Adriana Maugeri fala sobre liderança feminina, recorde da silvicultura e desafios do setor florestal
A presença da presidente da Associação Mineira da Indústria Florestal (Amif), Adriana Maugeri, na “Lista Forbes As 100 Mulheres Poderosas do Agro” amplia a visibilidade de um segmento que tem forte participação na economia mineira e potencial de crescimento. À frente da entidade desde 2018, ela foi a primeira mulher a assumir a presidência da associação e também preside a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Florestas Plantadas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Em entrevista ao Diário do Comércio, a presidente comenta o significado do reconhecimento e os desafios para ampliar a participação feminina nos espaços de decisão do agronegócio. A executiva ressalta o desempenho das florestas plantadas em Minas Gerais e as perspectivas, com destaque para a crescente procura por carvão vegetal, cavacos de madeira e biomassa, como alternativas aos combustíveis fósseis para descarbonização industrial.
O que representa integrar a “Lista Forbes As 100 Mulheres Poderosas do Agro”? Quais fatores da sua trajetória contribuíram para esse reconhecimento?
Foi uma grata surpresa e uma honra imensa ver uma liderança do setor florestal entre as mulheres reconhecidas em todo o País. Quando recebi a notícia, fui entender os critérios da seleção, que envolvem poder de decisão, capacidade de gerar resultados e influência para mobilizar pessoas, instituições e setores. Acredito que minha trajetória à frente da Amif contribuiu para isso. Fui a primeira mulher a assumir essa liderança em um ambiente historicamente masculino. Sou advogada e comunicóloga, não engenheira florestal ou metalúrgica, mas sou apaixonada pelo setor e sempre procurei estudar muito, fazer cursos e compreender a atividade para falar com propriedade. Também acredito que o trabalho desenvolvido coletivamente, por homens e mulheres, foi determinante. Procuro trabalhar com dados, conhecimento técnico, respeito e gentileza.
Quais fatores considera determinantes para sua inclusão nessa lista? De que forma o reconhecimento pode contribuir para ampliar a visibilidade da silvicultura e do setor florestal?
A presença do setor na lista mostra a importância das florestas plantadas para o agronegócio brasileiro. Também contribui para que as pessoas compreendam que a atividade florestal é uma cultura agrícola, com presença expressiva em Minas Gerais e diferentes perfis de produtores, dos pequenos aos grandes. Minas é o maior produtor de florestas plantadas do Brasil e a atividade está presente em mais de 90% dos municípios mineiros, assim como a pecuária leiteira. Temos uma vocação muito clara para o plantio e o cuidado com as árvores. Esse reconhecimento mostra ainda que desenvolvimento econômico, sustentabilidade e conservação da vegetação podem caminhar juntos. O setor florestal trabalha com produção e conservação, e isso precisa ser compreendido pela sociedade.
A presença feminina no agronegócio tem avançado, mas ainda há barreiras para chegar aos cargos de decisão. Como avalia esse movimento?
As mulheres sempre estiveram no agronegócio, mas muitas vezes ficaram atrás das cortinas. Em algumas famílias, as mulheres foram afastadas da gestão por preconceito e, quando herdaram propriedades ou empresas, precisaram aprender a administrar os negócios em situações difíceis. Estamos vendo uma nova geração que cresceu acompanhando essas transformações e quer fazer diferente. São mulheres que, desde muito jovens, estão envolvidas com a produção, a gestão e as questões ambientais, chegando aos cargos de liderança com conhecimento aprofundado.
Ainda existe a necessidade de provar mais para ser respeitada. Uma mulher, muitas vezes, precisa demonstrar que sabe muito mais para ocupar a mesma posição de um homem. A mudança está acontecendo, mas precisamos avançar. Não se trata de dizer que as mulheres são melhores. Trata-se de mostrar que também somos capazes e queremos participar das decisões. O agronegócio é um motor da economia brasileira, e as mulheres estão aqui para somar.
