude mais registrados entre as companhias brasileiras estão os pagamentos transacionais (28,4%), os vazamentos de dados (26,8%) e as fraudes financeiras (26,5%), modalidade que inclui situações em que os fraudadores solicitam pagamentos para contas bancárias fraudulentas. Os dados são do recorte corporativo do Relatório de Identidade e Fraude 2025, da Serasa Experian.
Esse cenário, conforme aponta a datatech, tem aumentado o senso de urgência das companhias, fazendo com que 58,5% delas estejam mais preocupadas com fraudes, reflexo de um ambiente onde cada transação pode se tornar alvo e cada clique pode ser uma porta de entrada para ataques.
Liberação de crédito não deve exigir pagamento antecipado
Segundo o professor de Direito Empresarial e Societário do Ibmec, Felipe Moraes, um dos principais sinais de alerta para uma empresa que podem sinalizar a iminência de um golpe financeiro é justamente a exigência de pagamentos antecipados para a liberação de crédito.
“Os bancos e instituições financeiras autorizados a operar no mercado brasileiro não exigem esse tipo de pagamento para liberar um crédito ou para analisar a situação de crédito de uma determinada empresa”, afirma.
Ofertas que destoam das condições praticadas pelo mercado também devem ser vistas com desconfiança. Contatos inesperados, principalmente de instituições com as quais a empresa nunca teve relacionamento, seja por WhatsApp, telefone ou outros canais, são outro sinal de alerta, segundo o professor. “O ideal, nesses casos, é encerrar o contato e procurar os canais oficiais da empresa de crédito”, orienta Moraes.
Pequenos negócios na mira dos golpes
Pesquisa divulgada em junho pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra a dimensão do problema entre os negócios de menor porte. Nos 12 meses anteriores ao levantamento, 44% dos pequenos negócios e 47% das médias e grandes empresas no País foram alvo de alguma tentativa de golpe digital ou por telefone.
Considerando especificamente os MEIs e as Micro e Pequenas Empresas (MPEs), as tentativas de golpes financeiros pela internet ou por telefone chegam a 36% e 56% dos negócios, respectivamente. (Mais detalhes no infográfico abaixo).

Para a analista de ambientes e negócios do Sebrae-MG, Débora de Souza, a dificuldade de muitos pequenos empresários em avaliar o custo do crédito pode aumentar a vulnerabilidade a fraudes. “Na hora de comparar uma instituição financeira com a outra, tem que olhar tudo, desde o prazo de carência até o custo, seguros adicionais, além de todas aquelas letrinhas miúdas do contrato. Esse olhar atento vai fazer diferença no bolso do empresário” afirma.
Segundo ela, ofertas que parecem irrecusáveis demais também exigem cautela. “Quanto mais fácil for o crédito, maior a chance de ele ser caro. Por isso, é importante entender quais são os condicionantes do contrato”, acrescenta.
A analista recomenda atenção especial quando a instituição financeira condiciona o crédito à contratação de outros produtos, como abertura de conta bancária e aquisição de cartão de crédito. “Aí é que a gente tem que fazer uma análise ainda mais detalhada, pois pode ser que a parcela não caiba no bolso do empreendedor”, alerta.
O Sebrae, conforme Débora, também orienta os empresários a dimensionarem corretamente a necessidade de recursos antes de contratar uma operação de crédito, evitando assumir uma dívida maior do que a necessária.
Dificuldade para acessar crédito formal favorece atuação de golpistas
O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), Marcelo de Souza e Silva, acredita que a vulnerabilidade aos golpes não está necessariamente relacionada à ingenuidade dos empresários, mas à distância entre a necessidade de capital de giro e a dificuldade de acesso ao crédito formal. Segundo ele, mesmo com a taxa Selic em queda, o crédito, especialmente para pequenos negócios, segue caro e restrito.
“Exigência de garantias, burocracia e prazos longos aumentam a pressão sobre o caixa, enquanto a redução dos juros demora a chegar ao empresário. É justamente nessa lacuna que os golpes prosperam, oferecendo aprovação imediata, sem consulta a bureaus de crédito e pouca burocracia, muitas vezes com contratos e logotipos que imitam instituições reais”, destaca.
Silva também acrescenta que esse tipo de crime pode começar no momento em que o empresário paga antecipadamente uma suposta taxa de liberação, seguro ou imposto e não recebe o crédito prometido. “É importante reforçar que instituições financeiras legítimas não cobram pagamentos antecipados para liberar empréstimos”, destaca.

O presidente da CDL-BH menciona ainda o impacto para além da perda imediata. Ao contar com o recurso para pagar fornecedores, salários ou repor estoques, o empresário pode ter o fluxo de caixa comprometido e enfrentar atrasos, multas, negativação e dificuldades para manter a operação.
Há ainda um risco de efeito cascata. Para cobrir o prejuízo, o empresário pode recorrer a linhas de crédito mais caras, aumentando o endividamento. “Além disso, documentos e dados da empresa fornecidos durante o golpe podem ser usados em novas fraudes”, diz.
Caixa apertado deixa empresários mais vulneráveis a golpes
Com margens apertadas e fluxo de caixa sensível a variações sazonais, o setor de alimentação fora do lar também tem necessidade recorrente de crédito, segundo o advogado Renato Pena, responsável pelo departamento jurídico da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Minas Gerais (Abrasel-MG). As linhas de financiamento são utilizadas principalmente para capital de giro, reposição de estoque e investimentos pontuais.
“Essa pressão financeira é terreno fértil para abordagens fraudulentas. O empresário que está com o caixa no limite tende a baixar a guarda diante de uma proposta que parece resolver o problema rápido”, destaca Pena.
Segundo ele, a Abrasel-MG orienta seus associados a adotar alguns cuidados básicos antes de contratar qualquer linha de crédito:
- verificar se a instituição financeira está registrada e autorizada pelo Banco Central do Brasil, o que pode ser feito diretamente no site da autarquia;
- desconfiar de contatos não solicitados, especialmente por WhatsApp ou redes sociais, oferecendo crédito fácil;
- jamais realizar qualquer pagamento antecipado como condição para liberação de valores, e, em caso de dúvida, consultar o jurídico da associação antes de assinar qualquer documento ou transferir qualquer quantia.
“Golpes nessa modalidade, conhecidos como fraude de antecipação de crédito, são objeto de alerta constante do Banco Central e do Procon. A Abrasel reforça que nenhuma instituição financeira legítima exige depósito prévio para liberar empréstimo”, conclui.
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