Cafés especiais do Caparaó unem ancestralidade e nova economia

Na Serra do Caparaó, em Minas Gerais, a produção de cafés especiais impulsiona a economia, atrai turistas e dá protagonismo a jovens e mulheres
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Cafés especiais do Caparaó unem ancestralidade e nova economia
Em 2025, o Caparaó produziu oito dos dez cafés arábica mais bem avaliados do Brasil | Foto: Diário do Comércio / Daniela Maciel / Patrick Arley - Secult - Gerado com ajuda de IA

Entre as décadas de 1830 e 1840, o café passou a ser o principal produto de exportação do Brasil, tendo como principais regiões produtoras o Vale do Paraíba, entre o Rio de Janeiro e São Paulo, e, posteriormente, o Oeste Paulista. Nessa época, a Serra do Caparaó, em Minas Gerais, na divisa com o Espírito Santo, não era considerada adequada para o cultivo, devido à topografia acidentada e ao clima extremamente frio.

Minas Gerais passou a ser o maior produtor de café do Brasil apenas na década de 1970. Naquele tempo, a natureza do Caparaó já havia sido domada pela persistência dos agricultores locais e pelo avanço das técnicas e da tecnologia.

Café especial
Os cafés especiais do Caparaó ganharam projeção nacional; em 2025, a região produziu oito dos dez cafés arábica mais bem avaliados do País | Foto: Divulgação / Secult / Codemge / Patrick Arley

Hoje, o Caparaó vive um novo ciclo de sua história de amor com o café. Os cafés especiais estão remodelando o perfil da produção, resgatando propriedades históricas, atraindo turistas e, principalmente, dando protagonismo às mulheres e aos jovens.

A partir da transição para sistemas agroecológicos e agroflorestais, que combinam o cultivo do café com árvores nativas, frutíferas e espécies destinadas à produção de madeira, os produtores conseguiram regenerar o solo e agregar valor ao produto final. A aposta em inovação e em adaptações tecnológicas de baixo custo também permitiu valorizar as características únicas da região e obter reconhecimento oficial por meio de selos de indicação geográfica, impulsionando a conquista de prêmios nacionais e o acesso ao mercado internacional.

Em 2025, a região emplacou oito dos 10 cafés arábica mais bem avaliados do País e consolidou seu nome entre os grandes produtores de cafés especiais, deixando definitivamente para trás a pecha de “pior café do Brasil”.

De acordo com a analista de assistência técnica e gerencial do Sistema Faemg Senar, Jacqueline de Fátima Santos, o Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) já atendeu, na região, os municípios de Luisburgo, Divino, Manhuaçu, São José do Manhuaçu, Reduto, Alto Caparaó, Alto Jequitibá, Caparaó, Espera Feliz e Manhumirim. Ao todo, 21 técnicos de campo visitaram 499 propriedades.

“A assistência técnica e gerencial é contínua dentro da propriedade e sempre trabalhamos a agregação de valor, os cafés especiais. Trabalhamos muito com os jovens rurais. O programa Faemg Jovem incentiva a sucessão. Eu acho que é a partir desse momento que conseguimos trazer os filhos, a família. Antes, o sucesso da família era que o filho estudasse fora. Hoje, os filhos estão optando por voltar porque estão vendo na cafeicultura uma chance de sucesso”, avalia Jacqueline de Fátima Santos.

Em uma propriedade centenária no município de Alto Caparaó, a família de Clayton Barroso Monteiro, proprietário do Café Ninho da Águia, atravessou a história do café na região.

Clayton Barroso Monteiro
Clayton Barroso Monteiro, do Café Ninho da Águia, aposta na produção agroflorestal e hoje torra 80% dos grãos para o mercado interno | Foto: Divulgação / Secult / Codemge / Patrick Arley

“No começo, criavam caprinos e se dedicavam à agricultura de subsistência. Nos anos de 1950, eles começaram a plantar café aqui, nos lugares mais planos. E aí a geada vinha e queimava tudo. Depois, quando passaram a fazer curva de nível e curva individual no morro, aí começou a dar certo já na década de 1970”, relembra Monteiro.

Café especial se alia à produção responsável no Caparaó

Para ser considerado especial, o café precisa atingir ao menos 80 pontos. Entre 80 e 84,99 pontos, a bebida é classificada como muito boa; entre 85 e 89,99 pontos, excelente; e, acima de 90 pontos, excepcional, categoria mais rara e valorizada. A classificação segue critérios da Specialty Coffee Association (SCA), que utiliza uma escala de zero a 100 pontos para avaliar atributos como aroma, sabor, acidez, corpo e equilíbrio.