Qual é a importância de presidir a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Florestas Plantadas do Mapa e quais são as principais responsabilidades associadas ao cargo?
Presidir a Câmara Setorial foi mais um marco, porque, além de ser a primeira mulher a assumir o órgão, ingressei em uma posição nacional de liderança. Entre as 32 câmaras setoriais ligadas aos diferentes segmentos produtivos, sou a única mulher na presidência. A posição amplia a responsabilidade de representar o setor florestal brasileiro e de levar às instâncias de decisão as necessidades de produtores e empresas. Uma das prioridades é defender políticas públicas que permitam o desenvolvimento da cadeia florestal, com condições para ampliar a produção, diversificar as espécies e garantir segurança a quem investe.
A silvicultura brasileira, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou recorde em 2025, e Minas Gerais liderou a produção, com valor de R$ 9,2 bilhões. Quais fatores contribuíram para esse resultado?
Enfrentamos, em 2025, muitas dificuldades com as tarifas norte-americanas, a concorrência de produtos metálicos e aço importados da China e a entrada de papéis chineses no mercado brasileiro. Mesmo diante desse cenário, conseguimos continuar produzindo. Minas é referência na produção de madeira de qualidade, e outros estados procuram madeira mineira. O resultado mostra a força de uma atividade construída ao longo de décadas. O mineiro trabalha calado e, quando percebemos, construiu a maior floresta plantada do Brasil. Esse desempenho também reflete a capacidade do setor de atender a diferentes mercados e de contribuir para a economia do Estado.
A demanda por madeira e biomassa florestal tem sido impulsionada pela busca de alternativas aos combustíveis fósseis e pela transição energética. Quais segmentos industriais apresentam maior potencial de expansão do consumo e quais são as perspectivas para o mercado nos próximos anos?
Estamos observando uma procura crescente por carvão, cavacos de madeira e biomassa e as indústrias de cimento, alimentos, cerâmica e mineração estão entre os segmentos que mais buscam alternativas para reduzir as emissões dos processos produtivos. Também há interesse em coprodutos, como bio-óleo e biochar. Esse movimento amplia as possibilidades de utilização da produção florestal, que deixa de estar concentrada principalmente no carvão vegetal e na celulose. A tendência é que essa demanda continue crescendo, impulsionada pela transição energética e pelo compromisso das empresas com o balanço de emissões. É uma oportunidade para Minas Gerais, que já tem uma cadeia produtiva consolidada.
Quais são as perspectivas de expansão da silvicultura em Minas Gerais? O crescimento deverá ocorrer principalmente nos polos florestais já consolidados ou há espaço para o desenvolvimento de novas regiões produtoras?
Existe potencial de expansão em todas as regiões do Estado. Temos mais de 3 milhões de hectares de áreas que precisam ser recuperadas, conforme as informações declaradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR). O Código Florestal permite a recuperação com vegetação nativa e espécies exóticas, e trabalhamos com essa combinação. Para cada hectare plantado, conservamos outros 0,7 hectare, por meio da manutenção da vegetação existente, da recuperação ou da regeneração.
A expansão, entretanto, depende de vários fatores, entre eles políticas públicas e logística. A tendência é de crescimento principalmente nas regiões que já têm indústrias e cadeias produtivas consolidadas, porque a distância entre a floresta e a fábrica influencia diretamente os custos. Não acredito em grandes mudanças nas fronteiras florestais mineiras; assim, o crescimento deve ocorrer onde já existe estrutura para absorver a produção, aproveitando também áreas degradadas que podem ser recuperadas.
Apesar do potencial de crescimento, quais são os principais entraves à expansão da atividade florestal? Quais medidas considera prioritárias para fortalecer o setor em Minas Gerais e no Brasil?
