Paralisação da Usiminas acende alerta sobre pressão nas margens de mineradoras
A paralisação temporária de parte na unidade de mineração da Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas) em Itatiaiuçu, na região Central do Estado, acendeu um alerta sobre um problema que pode não estar restrito à companhia. Segundo especialistas, o mesmo aperto de margem que influenciou a decisão pode estar afetando outras mineradoras.
Conforme informado pelo Diário do Comércio, o grupo suspendeu na quarta-feira (2), sem definir prazo para retorno, as atividades da planta de Samambaia, que responde por aproximadamente 35% da produção de minério de ferro da Mineração Usiminas. A empresa disse que a medida foi necessária para adequar os custos diante das adversidades do cenário externo, marcado pela queda do preço do minério de ferro e disparada do frete marítimo.
O sócio da Valor Capital, Pablo Alencar, ressalta que a Usiminas não é uma mineradora pequena tentando “sobreviver”. Ele afirma que uma companhia desse porte não desliga uma planta por “capricho”, mas, sim, porque a conta parou de fechar.
“O minério de ferro está negociado perto de US$ 97 a tonelada, tracionado pelo excesso de oferta e pelo estoque recorde nos portos chineses. Ao mesmo tempo, o frete marítimo para o navio que carrega esse tipo de produto está no nível mais alto em quase dois anos”, pontua.
“O mercado não está vendo uma empresa em dificuldades, está vendo o fim de uma margem que dependia de dois preços ficarem estáveis ao mesmo tempo. Quando os dois se movem em direções contrárias na mesma janela, não sobra ajuste de custo que consiga resolver, e a solução é parar a planta”, acrescenta.
- Leia mais: Usiminas paralisa planta em Itatiaiuçu, que responde por 35% da produção mineral da companhia
Empresas sem estrutura defensiva tendem a sofrer
De acordo com Alencar, quem opera com margem apertada em minério, sem escala para negociar frete direto com armadora e sem contrato de logística de longo prazo, sente o “aperto” primeiro e sente com mais intensidade. Segundo o especialista, mineradoras grandes como a Vale têm estrutura para absorver o choque redistribuindo entre outras operações, porém as mineradoras de médio porte não têm essa “gordura”.
Ele pondera que as empresas médias geralmente não são listadas em bolsa e não precisam divulgar informações. O sócio da Valor Capital salienta que, portanto, há risco de outras companhias estarem na mesma situação da Mineração Usiminas.
O analista de investimentos da plataforma AGF, Pedro Galdi, afirma que a alta do petróleo e o aumento de custos dos fretes marítimos afetaram exportadores de diferentes setores da economia e de forma diferenciada as empresas de mineração. Segundo ele, o impacto na Vale foi reduzido pelo fato de a companhia deter contratos de longo prazo com empresas de transporte marítimo e atuar com operações de hedge para preços de combustíveis.
O especialista acredita que a Vale será um caso à parte, e quem não tem uma estrutura defensiva como a da empresa, com contratos de longo prazo e operações de hedge, deve sofrer, com custos mais altos, impacto nas margens e até paralisações pontuais.
“No caso da Usiminas, este anúncio reflete este momento de custos, mas tende a ser revertido quando uma normalização do preço do petróleo vier, com o pós-guerra”, avalia.
Para o sócio da Valor Capital, a decisão da Usiminas também pode ser tática e não estrutural. Alencar explica que a siderurgia é o núcleo do negócio da empresa, logo, cortar minério e manter aço é um hedge natural, não sinal de colapso. Segundo ele, há um cenário em que a paralisação é um ajuste fino e não o primeiro capítulo de uma crise setorial.
Ouça a rádio de Minas