Amizade fortalece negócios, mas especialistas alertam: confiança não substitui gestão
O velho ditado de que “amigos, amigos, negócios à parte” parece perder força no empreendedorismo brasileiro. Embora a crença popular recomende separar amizade e dinheiro, quase um terço dos empresários que têm sócios escolheu justamente um amigo para dividir o comando da empresa. Levantamento da MindMiners em parceria com a PayPal mostra que 29% dos empreendedores possuem um amigo como sócio, índice que só fica atrás das sociedades familiares, presentes em 51% dos casos.
Na prática, histórias de empresas mineiras mostram que, quando há confiança, competências complementares e regras bem definidas, a amizade pode se transformar em um diferencial competitivo. É o caso da Copa Cozinha, cafeteria especializada em quitandas mineiras criada em 2018 por Maíra Sette, Cristina Gontijo e Júlia Gontijo, amigas desde a adolescência. As três se conheceram no primeiro dia de aula do ensino médio, quando deixaram cidades do interior para estudar em Belo Horizonte, e dividiram a mesma casa durante dez anos antes de decidirem empreender juntas.
“Nós sempre tivemos esse sonho de amigas: um dia vamos ter um negócio juntas. A gente não sabia exatamente qual seria o ramo, mas esse desejo existia há muitos anos”, conta Maíra Sette.
A oportunidade surgiu com a revitalização do Mercado Novo, em Belo Horizonte. O pequeno espaço permitiu que elas iniciassem a operação paralelamente às carreiras profissionais, reduzindo os riscos do empreendimento. O sucesso da proposta levou à abertura de duas unidades da Copa Cozinha na capital mineira, nos bairros Floresta (região Leste) e Savassi (região Centro-Sul), além da criação da Mineirada, operação voltada para produtos mineiros em São Paulo.

Segundo a empreendedora, a longevidade da sociedade está diretamente ligada à divisão clara das responsabilidades. “Nós atuamos em áreas completamente diferentes. A Júlia cuida da operação da cozinha, a Cristina da administração e contabilidade, e eu fico responsável pela comunicação, marketing e comercial. A gente se respeita e se admira muito”, destaca.
Ela afirma que essa complementaridade evita disputas internas e fortalece o negócio. “A Copa Cozinha é o que é porque somos nós três. Nunca tivemos um desgaste que comprometesse a saúde da empresa”, diz.
Apesar da convivência harmoniosa, existe um desafio permanente. “Quando a gente se encontra fora da empresa, precisa fazer um exercício para não falar de trabalho. Esse talvez seja o maior desafio, porque a amizade não pode ficar em segundo plano”, comenta.
Da relação comercial nasceu a amizade
Na rede de açaí Jah, o caminho foi inverso. O CEO Rafael Corte e o fundador Diego Dutra não eram amigos antes de se tornarem sócios. “Eu conheci o Diego vendendo picolé para ele. Foi durante esse relacionamento comercial que percebi o potencial do negócio e sugeri transformá-lo em franquia, quando viramos grandes amigos”, relembra.

A sociedade começou em 2014, quando Corte passou a estruturar o modelo de franquias da empresa, criada em 2009. Hoje, a rede está presente em diversos estados brasileiros e iniciou a expansão internacional, com operações na Alemanha, Portugal e, em breve, no Chile.
Segundo o executivo, a amizade foi construída ao longo dos anos graças aos valores compartilhados. “A gente foi se tornando amigo ao longo do tempo porque sempre trabalhou com muita verdade, transparência e o mesmo propósito”, diz.
Para Corte, um dos fatores determinantes para o sucesso da parceria é colocar os interesses da empresa acima das questões pessoais. “O Jah vem em primeiro plano. Tanto eu quanto o Diego estamos dispostos a abrir mão da vaidade para fazer um negócio melhor”, diz.

Corte destaca ainda que a complementaridade de perfis também contribui para o crescimento da empresa. “Eu gosto mais dos bastidores, de estruturar processos. O Diego é extremamente comercial, carismático e faz muito bem esse papel. Isso fez toda a diferença. A gente se complementa”, frisa.
Mesmo com a amizade consolidada, Corte faz questão de separar os papéis. “Somos amigos, mas tudo faz sentido quando entendemos que amizade e sociedade são relações diferentes. Os dois papéis não podem se misturar. E a gente entende isso”, finaliza.
Governança protege empresa e amizade
Na avaliação do analista do Sebrae Minas, Wagner Nogueira, a confiança existente entre amigos realmente facilita o início do empreendimento, mas não elimina os desafios da sociedade. “Ter um sócio amigo significa que toda a parte de confiança e afinidade já foi vencida. Isso acelera as discussões sobre o negócio e permite que a energia seja canalizada para aproveitar as capacidades individuais”, observa.
Entretanto, ele alerta que a amizade não garante resultados positivos. O relacionamento pessoal, sozinho, não garante o sucesso do negócio; a falta de profissionalização costuma ser a principal causa dos conflitos. “Manter sociedade com um amigo não garante sucesso, mas é um excelente alicerce para construir um negócio”, diz.
Segundo Nogueira, empresas bem-sucedidas costumam reunir sócios com competências complementares. “Se essas habilidades forem complementares, isso gera uma vantagem competitiva adicional e aumenta a velocidade das conquistas”, avalia. É o caso dos exemplos mencionados na reportagem.
O especialista ressalta ainda que o maior risco está em permitir que a amizade impeça decisões difíceis. “O que vejo, não raro, são silêncios, omissões e enfraquecimento empresarial para não comprometer a relação de amizade”, diz.
Por isso, para ele, é importante maturidade e regras claras para preservar o relacionamento. “São amigos, sim. Mas a sociedade precisa ser pautada por contratos, responsabilidades e interesses voltados para a preservação da empresa e da convivência”, pontua.
A coordenadora acadêmica da Una Contagem e professora de gestão & negócios, Cristina Carvalho de Melo, compartilha a mesma avaliação. Ela afirma que empreender com amigos pode ser uma excelente escolha, desde que a confiança venha acompanhada de profissionalismo. “Confiança é um ótimo ponto de partida, mas precisa ser sustentada por acordos claros, papéis bem definidos e diretrizes registradas desde o início”, avalia.
Cristina de Melo fala também a partir da experiência pessoal. Segundo ela, já teve uma empresa com amigos e percebeu que a proximidade facilitava o dia a dia, mas também levou à ausência de registros formais. “Enquanto tudo estava bem, isso não parecia um problema. Quando surgiram situações que exigiam interpretações diferentes, apareceram ruídos que poderiam ter sido evitados”, relembra.

Ela reforça que sociedades duradouras costumam compartilhar algumas características. “As empresas que conseguem prosperar são justamente aquelas que conseguem separar amizade e gestão, com transparência financeira, comunicação frequente e mecanismos formais para tomada de decisão”, diz.
Para a especialista, o segredo está em compreender que conflitos são naturais. “O que preserva a amizade não é evitar os conflitos, mas criar processos para administrá-los”, observa.
Na avaliação de Cristina de Melo, profissionalizar a gestão fortalece tanto a empresa quanto a relação entre os sócios. “A amizade aproxima as pessoas; a boa gestão garante que elas continuem caminhando juntas”, conclui.
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