Cenário econômico mantém ambiente desafiador para empresas, apesar de indicadores positivos
Apesar de parte dos indicadores econômicos apontar um cenário favorável para a atividade econômica brasileira, especialistas alertam que os sinais positivos podem não se sustentar no médio e longo prazos, diante do elevado nível dos juros, da questão das contas públicas e do aumento do endividamento das empresas.
A avaliação foi feita pela economista e sócia da Siegen, empresa de consultoria empresarial, Jucélia Lisboa, durante apresentação sobre o cenário macroeconômico brasileiro no evento Café & Debate. Segundo ela, dos 32 indicadores analisados pela consultoria, 17 mostram desempenho positivo quando observados isoladamente, refletindo resiliência da economia.
Entre os fatores favoráveis estão a revisão para cima das projeções do Produto Interno Bruto (PIB), a recuperação da atividade, o crescimento dos setores de serviços e agropecuária, o superávit da balança comercial, a taxa de desemprego em 5,6%, o aumento da renda média da população e a desaceleração recente da inflação.
“A maior parte dos indicadores mostra uma economia resiliente no curto prazo, com crescimento do PIB, mercado de trabalho aquecido, aumento da renda e inflação mais comportada”, destacou Jucélia Lisboa.
Ela observou ainda que o mercado financeiro também apresentou desempenho positivo ao longo do ano, com valorização da bolsa brasileira, fortalecimento de setores como financeiro, imobiliário e elétrico, além de ganhos registrados nos principais mercados internacionais.
Apesar desse cenário aparentemente favorável, a economista ressaltou que a análise conjunta dos indicadores revela fragilidades importantes.
Entre os principais fatores de preocupação estão a dívida líquida do setor público em nível recorde, o resultado primário deficitário, o crescimento das despesas públicas acima das receitas, a manutenção da taxa Selic em patamar elevado e as incertezas provocadas pelo cenário geopolítico internacional, especialmente pelos conflitos no Oriente Médio, que pressionam o preço do petróleo e podem dificultar o controle da inflação.
“Os principais sinais de alerta estão justamente nos fatores que determinam a sustentabilidade do crescimento: contas públicas, juros reais elevados, endividamento e saúde financeira das empresas. A fotografia atual é positiva, mas a leitura estrutural exige muita cautela”, afirmou.
Segundo Jucélia Lisboa, esse ambiente exige maior prudência das empresas na tomada de decisões de investimento, principalmente quando o horizonte é de longo prazo.
Na avaliação do especialista em recuperação judicial e CEO da Siegen, Alexandre Temerloglou, o elevado custo do crédito continuará sendo um dos principais desafios para as empresas brasileiras.
Ele afirma que a expectativa da consultoria é de que a Selic permaneça próxima de 14% até o fim do ano, mantendo elevado o custo financeiro das operações.
“A dificuldade de rolagem das dívidas continua muito grande. As empresas enfrentam juros elevados, aumento do custo dos insumos, pressão dos fornecedores e também crescimento das despesas com mão de obra, já que a renda vem subindo acima da inflação”, explicou.
Segundo Temerloglou, esse conjunto de fatores reduz as margens das empresas e pressiona o fluxo de caixa, principalmente em negócios que já operam com baixa rentabilidade.
Como consequência, a tendência é de continuidade no aumento dos pedidos de recuperação judicial e dos processos de reestruturação financeira.
“O cenário continua bastante desafiador. Mesmo que a Selic comece um ciclo moderado de redução, ela permanecerá elevada por um período prolongado. As empresas precisarão adaptar sua gestão financeira para conviver com esse ambiente de juros altos por mais tempo”, concluiu.
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