Economia

Alta de 137% nas vendas de veículos chineses rompe equilíbrio de preços do mercado automotivo

Expansão dos elétricos e avanço das montadoras chinesas aceleram a transformação do setor e pressionam o posicionamento das marcas tradicionais
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Alta de 137% nas vendas de veículos chineses rompe equilíbrio de preços do mercado automotivo
Venda de veículos elétricos em MG, majoritariamente de marcas da China, não é mais considerada nicho de mercado | Foto: Reprodução Adobe Stock Chatchai

O mercado automotivo de elétricos em Minas Gerais, majoritariamente de marcas chinesas, já não pode ser considerado de nicho. Os emplacamentos desse segmento cresceram 137% no primeiro semestre de 2026 na comparação com o mesmo período do ano passado, enquanto o interesse dos brasileiros por marcas chinesas avançou 515% últimos cinco anos.

Os dados constam em estudos da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) e da empresa de tecnologia Timelens/FutureBrand. O avanço, no entanto, ameaça romper o equilíbrio de preços que sustentava o mercado automotivo tradicional, reduzindo a percepção de valor de marcas com décadas de atuação no Estado.

De acordo com o especialista em precificação e CEO da consultoria Quantiz, Frederico Zornig, o consumidor passa a usar o preço chinês como parâmetro, gerando maior pressão sobre o preço do mercado. “O teto de preço que os líderes conseguiam praticar cai e marcas estabelecidas reagem com descontos que corroem margens. O efeito mais duradouro não é o desconto em si, mas a reavaliação do que o consumidor considera preço justo para aquela categoria”, explica.

Segundo Zornig, guerras de preço em diversos setores são normalmente insustentáveis acima de 12 a 24 meses. Em relação ao caso do setor automotivo, alguns fatores são considerados ainda mais críticos, já que as marcas operam custos fixos considerados elevados, da fábrica, à rede de concessionários e Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

Ele argumenta que, nesse caso, o ponto de ruptura depende de três variáveis: caixa de cada player, elasticidade-preço da demanda no segmento e capacidade de repassar essas reduções à cadeia de fornecedores (negociar menores preços de peças e insumos).

“Marcas chinesas frequentemente aguentam mais porque chegam com estrutura de custo menor e, em muitos casos, com subsídio implícito do país de origem. Fato é que não sabemos exatamente como conseguem produzir com custos tão baixos ou se estão comprando mercado com uma estratégia mercadológica que neste caso não seria sustentável”, destaca.

Nesse cenário, as concessionárias tradicionais saem perdendo por não controlarem o preço de fábrica, além de necessitarem seguir as reduções de preços no mercado. Entretanto podem buscar, através de serviços, recompor margens a partir de três pilares.

  1. Valor do pós-venda: revisões, garantia estendida, peças e tempo de atendimento são áreas onde o chinês ainda é fraco no Brasil. Esse é um diferencial real hoje que pode ser melhor explorado e comunicado ao mercado.
  2. Financiamento e Custo total de Propriedade (TCO): vender o custo total de propriedade (seguro, peças, depreciação, rede de assistência, preço de revenda do veículo) em vez do preço do carro somente. Um carro mais barato com peças caras, assistência escassa e valor de revenda incerto ou muito baixo pode ter um TCO pior.
  3. Relacionamento local: a concessionária física tem vantagem geográfica e histórica que o carro chinês não replica rapidamente. Fidelização e CRM bem feitos valem mais do que preço baixo pontual. Hora de se aproximar dos seus clientes, se já não fazia isso antes.

No atual cenário, o executivo argumenta que as marcas terão um grande desafio pela frente se a agressividade de preços das marcas chinesas continuar. “Ou partem para a briga, caso tenham custo para sustentar uma guerra de preços por longos períodos, ou terão que buscar nichos de atuação onde ainda podem se destacar com melhor serviço, ou modelos de veículos que ainda não são ofertados pelos chineses”, analisa.

Dentre as alternativas potenciais estão as pick-ups em geral que ainda possuem certa exclusividade ou os hatches pequenos de baixo custo onde podem manter preços menores e escala.

Momento é estratégico para adoção de política de desenvolvimento produtivo do mercado automotivo

O economista e conselheiro de política econômica Stefan D’Amato avalia que a entrada de novas montadoras, especialmente das empresas chinesas, é positiva porque aumenta a concorrência, amplia a oferta de veículos eletrificados e beneficia o consumidor com preços mais competitivos e maior diversidade de modelos. O desafio, porém, deve estar concentrado em garantir que esse crescimento não ocorra por meio da importação de veículos prontos.

Com produção nacional, D’Amato salienta que o mercado brasileiro ganha com a oferta de produtos modernos, embora uma parcela significativa da engenharia, da pesquisa e desenvolvimento, da produção de componentes e dos empregos industriais continuará sendo gerada no exterior. “Existe espaço para ampliar a produção nacional. O desafio agora é aumentar o conteúdo local e fortalecer os fornecedores brasileiros para que uma parcela maior do valor agregado permaneça no país. Por isso, este é um momento estratégico para o Brasil adotar uma política industrial capaz de transformar o crescimento do mercado em desenvolvimento produtivo”, afirma.

O objetivo, segundo o economista, não é restringir a concorrência. A iniciativa deve estar concentrada também no incentivo à instalação de novas fábricas, na ampliação da produção nacional de componentes, especialmente baterias, eletrônica e softwares.

“A indústria automobilística possui um dos maiores efeitos multiplicadores da economia. Cada nova planta industrial movimenta setores como siderurgia, química, borracha, plástico, eletrônica, logística e diversos serviços especializados. Por isso, produzir localmente gera impactos econômicos muito superiores aos observados quando o crescimento ocorre apenas por meio da importação”, pontua.

Sobre o autor

Leonardo Morais

Repórter de economia e negócios do Diário do Comércio, com experiência em jornalismo digital e produção multimídia. Graduado pela PUC Minas, foi premiado com o 2º lugar no Prêmio Sebrae de Jornalismo, Fotojornalismo (2024). LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/leomoraisj/

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