Ao voltar para a propriedade, em 1996, Clayton Barroso Monteiro foi um dos pioneiros a perceber que o futuro do Caparaó estava nos cafés especiais. Para produzir, a uma altitude média de 1.000 metros, cafés com pontuações que frequentemente ultrapassam os 90 pontos, era preciso refazer a aliança ancestral com a natureza. Assim, a produção agroecológica e regenerativa exigiu estudo e dedicação e se mostrou recompensadora.

“Trabalhamos no modelo de sistema agroflorestal. Diversificamos as culturas junto com o café. Temos, com os cafés, árvores para madeira, árvores nativas e frutas. O café é uma planta de estrato baixo, então ele vai bem com a maioria dos modelos de sistema agroecológicos. Não queremos ser só sustentáveis, precisamos ser regenerativos para deixar uma situação melhor para as próximas gerações”, explica o produtor.

Ao longo da jornada de produção de cafés especiais, o agricultor descobriu mais uma paixão: dar aos brasileiros acesso a cafés de melhor qualidade. Embora a exportação seja um caminho natural e lucrativo, seu intuito é vender para o mercado interno.

Segundo estudo da consultoria Euromonitor publicado em 2025, o mercado brasileiro de café premium tem crescido de forma acelerada. O consumo anual de cafés especiais gira em torno de 70 mil toneladas, o que representa entre 5% e 10% do consumo total do setor. Esse consumo cresce 15% ao ano, enquanto o de café tradicional avança 3,5% ao ano.

“Acho que faz parte da nossa missão fazer o brasileiro consumir um café de qualidade. Com o trabalho de receber visitantes aqui na fazenda, já há 15 anos, a gente foi criando consumidores de café de qualidade. Antes, a gente vendia 80% da produção e hoje já invertemos, torramos 80% e exportamos 20%. É muito legal a gente ter os brasileiros consumindo os melhores cafés”, comemora o fundador do Café Ninho da Águia.

Famílias retomam suas origens com cafés especiais no Caparaó

No município vizinho de Caparaó, o casal Dayane e Robson Xavier de Lima conduz as atividades do Sítio Centenário, que já se prepara para receber a sexta geração da família. Aos visitantes que procuram a propriedade não apenas pelos sabores, mas também pelas experiências relacionadas à produção de cafés especiais, Dayane sempre apresenta uma explicação fundamental.

“Não existe um pé de café que é especial. É o manejo, o trabalho que o agricultor faz em cima da plantação que vai tornar o café especial, mantendo o máximo de qualidade possível desde a hora em que tiramos o fruto do pé, porque ele é uma fruta, até o momento em que beneficio esse café e o empacoto para vender. Então, é uma planta normal, e o que vai fazer o café ser especial são as nossas decisões”, ensina Dayane de Lima.

Hoje, os proprietários agregam à atividade uma pequena hospedagem e uma experiência na qual o visitante aprende, na prática, a classificação física dos grãos, conhecida como “catação do café”. O processo consiste na retirada de impurezas e de grãos defeituosos.

Catação do café
No Sítio Centenário, em Caparaó, visitantes aprendem a identificar e retirar grãos defeituosos na experiência de “catação do café” | Foto: Diário do Comércio / Daniela Maciel

“O sítio é o nosso símbolo. O Robson é da quarta geração, nossos filhos estão o tempo todo aqui e eu já tenho um neto que está por aí correndo. Hoje, o foco do sítio é o café especial. Em 2019, fiz um curso técnico em turismo rural e, de lá pra cá, seguimos nos capacitando. A gente tenta viver do que o sítio produz, tanto do café na linha do especial, que é o nosso foco, quanto das outras atividades que hoje funcionam aqui, como uma pequena hospedagem, o recebimento do público para o café da manhã, o almoço e o café da tarde e as experiências no sítio, dentro da rota do Caparaó Mineiro”, destaca a cafeicultora.

Para obter uma saca de café especial, é necessário trabalhar com sete sacas. A propriedade tinha 4.500 pés de café quando a família chegou. Agora, já são 12 mil, e a perspectiva é alcançar 16 mil nos próximos três anos. Para chegar a esse total, o manejo da plantação foi alterado e a prática do adensamento foi adotada.

“De três anos para cá, estamos remanejando as lavouras. Modificamos o espaçamento, que antes era mais largo entre os pés de café. A lavoura está mais adensada. Assim, com mudanças nas variedades e no jeito de plantar, ganhamos mais espaço.”