O agro brasileiro não precisa viver implorando por subsídios. Precisa de caminhos claros, condições para produzir e segurança para investir. Isso envolve crédito, seguro, logística, acesso a insumos e regras que permitam planejar a atividade. Os pequenos e médios produtores são particularmente vulneráveis aos eventos climáticos. Muitas vezes, trabalham alavancados e, quando enfrentam uma dificuldade, perdem a produção e não conseguem pagar os investimentos. Além disso, enfrentam burocracias para acessar crédito e nem sempre conseguem contratar seguro.
A atividade florestal exige ainda mais planejamento, porque o retorno financeiro demora anos. Por isso, defendo uma política nacional de segurança alimentar e energética, que atravesse governos e considere a produção, a distribuição e a redução da dependência externa de insumos. O Brasil tem capacidade de produzir mais e melhor, mas precisa oferecer condições para que isso aconteça com segurança.
O Sistema de Controle do Carvão Vegetal (CCV) deve entrar em operação nos próximos dias. O que muda com a nova ferramenta?
O sistema representa uma etapa importante para ampliar a rastreabilidade da cadeia florestal. O CCV integra o MG Florestas, plataforma que está sendo desenvolvida em módulos para acompanhar a origem e a movimentação da produção, garantindo a rastreabilidade. O primeiro módulo foi o cadastro dos plantios, que permite identificar as áreas até o nível do talhão. Depois, veio o módulo de informação da colheita. Agora, estamos avançando para a etapa do transporte, que fará a conexão entre a origem e o destino do carvão vegetal. O novo sistema substituirá o Cadastro de Atividades Florestais/Sistema Integrado de Informação Ambiental (CAF/SIAM), que apresentava dificuldades e não acompanhava as mudanças da atividade. A nova ferramenta foi desenvolvida para oferecer mais segurança e melhorar a interação com os usuários.
Como funcionará a rastreabilidade do setor florestal?
A proposta é que a rastreabilidade na silvicultura acompanhe o produto desde o plantio até o consumo final. Quando o carvão chegar à siderúrgica, por exemplo, a documentação permitirá consultar a história daquela carga, identificar o talhão de origem e verificar as etapas de colheita, carbonização e transporte. O módulo de consumo, previsto para uma etapa posterior, deverá completar esse percurso. Assim, teremos uma conexão entre a origem da madeira, sua transformação e a utilização final.
Qual é a importância da rastreabilidade para a imagem e a competitividade do agronegócio brasileiro?
A rastreabilidade deixou de ser um luxo para atender às exigências do mercado externo e se tornou uma necessidade para o desenvolvimento sustentável do agronegócio brasileiro. Precisamos comprovar a origem dos produtos que consumimos dentro do próprio País. Isso vale para a madeira, o carvão vegetal e outras culturas agrícolas, além da produção animal. Quando conseguirmos identificar a origem e acompanhar todas as etapas, ampliaremos a capacidade de combater irregularidades e de demonstrar que a produção ocorre de forma responsável. A rastreabilidade é uma ferramenta importante para reduzir o desmatamento e fortalecer a confiança na cadeia produtiva.
O Brasil tem condições de produzir alimentos e energia em grande escala. Precisamos transformar essa capacidade em desenvolvimento econômico, com planejamento, segurança para o produtor e compromisso com a conservação ambiental.
Publicidade Legal
Impresso
Ver outras datasDigital
- ATA DE REUNIÃO DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO REALIZADA EM 15 DE MAIO DE 2026 AUTOPISTA FERNAO DIAS S/A
- ATA DE ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA REALIZADA EM 13 DE OUTUBRO DE 2026. CSUL DESENVOLVIMENTO URBANO S.A.
- EDITAL RETIFICAÇÃO DO EDITAL DE CONVOCAÇÃO DE ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA SINDICATO DOS TRABALHADORES NA EMPRESA BRASILEIRA DE CO
- ATA DE ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DA REALIZADA EM 27 DE AGOSTO DE 2026 EPR INFRAESTRUTURA MG S/A
Ouça a rádio de Minas