Destilaria de Minas conquista segunda medalha brasileira em concurso internacional de bebidas orgânicas, na França
Uma pequena destilaria do interior de Minas Gerais concentra, até agora, as únicas medalhas conquistadas pelo Brasil em um dos principais concursos internacionais voltados para bebidas orgânicas. A Flor das Gerais, localizada em Felixlândia, na região Central do Estado, recebeu neste ano medalha de prata no Concours International des Produits Biologiques, realizado em Lyon, na França.
A premiação foi conquistada pela Reserva Porto Douro, cachaça envelhecida durante dez anos em barris de carvalho europeu e finalizada em tonéis que armazenaram vinho do Porto e tequila. Em 2025, outro rótulo da destilaria já havia sido premiado no mesmo concurso.
Engenheiro agrônomo e responsável técnico da destilaria, Daniel Duarte afirma que o reconhecimento internacional tem impacto direto na procura pelos produtos da marca, principalmente por se tratar de uma produção artesanal e orgânica em pequena escala.
“No ano passado, quando a Flor das Gerais Dorna Única foi premiada nesse mesmo concurso, tivemos em maio um volume de vendas equivalente ao de dezembro, que normalmente é o mês mais forte por causa das festas. Há picos que chegam a 100% acima do normal logo após as premiações”, observa.
Segundo ele, apesar do destaque internacional, a estratégia da empresa não envolve produção em larga escala nem foco em mercados de grande volume. A destilaria produz cerca de 10 mil litros por ano e mantém certificação orgânica, modelo que exige maior participação manual em diferentes etapas da produção.
“Cada hectare é limpo manualmente, sem uso de defensivos ou produtos químicos que poderiam ampliar a produtividade. Isso reduz nossa capacidade de escala”, afirma.
A empresa busca concentrar a comercialização em nichos de maior valor agregado, especialmente no mercado externo. “Não faz sentido pensar em uma escala global semelhante à de grandes cachaças industriais. Direcionamos nossa estratégia para mercados em que percebemos que o produto realmente é valorizado”, disse.

Blend desenvolvido com especialistas
Além do envelhecimento prolongado, a Reserva Porto Douro passou por um processo de desenvolvimento baseado em avaliações sensoriais conduzidas por especialistas convidados pela destilaria. Após dez anos de maturação, amostras foram enviadas para profissionais ligados à análise de destilados, blends de cachaça e whisky. “Chegamos a três versões finais e submetemos novamente aos especialistas, que ajudaram na escolha do blend definitivo”, afirmou Daniel Duarte.
Segundo ele, o objetivo da empresa não é produzir bebidas voltadas especificamente para concursos, mas utilizar as avaliações técnicas como ferramenta de aperfeiçoamento dos lotes. “As competições sérias enviam laudos completos de análise sensorial. Mesmo quando um produto não é premiado, conseguimos entender melhor as características dele. Esse retorno técnico ajuda muito nas próximas preparações”, disse.
Prática centenária
A produção da Flor das Gerais ocorre na Fazenda Mourões, em Felixlândia, onde a família Duarte mantém tradição ligada à cachaça há quatro gerações. O engenho de madeira construído em 1912 pelo bisavô de Daniel continua preservado na propriedade.
Foi a partir dos anos 2000, porém, que a destilaria passou a direcionar a produção para o segmento de cachaças envelhecidas e orgânicas. Em 2009, a empresa recebeu certificação do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) e se tornou a primeira cachaça orgânica certificada de Minas Gerais.
Formado em agronomia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Daniel Duarte passou a atuar na estrutura técnica da produção familiar após desenvolver pesquisas ligadas à análise físico-química de cachaça e estudos sobre destilados.
A destilaria também mantém um projeto de cultivo de espécies destinadas à tanoaria, madeira utilizada na fabricação de barris. A proposta é reduzir a dependência futura de fornecedores externos no processo de envelhecimento das bebidas.
Criado em 1996, o Concours International des Produits Biologiques reúne produtores de bebidas orgânicas de diferentes países. As avaliações são feitas às cegas por especialistas do setor, incluindo sommeliers, destiladores e compradores internacionais.
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