Acordo Mercosul–UE cria vitrine global para pequenos negócios mineiros
O sonho da pequena produtora Kátia Salomão de levar seus azeites saborizados, produzidos em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), para o outro lado do Oceano Atlântico pode, enfim, sair do papel. A partir desta sexta-feira (1º), entra em vigor o acordo de parceria entre os Países integrantes do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia, que prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação. Com isso, empreendedores brasileiros passam a ter acesso a um mercado estratégico de cerca de 450 milhões de consumidores.
Com números robustos de produção — 12 mil litros anuais e estimativa de dobrar a capacidade —, a empresa de Kátia Salomão, Kochen Azeites Saborizados, vê na parceria dos países sul-americanos com o gigante bloco europeu, fundado em 1992, uma grande possibilidade.
“Esse desejo de exportação já existe há algum tempo. Já temos estruturada a documentação necessária para adequar a empresa e torná-la apta a vender tanto para a União Europeia quanto para a América”, revela a produtora, que já se prepara para internacionalizar o negócio há um ano e meio.
“Já participei de feiras no Peru, na Alemanha e em Dubai, nos Emirados Árabes. Estamos em um caminho de primeiro apresentar o produto para, a partir daí, desenvolver a tratativa comercial”, diz.
A empresária, que atualmente vende para 17 estados brasileiros, afirma ainda que busca ampliar relações comerciais com a China e os Estados Unidos, pois, segundo ela, a isenção fiscal para o azeite nesses mercados é “mais interessante”.
“A União Europeia, até onde eu sei, tinha uma tributação que não tornava viável levar o meu produto para lá. Se houver, de fato, redução de impostos, ficará mais fácil para o comprador adquirir nossos produtos. Eu não sabia [do acordo] e espero que se concretize de forma atrativa para nós”, comenta.
Diferencial ajuda a internacionalizar produto
Segundo Kátia Salomão, o maior obstáculo para o pequeno produtor conquistar o mercado internacional hoje é tornar desejável o produto com o qual trabalha, principalmente em um cenário de ampla concorrência.
“O azeite, por exemplo, é muito peculiar: existem vários tipos, sabores e qualidades. Nesse sentido, o meu precisa se diferenciar para atrair o comprador externo”, conta ela, que, em seu processo produtivo, conta com cinco fornecedores selecionados do Sul de Minas. Sua equipe, formada por nove colaboradores, cria um blend com os azeites comprados e faz a saborização de forma artesanal.
“O manjericão que a gente usa é plantado e colhido em nossa fazenda, em Lagoa Santa, no mesmo local onde funciona a fábrica”, relata.

Ela ainda orienta que o processo de estruturação de qualquer negócio no mercado de exportações deve ser feito paralelamente à divulgação do produto em âmbito internacional: “Ao mesmo tempo em que levamos os produtos para exposições internacionais, também trabalhamos as questões burocráticas”.
Esse segundo pilar de trabalho já foi, inclusive, superado pela produtora. “A minha fábrica já tem condições de produzir o dobro de sua capacidade atual. Já temos o selo de certificação do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) exigido pela China”, celebra.
Acordo com UE abre portas, mas exige capacitação das empresas
Responsável pelo Núcleo de Negócios Internacionais do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Minas Gerais (Sebrae Minas), o analista Jefferson Santos afirma que a entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia amplia uma expertise que o Brasil já possui. Isso, no entanto, não significará a eliminação imediata das tarifas de compra e venda com o exterior, tampouco o acesso imediato das empresas ao mercado europeu.
“Embora as empresas tenham a possibilidade de se conectar a mercados globais de valor, elas precisam, principalmente, de preparação, que é onde o Sebrae tem atuado. Temos uma série de atividades para pequenos negócios, como diagnósticos de materialidade exportadora, capacitação, consultorias e conexões internacionais. Inclusive, este ano, vamos fazer uma missão na Alemanha com produtores de mel”, diz.
Segundo Santos, desde 2025, o Sebrae Minas já tem observado um movimento, ainda modesto, de pequenas empresas exportando. “Recentemente, preparamos um grupo de pequenos produtores rurais de café, orientando na negociação e busca de mercado”, revela o executivo, acrescentando que os profissionais encontraram um comprador na Irlanda e já embarcaram o primeiro contêiner para o país do noroeste europeu. “Já temos novos pedidos para este ano”, pontua.
Expansão de fronteiras demanda competitividade
O analista do Sebrae Minas também reforça três desafios fundamentais que, segundo ele, as pequenas empresas devem cumprir para acessar os países europeus:
- competitividade em âmbito global,
- adequação ao mercado
- e consistência de entrega.
“Não dá para exportar apenas quando o dólar estiver alto. É preciso ter a prática como estratégia. Mesmo se a moeda americana cair, é imprescindível manter as vendas. Isso tem que estar arraigado no pensamento da empresa. É essa consistência que o mercado, principalmente o europeu, espera”, orienta.
Por fim, Jefferson Santos lembra que o acordo é bilateral. Ou seja, as empresas do mercado europeu também vão poder vender seus produtos no Brasil, tornando-se concorrentes em âmbito local.
“Por isso, qualquer tipo de negócio, seja ele pequeno, médio ou grande — mas principalmente os pequenos —, terá que se capacitar, ter inteligência de mercado e conhecer as inovações do mercado europeu, porque, se não se adequar, pode perder competitividade”, conclui.
Acordo de parceria estratégica Mercosul – União Europeia
O Mercosul e a União Europeia assinaram, em janeiro deste ano, um acordo de parceria estratégica. As tratativas, porém, iniciaram-se há 26 anos. Em 1º de maio, a parte comercial do tratado entrará em vigor de forma provisória, unindo dois blocos que, juntos, somam um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 22,4 trilhões e uma população de 718 milhões de pessoas.
Com a entrada em vigor, mesmo que provisória, o acordo prevê:
- redução gradual de tarifas;
- eliminação de barreiras comerciais;
- maior previsibilidade regulatória.
A medida deve favorecer exportações, atrair investimentos e integrar o Brasil às cadeias globais de valor, além de ampliar a oferta de produtos europeus no mercado interno.
Tem um pequeno negócio e quer começar a exportar? Saiba como
Desde 2023, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) apoia as micro, pequenas e médias empresas que precisam obter conhecimentos práticos e aplicáveis para definir estratégias de internacionalização e realizar exportações para os mais diversos destinos.
Além de consultoria gratuita e individualizada por meio do Programa de Qualificação de Exportações (Peiex), as duas entidades oferecem subsídios para a participação das empresas em feiras internacionais, missões comerciais e rodadas de negócios com compradores no Brasil e no exterior.
Empresas que querem começar a exportar devem fazer um cadastro no site oficial da ApexBrasil. A partir do preenchimento, a agência poderá conhecer o perfil da solicitante e apresentar as soluções que mais se adequam ao negócio.
Confira alguns números do setor:
- Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) apontam que, em 2025, Minas Gerais concentrava 1.040 pequenos negócios exportadores. O número corresponde a 8,8% do total em todo o País (11.822).
- Ainda segundo a Secex, entre 2015 e 2025, o número total de pequenos negócios exportadores no Brasil cresceu 9,6 pontos percentuais.
- Os pequenos negócios concentraram suas exportações principalmente nas Américas — com destaque para a América do Sul (US$ 677,9 milhões; 25,3% do total exportado para o mundo) e a América do Norte (US$ 529,2 milhões; 19,7% do total). Também se destacam a Ásia (US$ 519,8 milhões; 19,4% do total) e a Europa (US$ 497,6 milhões; 18,6% do total).
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