Projeto em cidade mineira quer transformar couro de tilápia em bolsas, artigos de moda e artesanato

Iniciativa do Sebrae busca reativar curtume em Morada Nova de Minas, que produz 80 toneladas de tilápia por dia e responde por mais de 50% da produção estadual
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Projeto em cidade mineira quer transformar couro de tilápia em bolsas, artigos de moda e artesanato
Foto: Divulgação PeixeBR

A indústria de pescados de Morada Nova de Minas, na região Central do Estado, pode integrar um projeto que pretende aproveitar o couro da tilápia como matéria-prima nobre e sustentável, especialmente para a produção de artigos de moda e artesanato, como calçados, bolsas, carteiras, cintos e peças de decoração.

Esse é o objetivo de um trabalho iniciado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae Minas) para sensibilizar pessoas da comunidade interessadas em trabalhar na cadeia produtiva do couro do pescado. A intenção, segundo a entidade, é resgatar uma atividade que fez parte da história do município há cerca de 20 anos, quando a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) implantou um curtume destinado ao beneficiamento da pele de tilápia.

Embora as atividades tenham sido interrompidas, o maquinário permanece preservado e pode ser utilizado no retorno desta operação. Além disso, conforme aponta o Sebrae Minas, é necessário identificar interessados em atuar nas diferentes etapas da cadeia produtiva, que passa pelo curtume, tingimento e costura das mantas feitas a partir do couro da tilápia para a confecção de produtos, acessórios e artigos voltados ao turismo e à pesca esportiva.

Feira em São Paulo inspira novos usos para o couro de peixe

Uma das profissionais já envolvidas neste processo é a artesã Maria Helena Costa, que faz parte da Associação dos Artesãos de Morada Nova de Minas. Ela integrou um grupo que esteve, no início desse mês, na feira Inspira Mais, em São Paulo, considerado o maior evento de design de materiais da América Latina.

“Somos a capital nacional da tilápia e temos muito potencial para fortalecer essa identidade também por meio do couro. Temos uma piscicultura da região interessada em doar as peles para o início das atividades, agora, precisamos de interessados em atuar com corte e costura”, explica.

A experiência em São Paulo também apresentou novas possibilidades para agregar valor ao produto. O grupo visitou o ateliê da estilista Flávia Aranha, referência nacional em moda sustentável, e conheceu técnicas de tingimento natural utilizando pigmentos extraídos de plantas como urucum, anil, cúrcuma, aroeira, folhas e cascas de árvores que estão em abundância na região.

Couro ecológico amplia valor agregado da piscicultura

Atualmente, a pele da tilápia é destinada, em grande parte, à fabricação de ração animal, atividade de baixo retorno econômico. Com o beneficiamento em couro ecológico, o material passa a atender mercados de maior valor agregado, como moda, artesanato, design e acessórios.

“A união de piscicultores, empreendedores, artesãos e parceiros vai permitir transformar um resíduo da piscicultura em novas oportunidades de negócios, geração de renda, identidade e desenvolvimento para Morada Nova de Minas”, destaca a analista do Sebrae Minas, Isabella Silva.

Segundo o Sebrae Minas, a atual estrutura existente em Morada Nova de Minas tem capacidade estimada para processar cerca de 20 mil peles de tilápia por mês. A consultora responsável pelo projeto, Luciana Navarro, afirma que será necessária a reativação do maquinário para testes, seguida da oferta de capacitações específicas para formação das equipes responsáveis pelo curtimento, tingimento e confecção.

“O município conta com matéria-prima abundante, governança organizada, tradição na piscicultura, forte comércio ligado à tilápia, potencial turístico e profissionais da área de moda e design”, diz.

Morada Nova de Minas é o maior polo de tilápia do Estado

De acordo com o Sebrae, em Morada Nova de Minas são produzidas cerca de 80 toneladas de tilápia, diariamente. O volume corresponde por mais de 50% da produção estadual.

Já conforme o Anuário Brasileiro da Piscicultura Peixe BR 2026, divulgado pela Associação Brasileira da Piscicultura, o município possui o maior número de tanques-rede de Minas Gerais, com 6.518 estruturas. Feitas geralmente de telas ou redes metálicas/plásticas, instaladas em rios, lagos ou reservatórios para a criação de peixes, elas funcionam como grandes gaiolas submersas, permitindo que a água circule livremente enquanto os peixes ficam confinados para manejo e alimentação.

Em âmbito estadual, Minas Gerais é, atualmente, o terceiro maior produtor de tilápias do Brasil, com 77,5 mil toneladas em 2025. O volume é 6,45% maior em comparação à produção registrada em 2024 (72,8 mil toneladas). Paraná (273,1 mil toneladas) e São Paulo (93,7 mil toneladas) figuram na primeira e segunda posição, respectivamente, entre os maiores produtores do peixe no ano passado.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa e assessoria de imprensa. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/daniel-de-andrade-1b845526

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