Na contramão do recorde nacional, aeroportos de Minas perdem passageiros em 2026

A retração foi mais intensa nos aeroportos do interior, como Montes Claros, Ipatinga, Uberaba e Governador Valadares, que registraram quedas entre 18% e 27%
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Na contramão do recorde nacional, aeroportos de Minas perdem passageiros em 2026
Foto: Diário do Comércio/Daniel Rosa

Na contramão do recorde nacional de 76,8 milhões de passageiros em voos domésticos, os aeroportos de Minas Gerais perderam movimento em 2026. Entre janeiro e setembro, 10,42 milhões de pessoas passaram pelos terminais do Estado, 1,3% a menos que no mesmo período do ano passado (cerca de 139 mil passageiros a menos).

Os dados são da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A retração foi mais intensa nos aeroportos do interior, como Montes Claros, Ipatinga, Uberaba e Governador Valadares, que registraram queda entre 18% e 27%.

Principal porta de entrada aérea de Minas Gerais, o Aeroporto Internacional de Belo Horizonte (BH Airport), em Confins, também registrou menos tráfego de passageiros frente ao ano passado. No período analisado, o terminal movimentou 9 milhões de passageiros, uma retração de 1,7%, o equivalente a cerca de 158 mil pessoas a menos.

O aeroporto de Montes Claros, o principal do Norte de Minas Gerais, perdeu 18,3% dos passageiros, ao passar de 266,5 mil para 217,8 mil. Em Santana do Paraíso, que atende Ipatinga e o Vale do Aço, a queda foi de 27,1%, de 103,7 mil para 75,6 mil.

Também registraram recuo os aeroportos de Governador Valadares (-22,9%), com 50,7 mil passageiros, e Uberaba (-21,6%), com 51,4 mil. Já as quedas mais acentuadas, em termos proporcionais, foram em Patos de Minas, onde o movimento despencou de 11,3 mil para 1,2 mil passageiros (-89%), e em Araxá, que passou de 5,9 mil para 1,2 mil (-79,4%).

O economista e professor do UniBH, Fernando Sette Junior, avalia que o desempenho da economia mineira em 2026 ajuda a explicar parte da retração do transporte aéreo, especialmente ao considerar o crescimento econômico mais moderado e as condições restritivas de crédito. Segundo ele, o Produto Interno Bruto (PIB) do Estado cresceu 1,3% em quatro trimestres, contra 1,9% do País, e a Selic em 13,75% segue encarecendo o crédito e leva as famílias a adiarem gastos como viagens de lazer.

O especialista pondera, no entanto, que a queda não pode ser atribuída apenas à economia. “O transporte aéreo atende diferentes públicos, incluindo turistas, empresários e profissionais que precisam viajar a trabalho. Quando a atividade econômica cresce menos, as empresas também podem reduzir gastos com deslocamentos, reuniões presenciais e eventos corporativos”, explica Sette Junior.

Para Sette Junior, o preço das passagens também ajuda a explicar as dificuldades da aviação regional, mas com ressalvas. Dados da Anac mostram que a tarifa aérea média no País foi de R$ 746,62 em setembro, queda real de 0,5% em relação ao mesmo mês de 2025.

“Não houve um encarecimento generalizado das passagens, embora determinados trechos possam apresentar preços muito superiores à média”, observa.

Nas rotas regionais, com menos passageiros e pouca concorrência, o economista salienta que as tarifas tendem a ser mais altas. “Nesses casos, o ônibus ou o deslocamento até um aeroporto maior se tornam alternativas mais atraentes”, argumenta.

Aeroporto de Uberlândia é exceção e fluxo cresce 15,6%

Segundo maior terminal de Minas Gerais, o Aeroporto de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, foi o único com crescimento expressivo. De janeiro a setembro, o fluxo no local somou 889 mil passageiros, frente a 769,3 mil no mesmo período de 2025. São cerca de 120 mil pessoas a mais, uma alta de 15,6%.

Com o resultado, a fatia de Uberlândia no movimento aéreo mineiro passou de 7,3% para 8,5%. O aumento no terminal do Triângulo compensou boa parte da perda de Confins e evitou uma queda maior no total do Estado.

Sette Junior avalia que o crescimento no movimento de passageiros de Uberlândia demonstra que a dinâmica da aviação não depende exclusivamente das condições macroeconômicas nacionais ou estaduais. “Uberlândia possui uma economia diversificada, com forte presença dos setores de comércio, serviços, logística, agronegócio e atividades empresariais, que contribuem para gerar uma demanda relativamente constante por deslocamentos profissionais e comerciais”, argumenta.

Além disso, o município funcionaria como polo regional, concentrando serviços utilizados por moradores de diversas cidades do Triângulo Mineiro e de áreas próximas. “Esse papel regional amplia seu mercado potencial e contribui para sustentar operações aéreas que, em municípios menores, poderiam apresentar maior dificuldade econômica”, acrescenta.

Efeito além dos aeroportos: queda pode afetar eventos, comércio e turismo

Segundo Sette Junior, a perda de voos em cidades como Montes Claros, Ipatinga e Governador Valadares tem consequências que podem ir além do setor de transporte, já que os municípios funcionam como polos regionais de comércio, serviços, saúde e educação. “Quando a conectividade aérea diminui, aumentam as dificuldades de deslocamento de empresários, investidores, fornecedores e profissionais especializados, o que pode elevar os custos das atividades produtivas”, afirma.

O impacto também pode chegar a eventos, congressos e ao turismo, e se espalhar por hotéis, restaurantes e comércio que dependem da circulação de visitantes. “Em uma economia cada vez mais integrada, o tempo necessário para alcançar outros mercados é um elemento relevante para as decisões de localização e investimento”, acrescenta o economista.

A avaliação é que a recuperação do movimento aéreo em Minas Gerais depende de uma combinação de fatores econômicos, operacionais e estruturais. Para Sette Junior, do ponto de vista da demanda, um ambiente de crescimento consistente da renda, maior disponibilidade de crédito e redução dos custos de financiamento pode contribuir para ampliar o consumo de serviços turísticos e as viagens empresariais.

Pelo lado da oferta, a recuperação está relacionada à capacidade das companhias de manter frequências, ampliar destinos e operar com custos compatíveis com a demanda regional. “Investimentos em infraestrutura aeroportuária podem facilitar esse processo, mas não garantem, isoladamente, a sustentabilidade das operações. A expansão da capacidade aeroportuária, acompanhada do aumento da oferta de voos, pode estar associada a resultados positivos de movimentação”, conclui o economista.

Sobre o autor

Leonardo Morais

Repórter de economia e negócios do Diário do Comércio, com experiência em jornalismo digital e produção multimídia. Graduado pela PUC Minas, foi premiado com o 2º lugar no Prêmio Sebrae de Jornalismo, Fotojornalismo (2024).