Em termos de remuneração, os cafés especiais recompensam os produtores pelo trabalho delicado e demorado. Enquanto o quilo do café arábica torrado e moído custa entre R$ 38 e R$ 58 nos supermercados de Belo Horizonte, o dos especiais produzidos nas propriedades do Caparaó visitadas pela reportagem sai por R$ 140 a R$ 258. Considerando o preço médio de R$ 48 do tradicional e de R$ 199 do especial, o café especial custa cerca de quatro vezes mais, uma diferença de 314,6%.

Silmara Emerick e Charles Lopes de Souza formam outro casal que faz dos cafés especiais mais do que um produto: um estilo de vida. No Sítio Imperial da Serra, em Alto Jequitibá, ela não apenas se tornou dona da própria marca, como também deu um novo sentido ao passado e ao futuro da família. “Eu ainda estudava quando conheci o Charles. Nós nos casamos em 2003. Ele não entendia muito de lavoura, mas eu não queria morar na cidade, e ele topou vir pra roça cuidar de um pedacinho de terra que o meu pai deixou. Moramos numa chácara por 11 anos, e nossos filhos nasceram lá. Eu cuidava das crianças e da secagem do café no terreiro. Eu sempre cuidei para o meu café ser bom, não gostava que a chuva o molhasse. Sempre produzi um café bebida dura aqui no sítio. Se o café molhasse, além de perder qualidade, também perdia valor. Hoje, conseguimos ter vários sensoriais de café. É um trabalho que demorou muito porque começamos a separar as lavouras na roça para descobrir de onde estavam saindo aqueles cafés. Fizemos todo esse processo para chegar a cada um desses sensoriais”, descreve Silmara Emerick.

Adaptação de máquinas reduz custos no Caparaó

O Sítio Imperial da Serra foi uma das propriedades atendidas pelo Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) até o início de 2026. Segundo a analista de assistência técnica e gerencial do Sistema Faemg Senar, Jacqueline de Fátima Santos, o trabalho busca identificar diferentes possibilidades de geração de renda e estimular a permanência das famílias no campo.

“Trabalhamos sempre pensando na propriedade e em todas as possibilidades de geração de renda, mantendo as pessoas no campo. Queremos que o produtor perceba o valor que ele tem ali. E assim tem sido com os filhos e as mulheres também. É um sucesso quando a gente vê, de fato, as famílias voltando para o campo e entendendo que existem diversas possibilidades que podem ser exploradas nessas propriedades”, afirma Jacqueline de Fátima Santos.

No Sítio Imperial da Serra, essa busca por alternativas para tornar a atividade economicamente viável também passa pela redução dos custos de produção. Diante do orçamento apertado para comprar máquinas caras e sofisticadas, Charles Lopes de Souza começou a adaptar equipamentos antigos e descobriu outro talento: o de inventor. Hoje, ele compartilha seus conhecimentos com produtores vizinhos e tem chamado a atenção de prefeituras de cidades próximas.

Segundo Souza, a demanda por equipamentos em um sítio pequeno é praticamente a mesma de uma fazenda. O preço das máquinas também é igual para os dois tipos de propriedade. Como o volume de produção é diferente, no entanto, o investimento acaba se tornando inviável para o pequeno produtor.

“É o mesmo lavador, o mesmo secador, e o pequeno produtor não tem dinheiro para investir. Daí vem a adaptação. A gente acaba tendo ideias e compartilha com os vizinhos. O lavador com descascador que adaptei já tem umas 600 cópias. Virou até solicitação de prefeitura. Uma máquina que custa R$ 150 mil no mercado, conseguimos fazer por R$ 30 mil”, relata Souza.

Do inesperado à capacitação constante

Em Espera Feliz, na Caparaíso Coffee, Anadson de Souza faz parte da quarta geração de produtores e introduziu os cafés especiais na propriedade em 2017, quase por acaso, depois de um negócio malsucedido.

“Trabalhava na portaria do Parque Nacional do Caparaó e lá eu tive uma encomenda de meia saca de café especial. Só que, na hora de entregar, perdi o contato do comprador e fiquei com o café preso aqui no sítio. Então, resolvi empacotar e eu mesmo consumir esse café. Como commodity, não dava para vender, porque deu muito trabalho. Só que, por ser uma região turística, o pessoal descobriu que eu tinha esse café empacotado e começou a vir comprar e falar que eu precisava erguer uma cafeteria dentro do sítio. Foi assim que começamos no ramo de cafeteria e turismo”, destaca Anadson de Souza.

