Cesta básica bate recorde em BH e supera R$ 800 pela primeira vez
O preço da cesta básica em Belo Horizonte bateu recorde e chegou a superar pela primeira vez R$ 800. Em junho, o custo subiu 0,52% na Capital, marcando a quinta alta consecutiva, impulsionada pelas elevações no feijão carioquinha (9,23%) e tomate (4,63%). Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (03), pelo Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Fundação Ipead).
O resultado reforça a trajetória de encarecimento da cesta básica nos últimos anos. Em janeiro de 2024, o conjunto de alimentos já havia ultrapassado pela primeira vez a barreira dos R$ 700, e agora, passa a custar em média R$ 800,76.
Dos 13 itens que compõem a cesta básica, os preços de sete subiram em junho. Além do feijão-carioquinha e tomate, o leite (3,81%), a banana caturra (2,9%), o açúcar cristal (0,9%), a farinha de trigo (0,8%) e o pão francês (0,1%) apresentaram oscilações para cima.
Em contrapartida, o café moído (-7,18%), a manteiga (-6,73%) e o óleo de soja (-6,23%) registraram as maiores quedas, ajudando a conter um avanço mais intenso da cesta básica no mês. Também apresentaram recuo os preços do arroz, da batata e da carne bovina.
De acordo com o gerente de pesquisa do Ipead, Eduardo Antunes, o mercado está em alerta com a quinta alta consecutiva no preço da cesta básica em Belo Horizonte. “O cenário deste ano é diferente do observado no ano passado. Em vez de oscilações mais moderadas, a cesta básica passou a registrar altas consecutivas, acumulando um aumento superior a R$ 50 desde dezembro”, destaca.
Segundo Antunes, a trajetória de alta da cesta neste ano tem sido fortemente influenciada pelo comportamento do feijão-carioquinha. Apenas em 2026, o produto já acumula elevação próxima de 45%, figurando entre os principais responsáveis pelo encarecimento da alimentação na Capital.
O especialista destaca que o avanço da cesta tem sido resultado de um “cabo de guerra” entre os alimentos. De um lado, itens como o feijão-carioquinha e o tomate exercem forte pressão de alta e, do outro, produtos como café moído, manteiga e óleo de soja vêm apresentando quedas de preços e ajudam a amenizar parte desse impacto, embora sem força suficiente para impedir novas elevações.
“Os recuos de alguns produtos aliviam parcialmente a pressão, mas não conseguem compensar os aumentos expressivos de alimentos que têm grande peso na composição da cesta, especialmente o feijão e o tomate”, argumenta Antunes.
A alta do feijão-carioquinha pode ser explicada por um problema severo de safra neste ano, que elevou o preço do insumo no mercado. A expectativa, segundo o especialista, é que uma nova safra possa normalizar o preço para patamares mais acessíveis.
Alimentação consome quase metade do salário mínimo
Em junho, o preço da cesta básica em Belo Horizonte representou quase metade (49,4%) do valor do salário mínimo. No mesmo período do ano passado, essa proporção era de 49,6% e a cesta custava R$ 46,69 a menos que atualmente.
Apesar da estabilidade proporcional ao salário mínimo, o economista Guilherme Almeida avalia que o avanço no preço da cesta básica em Belo Horizonte é relevante por ser algo que a população não pode abrir mão do consumo.
“A cesta básica já compromete praticamente metade do salário mínimo, o que representa um peso muito relevante para o orçamento das famílias. E esse gasto não é o único: despesas com moradia e transporte também consomem uma parcela significativa da renda, reduzindo ainda mais o poder de compra da população”, destaca o economista.
Segundo Almeida, o aumento do preço dos alimentos também reduz o espaço para outros tipos de despesas. Com uma parcela cada vez maior da renda destinada à alimentação, os consumidores tendem a cortar gastos considerados não essenciais, o que também afeta o consumo de outros setores da economia.
Clima e juros elevam preocupação para os próximos meses
Para os próximos meses, a expectativa não é otimista. De um lado, o economista chama atenção para a possibilidade de um episódio mais intenso de El Niño, que pode alterar o regime de chuvas em diferentes regiões do País, prejudicando a produção agrícola e gerando novas pressões sobre os preços dos alimentos.
De outro, o cenário do crédito deve permanecer desafiador nos próximos meses. A justificativa é a expectativa é de manutenção da política monetária restritiva, com juros elevados, o que tende a dificultar o acesso ao crédito por famílias e empresas.
“A tendência é que os alimentos cheguem mais caros às prateleiras, o que fará com que uma parcela cada vez maior da renda das famílias seja destinada à alimentação”, projeta Almeida.
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