Veto da União Europeia à carne brasileira preocupa setor produtivo em Minas Gerais
Com a retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar carne bovina, carne de aves e outros produtos de origem animal para a União Europeia (UE), o setor mineiro tem acompanhado com apreensão os desdobramentos da decisão. O veto, válido a partir de 3 de setembro, atingirá um mercado de produtos com maior valor agregado e foi justificado pela falta de adequação do País às exigências de rastreabilidade e documentação relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção pecuária.
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Para o economista, educador financeiro e consultor empresarial Leonardo Baldez Augusto, o principal efeito imediato da decisão europeia é a perda de acesso a um mercado de alto valor agregado. Isso porque, somente em Minas Gerais, conforme dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), as exportações de carne bovina somaram US$ 409,6 milhões entre janeiro e abril deste ano, alta de 9,2% em relação ao mesmo período de 2025.
No caso da carne de frango, as exportações alcançaram US$ 131,2 milhões no primeiro quadrimestre, crescimento de 2,1% na comparação anual. O volume exportado aumentou 1,5%, chegando a 67 mil toneladas.
Segundo ele, a medida tende a pressionar exportadores, frigoríficos e produtores rurais, além de produzir um efeito reputacional sobre a cadeia produtiva brasileira. “Decisões dessa natureza costumam aumentar a percepção de risco sobre a cadeia produtiva brasileira e podem estimular questionamentos semelhantes por parte de outros compradores internacionais”, afirma.
De acordo com Baldez, um bloqueio prolongado pode exigir adequações adicionais em rastreabilidade e sustentabilidade, além de estimular o redirecionamento das exportações para mercados alternativos, como a Ásia e o Oriente Médio.
“Ainda é cedo para estimar com precisão os prejuízos financeiros, especialmente para Minas Gerais, porque tudo dependerá da abrangência e da duração das restrições”, diz. O economista acrescenta que a União Europeia ocupa posição relevante na comercialização de carnes premium e produtos de maior valor agregado, o que pode resultar em perdas significativas caso as restrições sejam mantidas por um longo período.
Setor questiona justificativa
Em nota, a Associação dos Frigoríficos de Minas Gerais, Espírito Santo e Distrito Federal (Afrig) classificou a decisão europeia como arbitrária e sem fundamentação técnica concreta. A entidade afirma que o setor frigorífico brasileiro opera sob rígidos controles sanitários e segue protocolos nacionais e internacionais de segurança alimentar.
A associação também sustenta que a medida surge em um momento posterior à assinatura do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia e pode representar uma barreira comercial com viés protecionista. Outro ponto levantado pela entidade é que o Brasil exporta proteína animal para mais de 160 países e que os produtos brasileiros são submetidos a critérios rigorosos de qualidade, rastreabilidade e segurança sanitária.
Diálogo técnico
Conforme o presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias de Carnes, Derivados e do Frio de Minas Gerais (Sinduscarne), Pedro Braga, o setor acompanha a discussão desde maio e ressalta que o tema não envolve questionamentos sobre a qualidade da carne produzida no País. “Essa discussão apresentada pela União Europeia não trata da qualidade da carne brasileira, mas de exigências documentais e de rastreabilidade relacionadas ao uso de antimicrobianos”, afirma.
Segundo Braga, o Brasil possui um dos sistemas sanitários mais reconhecidos internacionalmente e atende mercados considerados altamente exigentes em diferentes continentes. Para ele, discussões dessa natureza devem ser conduzidas por meio do diálogo técnico e da transparência.
“Barreiras regulatórias não podem criar interpretações equivocadas sobre a qualidade da produção brasileira, nem servir como instrumento desproporcional de restrição comercial”, diz.
O dirigente afirma que o setor está preparado para ampliar mecanismos de rastreabilidade e prestar esclarecimentos aos mercados internacionais, enquanto acompanha os desdobramentos da decisão europeia.
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