Economia

Brasil mira protagonismo em minerais críticos mas precisa agregar valor, defende Ibram

Ibram defende parceria público-privada e rejeita estatal para setor estratégico, apontando desafios e oportunidades para o País no cenário global
Brasil mira protagonismo em minerais críticos mas precisa agregar valor, defende Ibram
Foto: Reprodução Site Sigma Lithium

O Brasil vive um momento decisivo para se posicionar na corrida global por minerais críticos, especialmente as chamadas terras-raras, essenciais para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia. A avaliação é do presidente interino do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, que defende um modelo baseado na cooperação entre Estado e iniciativa privada e rejeita a criação de uma estatal para o setor.

Segundo Cesário, o País reúne condições para se tornar protagonista global, mas ainda precisa superar entraves como financiamento, licenciamento ambiental e desenvolvimento tecnológico. “Os minerais são elementos centrais da transição energética e de produtos de alta tecnologia. O Brasil reconheceu essa oportunidade e está se organizando para enfrentá-la”, afirma.

Uma das principais discussões em curso no Congresso Nacional citada pelo gestor envolve o Projeto de Lei 2780, de autoria do deputado Zé Silva (Solidariedade-MG) e relatado por Arnaldo Jardim (Cidadania-SP). A proposta busca criar diretrizes para o aproveitamento de minerais estratégicos, que o Instituto apoia.

Paralelamente, surgiu a ideia de criação de uma estatal específica para exploração de terras-raras, à qual o Ibram se posiciona contra. Cesário argumenta que experiências anteriores já mostraram limitações desse modelo. Ele cita o caso da antiga Orquina, empresa que atuava com monazita no Espírito Santo e foi estatizada na década de 1960, acabando posteriormente sucateada e extinta. “Mineração exige investimentos de longo prazo, muitas vezes superiores a dez anos sem retorno. Isso é incompatível com ciclos políticos de quatro anos”, destaca.

O dirigente também menciona a perda de capacidade do País no setor de urânio em função de investimentos inadequados e o pequeno avanço no mapeamento geológico como exemplos de limitações do modelo estatal quando não há investimentos consistentes. “Enquanto o Brasil possui apenas 27% do território mapeado, países como Canadá e Austrália possuem mais de 98% mapeado”, exemplifica.

No entanto, o presidente do Ibram não desconsidera a participação do Estado e a define como coadjuvante importante. Ele entende que o caminho mais eficiente é a divisão de responsabilidades: o setor privado focado na exploração, produção e comercialização, enquanto o Estado atua em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e regulação.

Valor agregado ao produto

Cesário destaca ainda que o Brasil já domina etapas importantes da cadeia mineral, mas precisa avançar na agregação de valor. Isso inclui desde o processamento avançado até o desenvolvimento de aplicações industriais.

Um exemplo citado como modelo é o da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), sediada em Araxá, no Triângulo Mineiro. A empresa construiu uma cadeia completa em torno do nióbio, investindo há cerca de 70 anos em tecnologia, aplicações e logística global. “Eles criaram uma rede de distribuição que entrega seus produtos aos clientes em 72 horas em qualquer parte do mundo”, pontua.

O desafio, agora, é replicar esse modelo para outros minerais, como as terras-raras, garantindo que o valor agregado fique no País”, completa.

Falta de financiamento ainda é um entrave

Outro ponto crítico levantado por Cesário é o financiamento. Segundo ele, atualmente, muitas empresas brasileiras recorrem a mercados externos, como Canadá e Austrália, para captar recursos.

“Hoje, a maior parte das empresas brasileiras de mineração tem que ir para o exterior para conseguir financiamento. Há uma oportunidade de criar esse mercado aqui. A mineração tem uma característica muito diferente de outros setores. Você tem que investir pelo menos 10 anos, sem nenhuma receita, para só então conseguir uma mina. É um perfil de risco que é muito específico e muito próprio da mineração e nem todo mundo entende isso. Mas é uma oportunidade para empregos de boa qualidade”.

A construção de uma política nacional voltada aos minerais críticos e estratégicos é um eixo central defendido pelo presidente interino do Ibram. Cesário apontou como urgente a aprovação do projeto de lei com previsão de apresentação de parecer ainda em abril.

A proposta, segundo ele, cria mecanismos para facilitar o financiamento de projetos, além de estabelecer prioridades para o licenciamento ambiental, com mais agilidade e previsibilidade.

Dependência externa de insumos preocupa

O presidente interino do Ibram ressalta que o Brasil ainda depende fortemente da importação de insumos essenciais, especialmente fertilizantes como fosfato e enxofre, apesar de possuir reservas minerais. “Mais de 80% de alguns fertilizantes vêm de fora. Isso é um risco real. Qualquer restrição internacional pode comprometer diretamente a nossa agricultura”, diz.

Para ele, o desenvolvimento dessas reservas no País é fundamental para garantir segurança produtiva, especialmente em um cenário global marcado por instabilidades geopolíticas.

Cesário reforçou que o avanço dessas agendas como inclusão de mulheres, segurança de insumos e ambiente regulatório mais eficiente são determinantes para que o Brasil aproveite a demanda crescente por minerais, impulsionada pela transição energética e pelas novas tecnologias. “O País tem uma oportunidade concreta nas mãos. Mas, para aproveitá-la, é preciso agir com rapidez e coordenação.”

Questionado se o Brasil estaria atrasado na corrida global, Cesário afirmou que não, mas que precisa agir com velocidade para não repetir ciclos econômicos do passado, como o do ouro ou da borracha, que geraram riqueza temporária sem desenvolvimento duradouro. “O Brasil tem condições de ser um porto seguro para investidores de diferentes países, seja da Europa, Ásia ou América. A questão é como transformar essa oportunidade em prosperidade de longo prazo”.

Para isso, ele reforça que entre os outros itens, o foco deve estar na formação de mão de obra, no avanço tecnológico e na construção de um ambiente institucional sólido. “A resposta, no fim das contas, é gente. É sempre gente”, conclui.

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