Enquanto o café produzido no Caparaó ganha relevância, conquista prêmios e mercados e atrai turistas para a região, os produtores seguem se capacitando. Para os visitantes, Anadson criou um passeio de trator pela propriedade durante o qual os participantes respondem a um quiz. “O interesse pelo café especial está crescendo entre os produtores, mas ainda é uma pena que muitos não conheçam o café que têm. Muitos produtores estão buscando se capacitar. O Senar oferece muitos cursos. Eu tenho mais de 40 cursos no Senar e no Sebrae. Fiz cursos desde o plantio até o de barista. O problema é o produtor parar o serviço para estudar. O agricultor fica tão preocupado com o serviço que não busca esse conhecimento”, reflete o proprietário da Caparaíso Coffee.

Cafés especiais transformam a vida além das lavouras

Ao mesmo tempo que os sabores dos cafés especiais do Caparaó se espalham pelo Brasil e pelo mundo, a atividade melhora a remuneração dos cafeicultores e movimenta outros setores da economia regional. Profissionais ligados ao turismo também se beneficiam ao oferecer serviços aos visitantes da Rota das Experiências do Caparaó Mineiro, formada pelos municípios de Caparaó, Alto Jequitibá, Espera Feliz e Alto Caparaó.

A rota faz parte do Circuito Pico da Bandeira, que reúne 23 municípios da Zona da Mata. Além do café de alta qualidade, as cidades têm em comum a proximidade com o Parque Nacional do Caparaó, onde está localizado o Pico da Bandeira, terceiro ponto mais alto do Brasil.

Para o presidente da Agência de Desenvolvimento do Caparaó Mineiro, Ramiro Aguiar, a grandeza da região é construída, antes de tudo, pelas pessoas.

“O que é imperdível aqui são as nossas pessoas. São os anfitriões que contam as suas histórias, a ligação com o Pico da Bandeira e também com os cafés especiais. Os cafés especiais são o primeiro grande atrativo de que as pessoas ouvem falar e que vêm buscar. A altitude e as águas muito especiais garantem o grande diferencial do nosso terroir. Estamos no limite com o Parque Nacional do Caparaó, então existe uma ligação entre a natureza e o café, um protegendo o outro. O café protege o parque do fogo e dos invasores, enquanto o parque contribui para esse terroir tão diferente, com as matas, as águas cristalinas e o ar puro que temos aqui”, explica Aguiar.

Em Alto Caparaó, Lucas Huebra oferece um típico café da tarde emoldurado por uma vista de 360 graus a partir do Pico dos Cristais, o sexto mais alto do Brasil. No Cristal Mirante, o pôr do sol colore a paisagem de Alto Caparaó e Alto Jequitibá. O empresário pretende ampliar a experiência, mas enfrenta a falta de mão de obra para levar o plano adiante.

Pôr do sol na Serra do Caparaó
O pôr do sol na Serra do Caparaó é um dos atrativos que, ao lado dos cafés especiais, movimentam o turismo na região | Foto: Diário do Comércio / Daniela Maciel

“O Cristal Mirante é um sonho que nasceu em 2002. Sempre tive uma paixão pelo Pico da Bandeira, que dá pra ver daqui. Um dia, cheguei e vi essa paisagem maravilhosa e percebi que tinha que compartilhar com todo mundo. Assim, criamos o Cristal Mirante. Hoje, temos o trabalho com o café no pôr do sol e a vista única da cidade para o Pico da Bandeira e toda a Cordilheira do Caparaó”, conta Huebra.

Em Alto Jequitibá, o Portal da Lua oferece a degustação dos melhores cafés do Caparaó, acompanhada por um pôr do sol exuberante. A secretária municipal de Cultura e Turismo, Andiara Machado, enfatiza o potencial econômico da região para investidores do setor, especialmente nos segmentos rural e de base comunitária. “A nossa cidade é muito abençoada por estar aos pés da Serra do Caparaó. A natureza é muito bonita, as águas são límpidas. A nossa região tem um potencial natural muito importante e pulsante. O nosso principal turismo é o de base comunitária, ancorado nos cafés especiais. Mas ainda necessitamos de infraestrutura em diversas áreas. Nós precisamos de mais pousadas, hotéis e também de novos atrativos dentro da nossa natureza, que é enorme. Então, as oportunidades para quem quer investir nesse setor são muito boas”, avalia Andiara Machado.

Sobre o autor

Daniela Maciel

Repórter do Diário do Comércio desde 2011. Graduada em Jornalismo pelo UniBH e em História pela UFMG.

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